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2.4 Studiens kvalitet

Mapa 1 - A serra do Caramulo e o vale de Besteiros (Área de Estudo) Fonte: DGT – CAOP2018

36 Até aos nossos dias ainda não se encontrou uma explicação plausível para atribuição de Vale de Besteiros a esta região.

Ao nascer, o Homem de Besteiros sente-se como protegido pelo aconchego proporcionado pela serra do Caramulo que, de forma imponente “constitui a orla ocidental do extenso planalto da Beira Alta, de que a separa o fertilíssimo vale de Besteiros”37. Essa

sensação de aconchego, de proteção, resulta da forma abrupta como se apresenta a vertente oriental “deste lado cortado quase a prumo”38. Esta imagem de imponência é

confirmada por Silva Pereira que escreve que “a Serra do Caramulo apresenta uma nítida dissimetria no sentido leste - oeste: do lado oriental é limitada por uma imponente escarpa de falha que chega a atingir o desnível de 800 metros, enquanto do lado ocidental desce paulatinamente, não sem que se façam sentir alguns ressaltos morfológicos devidos a pequenas superfícies aplanadas, até atingir a plataforma litoral”39. Na vertente ocidental

a sensação é de uma vertente que se espreguiça, espraiando-se em direção ao mar.

Esse aconchego advém do abrigo dado pela serra a poente, e beneficia da abundância de água resultante de ribeiros e rios que nascem na serra que torna a “sub-região de Besteiros, […] em relação às terras circunjacentes, um oásis de cultura intensa, com fartos vinhedos e denso revestimento de árvores de fruto, entre as quais a laranjeira merece especial atenção”40.

Abundante de água, da qual temos muitos exemplos na toponímia que comprova a existência de nascentes, de inúmeros ribeiros e, o aproveitamento que era feito desse precioso líquido. Como exemplo, poderíamos incidir somente a nossa atenção na toponímia da freguesia de Campo de Besteiros para encontrarmos com abundância vários topónimos com referência à agua e, do aproveitamento. Desde o Açude, Pego, Gorgolão, Moinho da Veia, Levada, Ribeira, Ribeiro, Agontinha, Moinho da Sapata, Açude do Mourão, Açude do Broco, Açude da Regada. Da serra, já o padre Luís Cardoso refere que a mesma “tem vários nascedios de agua, da qual reprezada em açudes se valem os moradores vizinhos para regarem os seus lameiros, e com esta industria fazem terreno

37 CUNHA. A. Gonçalves- Vegetação de Serra. Um esboço de um estudo ecológico da Serra do Caramulo. Lisboa: Casa Portuguesa. 1953. p. 12.

38 CÉSAR, José Júlio- A mais linda serra. Viseu: Tipografia Central. 1915. p. 3.

39 PEREIRA, J. V. Silva- A Serra do Caramulo – desintegração de um espaço rural. Coimbra. Faculdade de Letras de Coimbra. 1988. p. 37. Dissertação de Doutoramento.

40 GIRÃO, A. de Amorim-Notas Geográficas in Excursões no Centro de Portugal. Coimbra: Instituto para a Alta Cultura. 1939. p. 117.

abundante principalmente de milho, e centeyo ordinário mantimento desta gente”41.

Como vimos a água é um elemento essencial, determinante para a sobrevivência de uma população e as técnicas hidráulicas para o seu aproveitamento.

Compreender o Homem de Besteiros, de outros tempos, na sua plenitude impõe conhecer o meio físico em que vive, e do qual retira a sua subsistência, transformando a paisagem nessa luta diária. Nessa ação permanente, o homem acrescenta à natureza, pormenores, transformando-a, dando-lhe um certo cunho, daí que ao estudarmos o Homem, nas suas vivências, temos também de conhecer o meio em que vive42.

Assim, para melhor compreendermos a realidade paisagística do vale e da serra, escolhemos autores contemporâneos à cronologia do nosso estudo, porque visitaram a serra, observaram a paisagem, verificaram as condições climáticas, edáficas, bióticas e tiveram em consideração as condições fisiográficas, ou seja, as condições orográficas e topográficas43.

Amorim Girão escreveu umas notas geográficas resultantes de excursões no centro de Portugal, em visita à Serra do Caramulo, ao vale de Lafões e também ao vale de Besteiros. Uma das excursões saiu da Lusa Atenas em direção a Viseu e, nesse percurso olharam a serra ainda na região da Bairrada sobressaindo o seu ponto mais alto, o Caramulinho que se encontra a 1074 metros acima do nível médio das águas do mar, apresentando a forma de um cesto de vindima invertido, depois de uma jornada de trabalho e, por essa razão, é apelidado pelos oriundos da região de “Cesto Poceiro”44. Por estradas sinuosas, vindos de Águeda encontraram uma região xistosa, com muito pouca vegetação45.

41 CARDOSO, Luís – Diccionário Geográfico, ou notícia histórica de todas as cidades, villas, lugares, e

aldeeas, rios, ribeiras, e serras dos Reynos de Portugal e, Algarve, com todas as cousas raras, que neles se encontraõ, assim antigas, como modernas / que escreve, e oferece ao muito alto…Rey D. João V nosso senhor o P. Luiz Cardoso da Congregaçaõ do Oratório de Lisboa. Lisboa: Regia Officina Sylviana e da

Academia Real, 1747-1751. Tomo II, pp. 173-174.

42 RIBEIRO, Orlando- Introdução ao Estudo da Geografia. Lisboa: Sá da Costa. 1995. p. 36

43 CUNHA. A. Gonçalves- Vegetação de Serra. Um esboço de um estudo ecológico da Serra do Caramulo. Lisboa: Casa Portuguesa, 1953. p. 5-6.

44 GIRÃO, A. de Amorim-Notas Geográficas in Excursões no Centro de Portugal… p. 108. 45 GIRÃO, A. de Amorim-Notas Geográficas in Excursões no Centro de Portugal… p. 108.

Quem olhar a serra e vê, na sua vertente oriental “pela encosta abaixo […] uma vegetação abundante”46. Beneficia, ao longo do ano, de uma “temperatura relativamente

constante, tendo ao seu dispor uma quantidade significativa de água “que brota em catadupa de todas as quebradas, dos vales, por vezes quase fechados”47.

Uma serra verdejante, um vale fértil, do qual fazia eco o presidente da Junta Autónoma da Ria de Aveiro, ao referir “o rico vale de Besteiros”48,vale muito irrigado, e

onde os habitantes reconheciam a influência da quantidade de chuva na agricultura traduzida no ditado popular “vento alcobês, venta um e chove três”, mas se o vento sopra do lado de Viseu, ou seja, de Espanha, a preocupação tomava conta do agricultor, “porque de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”49.

Da descrição de José Júlio César e, se empreendermos a viagem pelas suas palavras, cruzámos “o formoso vale de Besteiros, o mais lindo rincão deste jardim da Europa à beira mar plantado”50. Entra-se como num vale encantado, provavelmente um

pouco exagerado pela pena de quem muito ama estas terras, mas o mesmo apresenta como uma paisagem única, emoldurada por “laranjais verde-negros, de onde pomos de ouro se destacam dentro da sua frondosa folhagem” 51. Poderão ser exageradas, mas as mesmas não diferem muito das de Amorim Girão que o classifica como um oásis farto de água e explorado intensamente52. Era para esse oásis que o homem de Besteiros rogava proteção e ajuda divina.

As condições naturais contribuem, com uma influência significativa para o desenvolvimento de comunidades que se distinguem entre si, porque são “baseadas em diferentes formas de domínio da natureza”53. Esta relação com a natureza e com o

aproveitamento dos meios naturais obriga as populações a adotarem estratégias de

46 CUNHA. A. Gonçalves- Vegetação de Serra. Um esboço de um estudo ecológico da Serra do Caramulo. Lisboa: Casa Portuguesa, 1953. p. 19.

47 CUNHA. A. Gonçalves- Vegetação de Serra… p. 20.

48 Por Besteiros – As riquezas desta região. Jornal A Beira. Castelões. 31 de maio de 1928. p. 3

49 SANTOS, José Ribeiro dos – Monstro Fabuloso Adormecido – Acorda, Irrompe e Urbaniza. Castelo Branco: RVJ, Editores, LDA. 2015, p. 31.

50 CÉSAR, José Júlio- A mais linda serra. Viseu: Tipografia Central. 1915. p. 3. 51 CÉSAR, José Júlio - A mais linda serra… p. 3.

52 GIRÃO, A. de Amorim- Notas Geográficas in Excursões no Centro de Portugal… p. 108.

53 MATTOSO, José – Identificação de um País. Oposição. Composição. Ensaio sobre as origens de

sobrevivência recorrendo, na maioria das vezes, ao divino. Da descrição plasmada na obra Santuário Mariano, já se escrevia, que estamos perante um vale, neste caso, o vale de Besteiros “muito alegre e delicioso, principalmente no tempo de Verão, por sua frescura e muitos arvoredos” 54. Como verificamos, o vale apresenta características próprias,

distintas da serra, contribuindo para uma identidade própria do homem de Besteiros que implica também a adoção “de sistemas culturais que organizam o domínio da natureza”55.

Sistemas culturais que implicam a transformação da paisagem agrária, com a seleção de culturas de acordo com a necessidade das populações, mas “obriga” também a uma crescente religiosidade e adoção de atos de fé, no sentido de rogar a proteção dos campos.

Outro espaço é a serra, a serra do Caramulo que se ergue imponente e protetora do vale, assinalado em obras anteriores: “A serra do Caramulo é muito célebre em a Província da Beira, como a serra do Marão que divide as de Entre Douro e Minho da de Trás os Montes. Corre esta serra de Norte a Sul. Em uma quebrada, pois, desta serra do Caramulo faz da parte ocidental o delicioso Vale de Besteiros”56. Esta ligação com a terra,

a sua dependência “em que todos os lugares daquela freguesia do Guardão estavam situados na mesma Serra do Caramulo onde há muita abundância de caça e gados que se apascentam em seus frescos vales que são abundantes de muitas fontes e de ribeiras frias e deliciosas águas entre as quais uma notável que se chama das Laceiras, por ficar junto a um lugar que tem esse nome“ 57.

Das descrições das paisagens naturais e rurais, que nos surgem nesta obra, inferimos as relações estabelecidas por estas comunidades com o meio, o seu aproveitamento e também a inferência na forma de ser e de viver destes homens, tão tementes a Deus, e tão dependentes das relações com o sagrado, durante um tempo longo.

Na verdade, num “vale, em a freguesia de Santa Eulália e em termo da cidade de Viseu se vê a casa de Nossa Senhora do Campo” 58 depreende-se um complemento entre a montanha e o vale, com trocas de produtos agrícolas, mas também a adoção de um

54 SANTA MARIA, Agostinho – Santuário Mariano e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora. Tomo V. p. 146.

55 MATTOSO, José – Identificação de um País. Oposição. Composição. Ensaio sobre as origens de

Portugal, 1096 – 1325. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores. 2015. p. 10.

56 SANTA MARIA, Agostinho – Santuário Mariano e história… pp. 374-375. 57 SANTA MARIA, Agostinho – Santuário Mariano e história …p. 385. 58 SANTA MARIA, Agostinho – Santuário Mariano e história …p. 146.

conjunto de práticas religiosas e de devoção que a memória coletiva conservou. Da leitura da parte da obra que se refere ao Santuário de Nossa Senhora do Campo, também podemos estudar o espaço envolvente, que, em finais do século XVII, nos apresenta como uma área que “tem uma fermosa alameda de carvalhos mansos, que são muito frondosos e viçosos e fazem aquele sítio muito agradável e delicioso, principalmente no verão e por esta causa é aquele santuário muito mais frequentado das romagens que são muitas”. 59

Estas descrições permitem-nos fazer uma geografia da memória, e antever o deambular dos peregrinos naquele espaço envolvente do santuário.

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