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In what ways does governance matter?

Em que liames se apóiam os velhos no presente para recuperarem o caminho de volta para o passado? Que elos se alojam entre passado e presente para que deles possamos ativar o que chamamos de memória?

De acordo com Japiassú (1996, p. 178) podemos entender a “memória como a capacidade de relacionar um evento atual com um evento passado do mesmo tipo”, acreditando na capacidade de evocar o passado através do presente. Isto quer dizer que experimentamos através de nossas experiências um sabor ou um cheiro que percebíamos ou tínhamos enquanto criança, mais tarde, quando adultos, ao sentirmos este cheiro ou este sabor somos remetidos voltando ao passado, e assim invocamos essa lembrança. Buscamos essa memória que estava adormecida, e que retorna ao nosso presente pelas sensações e percepções que adquirimos ao longo do tempo. Isto é fato para o ser humano.

A memória também pode ser compreendida como sentimento, percepção ou prática que tenha o passado como sua principal referência, neste sentido, ao traçarmos um pano de fundo bem delineado para a história social do velho, nos mostra Bosi (2003, p. 22),

(...) que ao lembrar do passado ele não está descansando, por um instante, das lides cotidianas, não está entregando-se fugitivamente às delícias do sonho: ele está ocupando-se consciente e atentamente do próprio passado, da substância mesmo de sua vida.

Ao mesmo tempo podemos pensar que a memória é sempre atual, pois a qualquer momento podemos evocá-la. Alimentamo-nos da memória tanto do passado quanto do presente em nossos sonhos, sempre acompanhados das lembranças e do esquecimento e isto nos cria um sentimento de pertencimento e de identidade, e, ao mesmo tempo, nos fornece subsídios para que a identidade se construa e se fortaleça a partir de elos comuns. Muitas vezes, em nossa infância deparamo-nos nos fins de tarde e à noite, na sala de estar, na cozinha ou na varanda, com os nossos avós, com outros velhos contando e recontando sobre suas vidas, suas histórias, presentificando o tempo em suas memórias. Faziam disso, para os mais jovens, uma forma artesanal de produzir as lembranças e os fatos de seu passado no presente e na memória.

Também para Chauí (2000), a memória é uma evocação do passado. É a capacidade humana para reter e guardar o tempo que se foi salvando-o da perda total. A lembrança conserva aquilo que se foi e que não retornará jamais.

Ao se referir aos antigos e à sua relação com a memória, esta autora nos narra que os antigos gregos consideravam a memória, uma identidade sobrenatural ou divina: era a deusa Mnemosyne, mãe das Musas que protegiam as Artes e a História. A deusa Memória dava aos poetas e adivinhos o poder de voltar ao passado e de lembrá-lo para a coletividade. Tinha o poder de conferir a imortalidade aos mortais, pois quando o artista ou o historiador registram em suas obras a fisionomia, os gestos, os atos, os feitos e as palavras de um humano, este nunca será esquecido e, por isso, tornando-se memorável, não morrerá jamais.

Novamente, para se pensar a memória, recorremos a Maurice Halbwachs (2006) que distinguiu dois tipos de memória, a “autobiográfica”, que é pessoal e vivida, que necessariamente sofre influência do meio social, sendo sempre filtrada pelo presente, e a “memória histórica”, que é passada para o indivíduo pela coletividade e que se refere a coisas e processos do passado que ele não vivenciou, mas que, a partir desse processo, passam a fazer parte da sua história. Apoiou-se o autor nas relações que a memória estabelece com o meio social do indivíduo, na sua necessidade de viver em sociedade e, por imediato, extraiu dessa relação indivíduo- sociedade as bases para se pensar a memória. Neste sentido, para Santos (1998) a percepção de Halbwachs, para construir o sentido que é atribuído à memória, é que ela não é e não pode ser considerada o ponto de partida, porque nunca parte do vazio; a memória é adquirida à medida que o indivíduo toma como sua as lembranças do grupo com o qual se relaciona: há um processo de apropriação de representações coletivas por parte do indivíduo em interação com outros indivíduos. O autor priorizou, em seus estudos, a análise do que ele denominou de “quadros sociais da memória” ou

das “representações coletivas”; neste sentido procurou estabelecer o que pode ser considerado como os princípios fundamentais de uma teoria sobre memória.

Percebemos que a questão central trabalhada por Halbwachs (2006) é que : Quaisquer que sejam as lembranças do passado que possamos ter – por mais que pareçam resultado de sentimentos, pensamentos e experiências exclusivamente individuais –, só podem existir a partir dos “quadros sociais da memória.

Este autor nos faz compreender que construímos nossas memórias como membros de determinados grupos sociais e que para tal utilizamos as convenções presentes na sociedade em que vivemos. Assim, muitas vezes os velhos não conseguem se lembrar de algum fato por eles mesmos, necessitam de apoio ou de confirmação de outrem para afirmar ou negar a lembrança, a qual pode se localizar em algum lugar específico de tempo e espaço. Contudo, para Halbwachs, quando nos lembramos de um evento do passado, o fazemos por meio da reconstrução de uma série de imagens fragmentadas e de um conhecimento acumulado a partir de experiências já vivenciadas.

De certa forma, Halbwachs também priorizou em seu trabalho a análise de quadros sociais da memória ou de representações coletivas. Segundo Santos (1998), ele, optou pelo estudo de quadros sociais para explicar a memória, procurando uma alternativa não só à abordagem filosófica de Bergson como também à de diversos pensadores de sua época, como James Joyce, Marcel Proust, William James e Sigmund Freud, que estavam todos, à sua maneira, voltados para a memória como meio do conhecimento.

Em nossa pesquisa, ao falar da identidade do velho, falamos também sobre o estudo da memória ligada “aos quadros sociais do velho”, consequentemente junto à teoria de Halbwachs.

Ainda, segundo Santos (1998), o trabalho de Halbwachs nos deixou questões fundamentais a este final de século, e a memória trabalhada por ele, nos diz ela: “acredito que são os limites impostos a ela (memória) que representam o diferencial importante para sua compreensão. Assim, é a percepção destes limites no processo de construção da identidade coletiva do velho, que nos levou a considerá-las: não- essencialistas e eticamente responsáveis por legados de opressão e de esquecimento, que podem estar ausentes tanto do discurso deixado por gerações passadas, quanto de movimentos sociais atuantes no presente. Podemos também enfatizar a questão da intersubjetividade, quando Halbwachs nos explica que as lembranças permanecem coletivas e são lembradas pelos indivíduos com quem

convivemos e partilhamos nossa escuta, mesmo que se trate de situações bastante pessoais. Dividimos intersubjetivamente nossas ações e nossas idéias com os demais, já que invariavelmente não estamos sós. Daí, a memória compartilhada (de afetos, sensações, aprendizagem e outros), seja com indivíduos que participaram de momentos vividos ou que de alguma forma neles estiveram envolvidos. Ainda que seja uma memória partilhada não pela presença física, mas pelas idéias e pontos de vista de outros com os quais nos identificamos e que, de alguma forma, ajudam-nos a construir nossas percepções e, por resultado, nossas lembranças.

Ainda a respeito da memória coletiva Enne (2004) nos explica que nela estão interligadas as diversas memórias dos indivíduos que fazem parte do grupo identificado como proprietário daquela memória. No entanto, a afirmação central de Halbwachs, (1990), sobre a memória é a de que, quaisquer que sejam as lembranças do passado que possamos ter — por mais que pareçam conseqüência de sentimentos, pensamentos e experiências exclusivamente pessoais —, só podem existir a partir dos quadros sociais da memória.

Desta forma, podemos dizer que no núcleo da identidade do velho estão as representações sociais do meio do qual ele fez parte. São essas representações que, possivelmente, serviram de apoio para suas identificações no exercício de seus papéis sociais. A memória coletiva funciona como uma reposição de sentido para a vida do velho. Mas ao mesmo tempo em que é algo exterior para o velho, este, como parte do grupo de identificação, contribui para a sua conservação ou renovação.

Para Santos (1998), Halwachs já afirmava que indivíduos não se lembram por eles mesmos, isto é, para lembrarem, necessitam da lembrança de outros indivíduos, para confirmarem ou negarem suas lembranças, que por sua vez estão localizadas em algum lugar específico no tempo e no espaço. Ao ressaltarmos o caráter social da memória coletiva do velho e explicar que nem mesmo para ele as memórias mais íntimas podem ser pensadas em termos exclusivamente individuais, podemos crer que o caráter social do velho é interativo da memória do seu grupo de pertencimento, neste sentido, todas as suas lembranças junto ao seu grupo de pertencimento relacionam-se, portanto, com a vida material e moral da contemporaneidade.

Assim, concluímos que existe para o velho sua memória individual e a memória coletiva, primeira que se torna capaz de, no presente do velho, repor o sentido de sua identidade. Caso este insista em repor o sentido de sua identidade com base somente na memória individual esta poderá vir a ser um monólogo sem produzir eco de reposição de sentido. A reposição de sentido para o velho se dá em forma de repetição de suas lembranças, o que, para o velho, torna-se assim, um modo de reposição do sentido de sua identidade pessoal e coletiva.