Outra forma de pensar se mostra presente na teoria de Berger e Luckman (1985), assim, o processo de apropriação do mundo pelo homem consiste em apreender de forma interativa a experiência histórico-social e, com isso, dar curso ao seu desenvolvimento ontogênico, o que significa incorporar a experiência acumulada no processo histórico e atuar no mundo dos objetos, da língua, dos conceitos, das idéias, das criações, entre outros, para poder desempenhar as diversas formas de atividades e desenvolver as características e capacidades físicas e psicossociais que se cristalizaram no seu mundo, como a corporeidade, a linguagem, o pensamento, as emoções, a consciência e outros. Assim, é da representação da experiência na dimensão de vida, o velho apreende e constrói sua narrativa, e assim, através desta narrativa como uma ferramenta, que ele se torna capaz de atuar no mundo e de organizar seu contato com o mundo. No sentido dessa dimensão de si e do mundo, e das formas de interação com o outro e com o mundo social, ele conta a sua história, narrando os fatos, acontecimentos e afetos que percorrem a sua trajetória vivencial. E, na medida em que o faz, desvela a sua experiência, ao mesmo tempo em que a constrói e reconstrói, através da linguagem. Ao contá-la, o velho nos introduz na sua
vida, sensibiliza-nos e coloca-nos como participantes da sua experiência, fazendo do entrevistador um sujeito dessa experiência que ele cria e recria.
Neste nosso estudo empregamos a abordagem qualitativa da pesquisa. O velho, devido ao seu maior tempo de vida, acumula mais elementos que formam a memória coletiva do que o que ocorre a uma pessoa jovem. O passado interage com o presente e vice-versa. A temporalidade neste processo somente é possível quando é ligada a uma ou a várias formas de narrativas, sejam elas da memória individual ou da memória coletiva; portanto, tenderiam a justificar tanto os aspectos regulatórios como os emancipatórios do processo. Por tais razões, justifica-se a metodologia adotada nesta pesquisa, que busca compreender a história de vida dos velhos aqui entrevistados, a partir de suas narrativas orais.
Na perspectiva de trabalhar com velhos em processo de metamorfose, o aspecto de grande peso que perpassa a questão apresentada é o processo de identidade. Para Ciampa (2005, p. 148), dois pontos importantes devem ser levados em conta:
1) que a questão da identidade é central, porque problematiza a própria natureza do real;
2) que a questão da identidade posta como metamorfose na aparência, se inverte no contrário: a não–metamorfose, quando há reposição de pressupostos.
Segundo Baptista (2002, p. 145), a complexidade destes processos envolve ainda a questão de estarem eles em interação, através de composições e oposições, o que faz a identidade ser a integração da semelhança e da diferença, tanto em relação a si mesmo como na relação de cada um com os outros que guardam entre si pequenas e /ou grandes semelhanças ou diferenças.
Nesse sentido, procuramos fundamentar teoricamente sobre como o velho está tomando consciência desta permanente transformação, considerando que o significado de identidade é formado na relação entre processos de integração tanto de igualdade como de diferença, indicadores do entendimento destes sujeitos-velhos a respeito de aspectos caracterizados como de emancipação e de metamorfose humana em um processo complexo e dinâmico que se constitui na relação dialética do homem com seu mundo real, tendo a subjetividade como forma de se expressar.
Ciampa (2005), ao citar Heller (1992), mostra-nos, nesta tarefa de determinar os processos sociais, que “a importância social dos papéis está na possibilidade que eles criam para que as pessoas automatizem sua participação no mundo cotidiano”. Verifica-se que há uma nova categoria para este envelhecimento social, justificada em razão de o velho não aceitar qualquer lugar imposto pela
sociedade e ser visto como estorvo, mas como um sujeito participativo no mundo contemporâneo, nos aspectos do cuidado com a saúde, com a cidadania, com as conquistas e com os espaços sociais nos quais transita o que implica a construção da identidade e a intersubjetividade contemporânea.
Voltando ao nosso trabalho de mestrado, ao pensarmos na articulação - contexto de inserção do velho e memória - vimos que é possível redimensionar essa sua memória, a sua própria história, valorizando este ser em sua dignidade, em seu despojamento de contar, de reviver, pois, nesta reconstrução, neste fazer, é que incide a metamorfose humana, a partir de relatos das lembranças, das narrativas orais, na forte religiosidade que o velho traz em sua vida, nesta transformação em que o sujeito- velho foi sendo redimensionado em seu papel social, na diferença, na singularidade, na normatividade dos papéis apreendidos.
Nesse sentido, a condição de emancipação do ser humano só ocorre universalmente quando, através do agir comunicativo, houver possibilidade de se estabelecerem projetos coletivos que conduzam a um estado em que realmente os homens como um todo sejam responsáveis pela construção de sua história (BAPTISTA, 2002, p. 148), pois, segundo Debert (1999, p.: 11) o “velho” é um ator que não mais está ausente do conjunto de discursos produzidos, para nós. “Os velhos são como um conjunto autônomo e coerente que impõe outro recorte à geografia social”. Tais mudanças permitem que possamos pensar que o envelhecimento não acontece mais aos exatos 60 anos de idade, até porque, hoje, auferem-se vantagens em ser velho, vantagens essas evidenciadas cada vez mais na sociedade, na política, na saúde, na mídia, no setor de turismo, de lazer, etc.
Nossa justificativa é a de que a questão da identidade do velho no mundo contemporâneo implica necessariamente mudanças processadas em sua história pessoal e em sua intersubjetividade, assim como implica o seu projeto de vida, a assunção de novos papéis sociais, caracterizando-se, dessa forma, a identidade como um contínuo processo da articulação de igualdade e diferença, de movimento e dialética.
Neste nosso trabalho foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas para conhecer através da narrativa a história de vida dos velhos e a dimensão dada ao seu projeto individual, objeto de estudo da presente investigação. Escolhemos aqueles velhos a partir de 65 anos de idade, que são moradores em Alfenas e Pouso Alegre, cidades em que desenvolvemos nossas atividades acadêmicas e profissionais.
Os autores escolhidos para mediar nossas análises a respeito das entrevistas que se apresentam neste trabalho vêm, na sua maioria, da área da Psicologia Social, e se valem primordialmente da categoria identidade e memória.
Enfatizamos, contudo, que o emprego desta categoria por teóricos das Ciências Sociais tem contribuído para várias discussões e desdobramentos, pois geralmente esta categoria está vinculada à idéia de sujeitos e de grupos e atrelada a princípios como unidade, semelhança e totalidade, o que lhe acarreta grande componencial de fixidez, aspectos que problematizamos nesta investigação.
Aceito o convite para participarem da entrevista, os participantes foram informados a respeito dos seguintes procedimentos:
A) Quanto a sua história de vida – narrações gravadas e transcritas literalmente,
sendo possível, se necessário, após a digitação e a formatação, fazer acréscimos ou a retirada de dados.
B) Quanto a uma seção de perguntas – as respostas foram gravadas e transcritas
literalmente, sendo possível também, quando necessário, fazer acréscimos ou a retirada de dados. Para esse fim, foram elaboradas duas perguntas:
1) Quem é você?
2) Quem você gostaria de ser?
C) Cada participante, se julgasse necessário, ao término de nosso trabalho, poderia
tecer suas considerações a respeito do mesmo. Tudo seria gravado, transcrito literalmente e depois digitado.
Escolhemos estudar o cotidiano de uma classe social cujos membros seriam, conforme estereótipos sociais, tidos como relegados, irrelevantes e, conforme os dizeres de Gagnebin (2006) seriam “aqueles deserdados de seus trabalhos”. São pessoas velhas que moram tanto nas instituições asilares como fora delas, residindo alguns deles no mesmo bairro onde residimos.
Entretanto, verificamos, logo por ocasião da coleta de dados, que os velhos participantes desta investigação não corresponderiam aos estereótipos de senso comum, não viviam isoladamente, nem se sentiam marginalizados, mas participantes efetivamente de atividades sociais, como bazares beneficentes, além de apresentarem bem-estar biopsicossocial.
Então, para além da escolha de velhos moradores no bairro em que residimos, para efeitos de contraponto, escolhemos duas instituições a que sempre tivemos livre acesso: a instituição número 1, que abriga 83 sujeitos velhos, tanto do sexo masculino como do sexo feminino; e a instituição de número 2, com 73 sujeitos velhos, sendo a maioria mulheres.
As entrevistas realizavam-se no quarto do participante residente em instituição, para prevalecer sua intimidade e sigilo. Tivemos vários encontros para conseguir certa intimidade e ganho de confiança entre pesquisador e entrevistados. Com relação àqueles residentes fora da instituição, fomos até suas casas e as entrevistas tinham lugar na sala ou no quarto por eles determinado. Fizemos recortes da fala de nossos entrevistados, buscando aliar sua identidade e suas memórias num processo social e histórico.
Por questões éticas, os participantes escolheram substituir seus verdadeiros nomes por apelidos ou nomes fictícios.