4.4 Buoyant Turbulence
4.4.1 Vortex primitives
Estamos num momento no qual o homem passa a viver inúmeras realidades ao mesmo tempo, tudo ao mesmo tempo, porém com inúmeras diferenças de percepção e expressão, como se o universo se decompusesse em incontáveis microuniversos, cada um seguindo uma lógica, uma forma de se expressar e se manter conectado a um sentido. A velha expressão “cada caso é um caso” se aproxima do que é percebido diariamente no cotidiano das pessoas, a partir de microprocessos interativos que ora destacam um, ora outro aspecto de forma relevante.
No dizer de Geertz (1978, p. 15):
O homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise, portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significados.
Nessa perspectiva de Geertz, verificam-se possibilidades de construção simbólica de significados nas ações interacionais entre pessoas, ao mesmo tempo em que reflete o papel da cultura enquanto teia de significados criada pelas próprias pessoas em suas relações interpessoais.
Tudo o que nos apresenta no mundo social-histórico, está indissociavelmente entrelaçado com o simbólico. Não que se esgote nele. Os atos reais, individuais ou coletivos – o trabalho, o consumo, a guerra, o amor, a natalidade – os inumeráveis produtos materiais sem os quais nenhuma sociedade poderia viver um só momento, não são (nem sempre, não diretamente) símbolos. Mas uns e outros são impossíveis fora de uma rede simbólica. (CASTORIADIS, 1982, p.142).
Castoriadis (1982) não distingue o mundo real e histórico da simbologia nas ralações interpessoais ou grupais. Para ele, os acontecimentos e as relações, por mais que nem tudo seja símbolo, é sempre certo que podem estar envolvidos em uma rede simbólica.
Geertz (1978), afirma que a cultura é uma rede de significados tecida pelo homem, e à qual ele próprio está amarrado. Essa ideia de rede de significados é semelhante à atmosfera simbólica da qual trata Cassirer (2005, p. 48):
Comparado aos outros animais, o homem não vive apenas em uma realidade mais ampla; vive, pode-se dizer, em uma nova dimensão da realidade. (…) Não estando mais num universo meramente físico, o homem vive em um universo simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a religião são partes desse universo. São os variados fios que tecem a rede simbólica, o emaranhado da experiência humana.
A produção de sentidos, observada a partir do simbólico e do “mito”, segundo Ernest Cassirer, passa por um “processo intelectual” que torna o homem um “produtor de sentidos”, com poder de criar “signos” ou “representar simbolicamente”, de modo vasto, tudo o que sua criatividade ou sua intuição produzirem, tanto as “ideias” quanto “conceitos”, sobre o que pode ser percebido pelos seus sentidos. Essa capacidade única seria uma espécie de “pensamento simbólico” (PRADO, 2010).
Desse modo o Homem constrói sua realidade a partir de atos simbólicos ou representativos através da criação de “signos”, que são os produtos de seu pensar na busca pelo conhecimento.
O “ser” ou “objeto” concebido pelo espírito humano é submetido a um “processo primordial e universal de construção de sentido”. Um processo que está presente em todos os universos culturais. Uma lei universal de construção do saber, porque todo e qualquer indivíduo, para que consiga compreender ou atribuir sentido ao seu mundo de experiência sensível, sempre dependerá dessa capacidade de criar “símbolos”, “elementos representativos” ou “signos” que garantam uma “expressividade” e uma “sistematização lógica” para tais “objetos do saber”. O “pensamento simbólico” é a base de todo “saber criativo” (PRADO, 2010, p. 2).
Para Cassirer (apud PRADO, 2010), coexistem mundos diferentes, nos quais uma dimensão sensível-material, se produz em contraponto ao plano espiritual- imaterial. No primeiro perdura a “experiência dos sentidos”, onde se destacam as coisas e objetos que são exteriores ao homem. Já no plano espiritual, do “intelecto cognitivo”, do “imaginário”, do “universo psíquico” a produção é de outra natureza, no qual a matéria prima são as ideias sobre as coisas exteriores ao homem, que estão no mundo material, porém o que se percebe é que esses dois planos são complementares e um está imbricado no outro, de maneira intrínseca e fundamental para o entendimento e vivência no mundo. Assim, é possível se construir conhecimento e ideias sobre o mundo humano.
E é essa troca permanente de sentidos entre esses dois mundos que alimenta a criatividade humana para se produzir símbolos e representações para o que experimenta, no campo social, nas práticas sociais cotidianas, quando busca dar sentido a elas, ou segue um sentido que vai sendo construído. Desse modo, o homem vai construindo seu conhecimento a partir das “formas simbólicas de representação” e de suas ideias em relação ao mundo que o cerca.
Conforme Prado (2010) Cassirer vai chamar de linguagem a esse sistema simbólico de representação de ideias e conceitos sobre as coisas. Nesse caso a “linguagem falada” seria vista como um sistema de “signos sonoros” capaz de representar e expressar simbolicamente ideias e concepções sobre tudo o que existe, como um instrumento pelo qual é dado o sentido ao que ocorre na vida cotidiana. A “linguagem” pode ser entendida como sistemas simbólicos de representação. E conforme Cassirer, há três tipos básicos de linguagem: “A ‘sonora’, constituída por signos sonoros apreendidos pela audição; a ‘visual’, constituída por signos imagéticos captados pela visão; e a linguagem ‘tátil’, constituída por signos materiais e sensíveis captados pelo tato” (PRADO, 2010, p. 3).
Para Cassirer ciência, mito, arte e religião abarcam a totalidade do conhecimento humano enquanto categorias ou campos específicos de produção de sentidos. Em termos linguísticos, Cassirer afirma que cada campo produz um conhecimento de mundo de maneira específica, porém seguindo o mesmo princípio básico de representação simbólica, uma vez que todos eles dependem de uma linguagem (falada/sonora), para poder expressar seus conceitos. Todavia, qualquer um desses campos pode se utilizar de todas as “categorias de linguagem simbólica” para representar seus valores ao mundo (PRADO, 2010).
A visão de Ernest Cassirer corrobora para se compreender o pensamento simbólico do homem, percebendo os produtos culturais, físicos e imaginários que fazem sentido em sua vida, em seu cotidiano, onde as diversas linguagens (sonora, visual ou tátil) expressam simbolicamente o conhecimento do homem sobre o mundo que o cerca. Conforme Prado (2010) Cassirer aponta a necessidade de se verificar os valores simbólicos de uma sociedade, enquanto uma busca pela essência do espírito humano.