4.2 Anisotropic Turbulence Modeling
4.2.4 Results and Discussion
Assim, observa-se que a dança acompanha a história do homem, desde a antiguidade e uma de suas funções mais pulsantes sempre foi a comunicação com sua expressão própria, a partir dos movimentos corporais livres, capazes de representar sentimentos, vida, cotidiano, celebração, ou seja, diversos aspectos. Essa prática é comum em muitas civilizações, que vivenciam a dança para celebrar as estações do ano, a chegada da chuva, o movimento do sol, a fertilidade, o louvor e agradecimento aos Deuses (COSTA, et. al. 2002).
Segundo estas autoras, a dança representa muitas coisas, a lembrança de histórias, emoções e vivências, feitos com intencionalidade, com movimentos livres, simples e espontâneos, ou mesmo a partir de uma coreografia mais elaborada, tendo um roteiro em sua execução. Muitas coreografias são repassadas de geração a geração, que até hoje pode-se perceber como as cantigas das brincadeiras de criança, contando a história de um povo, ou o próprio movimento que simboliza o conteúdo de uma música, como por exemplo, a simples brincadeira do “atirei o pau no gato”.
Ostetto cita Garaudy para afirmar que a dança atende a inúmeros sentidos, não se limitando a apenas um deles: “A dança é um modo de existir. Não apenas jogo, mas celebração, participação e não espetáculo, a dança está presa à magia e à religião, ao trabalho e à festa, ao amor e à morte”. (GARAUDY, 1980, apud OSTETTO, 2006, p. 69).
Figura 8: Dança funerária. Mural tumba etrusca. Ruvo. Nápoles. Século IV a. C.
Fonte: Ostetto (2006)
Segundo Ostetto, a dança permite essa vivência de um momento mágico, de encantador, ao mesmo tempo em que mexe com as pessoas dando-lhes um significado que se relaciona com a vida, o sentimento, a sua crença, seu cotidiano.
Em outras épocas, era comum ao homem imitar movimentos da natureza e criar ritmos que reproduziam algum fenômeno natural: “Em tempos remotos, por meio da dança, o homem identificava-se com os ritmos da natureza. Reconhecia e imitava os movimentos e as forças nela presentes” (OSTETTO, 2006, p 69). A dança estava presente inclusive em formações militares. Para ilustrar essa afirmação, a figura 9 (abaixo) mostra soldados gregos executando uma dança circular:
Figura 9 - Treze soldados executando uma dança circular. Vasilha de cerâmica pintada - Atenas (cerca de 775-750 a. C.)
As danças circulares nasceram na ancestralidade, sendo difícil estabelecer o momento histórico de sua criação. Entretanto, um bailarino e coreógrafo alemão deu grande contribuição para o estudo e expansão internacional no século XX. Esse bailarino, Bernhard Wosien (1908-1986), deixou os palcos em 1960 e formou um grupo na Escola Superior Popular de Munique. Suas visitas ao interior do leste Europeu lhe permitiu conhecer melhor as danças de roda (COSTA, et. al., 2002; WOSIEN; WOSIEN, 2006).
Figura 10 - Cerâmica grega – 550 a.C.
Na Roda, a Dança das Nereidas. Ao Centro, a Luta de Hércules com Tritão.
Fonte: Alves (2013)
Wosien descobriu danças antigas de grupos étnicos, expressões artísticas regionais e a danças populares espontâneas, como a DCs da Macedônia (FRISON, 2011), segundo gravura na figura abaixo:
Figura 11- Danças circulares na Macedônia no desenho de Wosien
Fonte: Wosien (2000)
Figura 12 - Dança dos Ladrões, desenho de Bernhard Wosien
Fonte: Wosien (2000)
Wosien descobriu ainda gravuras de danças da Polônia, França, Rússia e em outros lugares e em 1976 foi convidado a ensinar DCS na Fundação Findhorn, no norte da Escócia, que tem em seu foco a educação e o desenvolvimento humano. Foi assim que o bailarino alemão reuniu ensinamentos e criações sobre a dança circular, ganhando o reconhecimento mundial com as danças que ensinava chamando-as de “Danças Circulares Sagradas” (WOSIEN; WOSIEN, 2006).
O trabalho de dança em Findhorn, a comunidade do norte da Escócia, tornou-se, desde 1976, um exemplo de uma rede internacional de meditação pela dança. Pela atuação de muitos entusiastas pela dança que haviam descoberto as dimensões religiosas da dança como uma verdadeira meta pessoal a ser alcançada, a Sacred Dance (Dança Sagrada) se espalhou por uma grande parte da Europa e por todo o mundo ocidental. (WOSIEN, 2000, p.25, grifos do autor).
Bernhard Wosien, o criador das Danças Circulares Sagradas, buscava uma forma de meditar dançando, meditar, refletir, renovar a vida, recriando formas de relacionamento e interação intra e interpessoal.
Praticada no sentido anti-horário, as danças circulares realizam a trajetória do sol durante o dia, como uma concepção dançante figurando o trajeto da luz no espaço. No sentido religioso-mítico, a dança circular busca realizar na terra o espetáculo que acontece no corpo celeste (WOSIEN, 2004).
O aspecto de “sagrado” buscava revelar a dimensão de transformação transcendente que acontece no interior das pessoas que participam dessas danças. Os movimentos corporais corresponderiam às rezas interiores, uma abertura ao novo e às mudanças e renovações da alma, onde havia um encontro consigo mesmo e como outro, o mundo ao redor, produzindo uma alteridade, a troca do eu e do tu (COSTA, et. al., 2002, BOLEN, 2003).
A Dança Circular abre uma conexão com o sagrado dentro de nós. Na forma, no gesto, na música somos convidados, como já falei, a entrar em contato com outras dimensões de nosso ser – a experiência me mostrou. O sagrado... Impossível de se nomear. “Tudo que vive é sagrado”, diz o poeta Willian Blake, e é a vida mesma que a dança traz – a vida dos ancestrais, dos povos antigos, de diferentes tradições e a nossa própria vida, reinventada no presente. Como afirmava antiga inscrição em latim, a qual o psicólogo suíço Carl Gustav Jung gravou sobre a porta de entrada de sua casa, no Lago Küsnacht, VOCATUS ATQUE NON VOCATUS, DEUS ADERIT – Evocado ou não, Deus está presente. Se os deuses estão em nós, ao dançarmos na roda vivificamos o sagrado em nós, conectamos com o centro, alinhamos o eixo da vida. Não é necessário nomear, apenas viver. (GAILLARD, 2003, apud OSTETTO, 2006, p. 55).
A dança pode ser entendida como uma das formas artísticas mais antigas do homem se expressar criativamente, mesmo antes de utilizar formas materiais de arte, pois com o corpo o homem se harmonizava com o cosmo e sua movimentação rítmica era uma das maneiras de se compreender as leis que governavam a vida (WOSIEN, 2002).
Para Barcellos (2012) os povos da antiguidade realizavam danças para se conectarem com a ordem do cosmos, pois a dança trazia harmonia para quem as praticava, de modo individual e em grupo. Os momentos da dança eram muitos, dançava-se para celebrar as mudanças de estações, pelo nascimento ou morte de alguém. Assim como momentos de alegria e dor, reverenciando a ancestralidade e a fertilidade, de uma forma natural, incorporada ao cotidiano desses povos.
Nesse sentido, entende-se que, na dança, o homem vive um momento sagrado de contato consigo mesmo e com o outro havendo uma recondução ao criativo original.
Wosien tem participação especial na concepção das Danças Circulares Sagradas. Suas pesquisas contribuíram para se olhar as danças de uma forma diferente, vislumbrando um caminho para o encontro do equilíbrio do corpo e da alma, em comum, a partir da reunião de pessoas em torno de um centro. A ação meditativa que ocorre nas danças pode ser comparada a uma trajetória interna em busca do autoconhecimento, da integração.
Nas formas mais antigas das danças circulares encontrei o caminho para a meditação da dança, como um caminhar para o silêncio. Esta meditação tornou-se para mim e meus alunos uma oração sem palavras. Sintonia dos acordes harmônicos do espírito, do corpo e da alma (WOSIEN, 2000, p.117).
Em suas pesquisas, Bernhard Wosien vivenciou muitas experiências locais, de pessoas e grupos que mantinham a dança enquanto tradição, enquanto cultura, que fazia parte de suas vidas, de seu cotidiano, de seu modo de se expressar.
(...) Vi pessoas numa festa e observei nos seus rostos e movimentos influenciados por séculos de preparo da terra. As pessoas se encontram num círculo, se olham. Elas não precisam de expectadores, nem tampouco contam com eles. Logo reconheci o fundo religioso e ritual dessas danças e essa expressão foi ficando cada vez mais forte (WOSIEN, 2000, p, 109).
Conforme Wosien e Wosien (2006), é necessário dançar para descobrir isso, é preciso estar presente para nos apropriarmos, para sentir e vivenciar uma terapêutica. Há uma vivência para a unidade, uma passagem do singular para o comunitário, estando junto em vibração. Há uma comunicação que renova as energias vindas de uma fonte que continuamente se renova.