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In document Et forsvar til besvær? (sider 66-72)

5 UTENLANDSFORSVARETS UTFORDRINGER 5.1 Innledning

5.2 Vurdering av dokumentene .1 Innhold og budskap

Papel importante na moldagem e transmissão das memórias foi o desempenhado pelos oradores, que aproveitavam a presença de muitos peregrinos, para, do púlpito, transmitirem os ensinamentos da Igreja Católica. Carreira distinta, para a qual tinham de ter a aprovação da cúria diocesana. De palavra fácil, bastante conhecedores do que as pessoas ansiavam ouvir, mereciam destaque nos anúncios das festividades. Eram muitos os encómios dirigidos aos pregadores a realçar a sua capacidade oratória, surgindo por vezes, antes do seu nome “distinto orador”. Eram momentos de transcendência religiosa, porque as pessoas como que “bebiam” as suas palavras e, não raras vezes, as lágrimas corriam pela cara dos presentes206.

Sendo o cristianismo uma religião do livro, a difusão da mensagem está intimamente ligada à difusão pela palavra. A oratória ganha grande relevância, numa sociedade pouco alfabetizada, porque vivia-se “num mundo da cultura predominantemente oral”, e, dessa forma, a principal via de transmissão do sagrado era por meio da palavra207. Se isto é válido para os tempos modernos, ainda o é para as sociedades rurais, pouco alfabetizadas da primeira metade do séc. XX208. Esse papel era desempenhado com mestria pelo clero regular, melhor preparado na retórica e, com mais conhecimentos teológicos, nos tempos modernos. Eram perfeitos zeladores e cuidadores das almas dos fiéis, encarregados pelos seus superiores de cumprirem a sua missão 209.

Nos primórdios do século XX, quando se sente claramente a quebra, provocada pela sua exclusão, desde 1834, e o seu lento caminho de retorno, a partir dos finais do século, são os clérigos especialmente preparados para pregar a missão, oradores experimentados, que

206 “Padre Alexandre Brito que mais uma vez nos vae deixar admirar a sua palavra fluente in Festividade no Campo de Besteiros. Jornal Folha de Tondela. 13 maio de 1906, p. 2

207 CAMÕES, António Gouveia – O Enquadramento Pós-Tridentino e as Vivências do Religioso In MATTOSO, José (Dir.) - História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores. Vol. 4 p. 294

208 Neste movimento de regresso ao catolicismo em que se assistiu à conversão de autores famosos, mais impacto teria junto das populações rurais os oradores sagrados, porque desempenhavam um papel importante, sendo escolhidos os melhores. “Tão melindrosas operações não eram confiadas ao cura da freguesia. A Igreja dispunha de figuras carismáticas, padres e religiosos cuja reputação correspondia ao franciscanismo, por todos apreciado” in RAMOS, Rui – a Traição dos Intelectuais In MATTOSO. José (Dir.) - História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores. Vol. VI p. 558.

209 Cf. CAMÕES, António Gouveia – O Enquadramento Pós-Tridentino e as Vivências do Religioso In MATTOSO. José (Dir.) - História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores. Vol. 4 pp. 290 – 299.

andarão pelas paróquias, a prepararem as comunidades de crentes para a visita pastoral do Bispo. Estes missionários da palavra gozavam de “boa aceitação […] entre a arraia- miúda”210 . Momentos fortes de íntima ligação entre os oradores e a comunidade, dos

quais resultava um grande número de comunhões e de manifestações de fé aquando da visita do Bispo211.

Essa tradição já vinha do período medieval quando as festas religiosas eram o “lugar privilegiado de educação graças aos sermões”212. Os oradores do púlpito adquiriam

fama e, através da sua eloquência, como que se individualizavam das outras cerimónias, sendo chamariz para afluência de peregrinos213.

No início do século XX eram quase sempre os mesmos pregadores, normalmente anunciados como oradores, a percorrerem as principais festividades da região214. Não

admira, pois, a forma distinta e elogiosa como eram anunciados, assumindo um papel de destaque nas diferentes festividades. Eram quase sempre os mesmos que pregavam nas principais festividades do concelho de Tondela, merecendo sempre referências elogiosas215. Num dos relatos da festa de Santa Cruz, a 3 de maio, em Campo de Besteiros, em 1930, comprovamos a importância da transmissão da tradição católica por esses oradores que, com as suas palavras, comoviam os peregrinos: o padre Horácio Ribeiro de Castro dirigiu “uma saudação à Cruz e fê-lo com tanto calor que conseguiu arrancar copiosas e sentidas lágrimas da selecta e numerosa assistência”216.

Aproveitam também esse momento para transmitirem a tradição e perpetuarem a memória. Assim o fez, como de certeza fizeram outros, o “Padre António D’Azevedo Coutinho, que num magnífico discurso explicou a origem das procissões e o voto que as

210 SANTOS, Eugénio Francisco – Missões do Interior. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir). Dicionário de

História Religiosa de Portugal. Lisboa. Círculo de Leitores. 2000. vol. 3 (J-P) p. 230.

211 CAMÕES, António Gouveia – O Enquadramento Pós-Tridentino e as Vivências do … Vol. 4 p. 295. 212 HEERS, Jacques – Festas de Loucos e Carnavais. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 1987. p. 37. 213 HEERS, Jacques – Festas de Loucos e Carnavais… p. 37.

214 Encontramos nos jornais da época, Folha de Tondela, A Beira e outros, inúmeras referências que estaria presente o distinto orador sagrado, como registamos no Ecos do Caramulo, de 26 de maio de 1929 numa festividade “com missa cantada […] com sermão pelo reverendo Pe. Horácio Ribeiro de Castro, um dos mais conceituados oradores do nosso meio”.

215 Ao Evangelho pregou o distinto orador sagrado […] sr. P. Horácio Ribeiro de Castro. Festa da Ascensão.

Ecos do Caramulo. 18 de maio de 1930. p. 4.

freguesias vizinhas fizeram em concorrerem processionalmente em dia da Ascensão a esta freguesia”217.

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