5 UTENLANDSFORSVARETS UTFORDRINGER 5.1 Innledning
5.4 Sikkerhet – et tolkningsspørsmål?
5.4.3 Det todimensjonale bildet
5.4.3.3 Undergraves de nasjonale oppgavene?
Não há certezas quanto às origens do surgimento desta festividade, mas o Padre Carvalho da Costa refere que a igreja matriz de Santa Maria do Guardão era a mais antiga, estando dependente dela noutros tempos, ou seja, sendo seus sufragâneos os habitantes
318 CESAR, José Júlio. A Cruz, símbolo de dor e de fé. Lenda e narrativa. jornal “Ecos do Caramulo”. Guardão. 3 fev. 1929 a 20 out de 1929.
319 Cf. CESAR, José Júlio. A Cruz, símbolo de dor e de fé… 320 CESAR, José Júlio. A Cruz, símbolo de dor e de fé… 321 CESAR, José Júlio. A Cruz, símbolo de dor e de fé…
do vale e do concelho de Besteiros e outros concelhos que se localizavam a oriente, bem como os moradores de Águeda, na vertente ocidental da serra do Caramulo322. Carvalho da Costa tenta precisar a data inicial da procissão “se confirma com a tradição, que diz haver menos cento e cincoenta anos que vinhaõ a esta Igreja em procissão no dia da Ascençaõ do Senhor com suas cruzes os moradores destes lugares”323.
Indica que “naõ vem mais do que de três freguesias, que são a do Salvador de Castellãos, a de Santiago, e a de Santa Eulália de Besteiros, e vem nesta forma: Sahen da sua Igreja em procissão com todo o povo até huma Ermida de Saõ Bertholomeu”324.
Como vemos, realça a antiguidade do culto a Nossa Senhora da Assunção, que no Guardão é venerada por Nossa Senhora dos Milagres, e, outro pormenor a considerar que eram sufragâneos “no tempo dos Mouros”325.
Porém, a tradição oral aponta outras razões de que faz eco Frei Agostinho de Santa Maria326. As procissões no dia da Ascensão surgiram em agradecimento a Nossa
Senhora pela sua ajuda e, sobretudo por causa das paróquias do Vale de Besteiros terem vindo em socorro dos habitantes do Guardão, já que os mouros tinham tomado uma fortaleza na zona do Castro de São Bartolomeu que estava cercado pelos mouros327. Esta explicação está bem vincada na memória dos mais antigos que a passaram de geração em
322 “A Igreja Paroquial deste Concelho he dedicada N. Senhora da Assunpção, foi a mais antiga, que houve nestas partes, conservando-se com Paroquo, Freguezes no tempo dos Mouros eraõ suffrageneos, os da Vila de Santa Comba Daõ, Couto de Mosteiro, que dista daqui três legoas para Nascente com todo o seu termo, em que há doze Paroquias: erao também freguezes os moradores de Agueda, que dista três legoas desta Igreja para o poente, os do lugar da Arrancada, que fica no mesmo emisfério”, COSTA, António de Carvalho da – Corografia Portuguesa e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal, com as notícias das fundações das cidades, villas, & lugares, que contem; varões ilustres, gealogias das famílias nobres, fundações dos conventos, catálogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edifícios, & outras curiosas observaçoens. Lisboa. Officina de valentia da Costa Deslandes. 1712. Tomo Segundo, p.190 323 COSTA, António de Carvalho da – Corografia Portuguesa e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal, com as notícias das fundações das cidades, villas, & lugares, que contem; varões ilustres, gealogias das famílias nobres, fundações dos conventos, catálogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edifícios, & outras curiosas observaçoens. Lisboa. Officina de valentia da Costa Deslandes. 1712. Tomo Segundo, p.190
324 COSTA, António de Carvalho da – Corografia Portuguesa … p.190. 325 COSTA, António de Carvalho da – Corografia Portuguesa… p.190. 326 SANTA MARIA, Agostinho – Santuário Mariano e história …p. 384.
327 “Dizem por tradição antiga, e confiantes, que hum dia da Asceçaõ do Senhor tomàraõ os moradores daquelas quatro freguesias aos Mouros hua Fortaleza, que tinhaõ no sitio aonde hoje se vè a ermida de Saõ Bartolomeu e que em acçaõ de graças se dera principio àquellas procissoens, que hoje continuaõ”. In SANTA MARIA, Agostinho – Santuário Mariano e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora, Lisboa: Officina de António Pedrozo Galran. 1716.Tomo V, p. 385.
geração, justificando o facto dos locais de partida de cada procissão serem diferentes, como se fosse o posicionamento para uma batalha. Difícil encontrar uma explicação, uma causa para o início destas procissões de ação de graças, mas como iremos ver estamos perante três ladainhas que são deprecatórias, para pedir proteção.
Existem pontos em comum entre as duas versões, os mouros, um local ermo que domina o vale, um castro. A versão que nos transmite Frei Agostinho de Santa Maria é a mais aceite e narrada na voz do povo, e também nos artigos dos jornais sobre esta festividade328. Como é usual ouvir-se nesta região - “atirai com Santiago aos Mouros”329.
3.2.2. As ladainhas
Mapa: Reconstituição do itinerário das Ladainhas junto à Capela de São Bartolomeu. Fonte: Google Earth 15-09-2019.
328 Assim também reproduz, num artigo publicado na Folha de Tondela que no largo de São Bartolomeu “concentram-se ali as freguesias de Santiago, Santa Eulália […] e Castelões, logo de manhã, em sítios diferentes, como que a tomar posição de guerra” PÓVOA, António – Festa Imponente no Guardão. Jornal
Folha de Tondela. 10 maio de 1969, p. 6.
329 Maria Júlia Marques Carrapiço Antunes (Ti Júlia). Testemunho recolhido em 29 de dezembro 2018. Guardão de Baixo.
O primeiro passo religioso dado pelas freguesias participantes, na quinta-feira da Ascensão, e que se repete indefinidamente, são as ladainhas. Dentro dos ritos ligados ao ciclo agrícola inserem-se as ladainhas menores, que, por costume, realizavam-se nos três dias que antecedem a Ascensão. As ladainhas deambulatórias ou rogações visam obter a intercessão de Nossa Senhora e de Todos os Santos evocados no sucesso da sua demanda, que é a luta com a terra de onde almejam alcançar o pão para o seu sustento. Apropriam -se do espaço de forma comunitária, onde reforçam os laços de solidariedade. No segundo concilio bracarense, datado de 572, refere-se que no início da quaresma as freguesias vizinhas “durante três dias e percorrendo as igrejas dos santos, cantando salmos, celebram as ladainhas”. 330 Desde sempre, em caso de necessidade e sem solução aparente, o
homem implorava ajuda, comandado pelo clero, fosse para a fome, a peste, a guerra, a chuva, ou “debelar a moléstia das searas”331, suplicando a Deus que fosse misericordioso.
330 MARTINS, Mário – Ladainhas de Nossa Senhora de Portugal (Idade Média e século XVI) [Em linha].
Lusitânia Sacra. 1961 [Consult. Em 14 fevereiro de 2019]. Disponível em WWW:
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/5057/1/LS_S1_05_MarioMartins.pdf, p. 139
331 MARTINS, Mário – Ladainhas de Nossa Senhora de Portugal (Idade Média e século XVI) [Em linha].
Lusitânia Sacra. 1961 [Consult. Em 14 fevereiro de 2019]. Disponível em WWW:
Figura 4: Ritual junto ao Cruzeiro defronte a Igreja de São Salvador.
Fonte: Santos, José Ribeiro dos - “Monstro Fabuloso Adormecido”. Anos setenta do século XX.
No monte Cramol, ano após ano, ecoam as ladainhas das três freguesias que individualmente percorrem os caminhos pedregosos, erguendo os pendões e as cruzes enfeitadas. Partem de lugares pré-determinados com marcos de pedra, e, aos primeiros passos, o padre eleva a voz e trauteia “Kyrie, eleison, Christie, eleison” ao qual o povo responde “orai por nós”. Num ambiente de respeito, de prece, ao som das ladainhas, o povo passa por dentro da capela de São Bartolomeu332, onde o santo ciosamente tem acorrentado o diabo, e continua em direção a um cruzeiro, onde se avista a Igreja Matriz de Castelões. A procissão nesse momento pára, o padre ajoelha-se na base do cruzeiro, e com voz mais forte canta três vezes “ Salvator Mundio tende miserere” (sic) ao qual o povo responde: “orai por nós.
Após percorrerem o monte de Cramol, voltam ao ponto de partida, onde a procissão é desmanchada. Alguns quilómetros adiante, junto à capela de São Sebastião, recomeça a procissão, com uma pequena oração dentro da capela, e parte em direção à Igreja Matriz de Santa Maria do Guardão, onde aguarda a freguesia anfitriã. Próximo da calçada romana, percorrida ao longo dos tempos por milhares de pessoas, o sacristão, tal como sentinela, faz soar três badaladas no sino, que mais uma vez avisa o povo de que alguém se aproxima. Elevam-se os pendões conjuntamente com as lanternas e as cruzes engalanadas, e acontece o momento do abraço, como descreve Carvalho da Costa em inícios do séc. XVII: “se saudão com muitos tiros de espingarda e pistolas em ação de aplauso, e se poem de geolhos até que a Cruz desta Freguesia chega às outras, em forma, que se abraçam as Cruzes, e ao som de muitos tiros”333. Séculos depois, o mesmo ato. Ao
mesmo tempo que decorre o abraço simbólico dos pendões e das cruzes, o padre da freguesia do Guardão vem receber o padre da “freguesia visitante e impõe-lhe a capa magna”334. Terminada esta cerimónia dirigem-se à Igreja Matriz e prestam homenagem à
Nossa Senhora da Assunção ou Nossa Senhora dos Milagres. Outro momento com grande simbolismo, e que se aguarda com emoção, é a bênção dos campos, para de seguida formarem um grandioso cortejo com as quatro freguesias onde se integra o andor de Nossa Senhora dos Milagres. Assim estava cumprido todo o ritual, num dia considerado santo, onde o povo, na sua devoção afirmava “se os passarinhos soubessem quando era o dia da Ascensão não iam ao ninho e nem punham as patitas no chão”335.
A paróquia do Guardão ainda cumpre o ritual de realizar as ladainhas menores, que ocorrem três dias antes da Ascensão. O ponto de partida é a Igreja Matriz, em cada dia, a ladainha do Guardão vai até um ponto determinado, mas simbólico, das outras ladainhas. Na segunda-feira dirige-se ao cruzeiro que se encontra no início do que resta da calçada romana, normalmente é aí que as freguesias de Campo de Besteiros e, mais tarde, Castelões aguardam que se efetue a cerimónia do Abraço das Cruzes. Na terça-feira partem da igreja Matriz até à capela de São Sebastião entoando a sua ladainha, e, depois de cumprido o ritual, desmobiliza. No terceiro dia, quarta-feira, sai outra vez a ladainha
333 COSTA, António de Carvalho da – Corografia Portuguesa … p. 190.
334 BORGES, Inês da Conceição do Carmo – A Festa das Cruzes no Guardão… p. 12
da Igreja Matriz e vai até à capela de São Sebastião. Nesse local a procissão é desfeita, continuando o percurso a pé até aos marcos de pedra que sinalizam o local onde formam as paróquias visitantes. Nesse local forma-se, novamente a ladainha, que faz o percurso das outras ladainhas e termina na capela de São Bartolomeu. Quatro dias consecutivos roga-se pela proteção dos campos, de forma individual que culmina numa comunhão de todas as freguesias na procissão final. Há todo um itinerário religioso que é respeitado, com locais próprios de início e de término das ladainhas. Encontram-se referências na paisagem, primeiro naturais, mais tarde, o homem colocou marcos que identificam os pontos de reunião como delimitando o espaço sagrado.