Esse tópico, além de se relacionar com a versão do título do manual em português, já que no inglês a distinção é feita através de ―homens não ouvirem e as mulheres não conseguirem ler mapas‖, apresenta os argumentos utilizados pelos autores para explicar as diferenças no campo da sexualidade entre homens e mulheres. Que no Brasil o título tenha destacado a relação entre amor e sexo, associando esse último à masculinidade, já é um dado cultural relevante.
Aqui, as formulações de Butler & Connell são bastante pertinentes, pois ajudam a pensar tanto nos aspectos heteronormativos quanto na canalização do desejo heterossexual. A biologia, nesse caso, é utilizada para explicar como se formam as identidades sexuais e como elas assumem maior ou menor relevo nas características masculinas ou femininas.
fossem mulheres – havia apenas 5.913 homens‖. As diferenças são apresentadas como se não expressassem também hierarquias e maior ou menor valorização social de determinadas áreas profissionais.
115 A primeira explicação apresentada para a associação predominantemente masculina ao sexo está fundada na sua condição de ―macho reprodutor‖. Nas palavras de Allan & Barbara Pease (2000, p. 126):
[a] entusiástica e impulsiva disposição do homem para o sexo tem uma finalidade clara: assegurar a continuidade da espécie humana. Para isso, como a maioria dos mamíferos, ele teve de evoluir com certas características. Primeiro, com o impulso sexual bem direcionado e concentrado. Assim, poderia fazer sexo praticamente em qualquer situação, mesmo sob a ameaça de possíveis inimigos, e sempre que houvesse oportunidade. O homem precisava ser capaz de ter o máximo possível de orgasmos no mais curto espaço de tempo, antes que fosse atacado por predadores ou inimigos.
Observe-se que o comportamento tendente ao ―sexo impulsivo‖ encontrado no homem é reforçado enquanto necessidade de sobrevivência da espécie, enfatizando sua fatal incumbência; nas mulheres a baixa tendência ao interesse sexual já se associa a noções morais de fidelidade:
[n]a mulher, o hipotálamo é muito menor que no homem. Além disso, ela tem pouca quantidade de testosterona. É por isso que as mulheres, em geral, têm menos impulso sexual e são menos agressivas. E por que a natureza não fez da mulher uma ninfomaníaca insaciável para garantir a continuação da espécie? Por causa do longo período necessário para conceber e criar um filho até que fique autossuficiente. […] O cérebro feminino é programado para encontrar um homem que se comprometa a dar assistência até que os filhos estejam criados. Isso se reflete nas qualidades que a mulher busca em um companheiro para um relacionamento estável (PEASE & PEASE, 2000, p. 127).
Encontramos aqui um entrelaçamento de noções sobre sentimentos, maternidade e sexualidade, que remete, mais uma vez, à ideia de como as relações de gênero organizam a chamada arena reprodutiva, nos termos de Connell. As noções que justificam um suposto impulso sexual masculino logo são canalizadas para uma dimensão maternal nas mulheres (por isso elas teriam tendência a serem fieis e não ninfomaníacas23).
Um olhar sobre o histórico de aconselhamentos para mulheres, exercício analítico feito no capítulo 2, permite uma desconstrução da afirmação dos autores, pois se o desejo sexual derivasse simplesmente das condições biológicas individuais, os discursos e as práticas de contenção sexual das mulheres seriam desnecessários em vários modelos de sociedade. O que se nota, ao contrário, e por isso a historicidade é um elemento fundamental para a compreensão das relações de gênero, é que as instituições atuaram e atuam, de várias formas,
116 para controlar a vida sexual das mulheres.
Como desdobramento das diferenças anteriormente mencionadas, a narrativa justifica a pouca afinidade dos homens com a monogamia. Aqui, noções como macho, homem, fêmea e espécie se associam para fundamentar o comportamento sexual. A biologia aparece como a determinação implacável, contra a qual o homem teria a dura tarefa de lidar:
[o] macho da espécie humana tem as características físicas das espécies poligâmicas. Não há dúvida: o homem tem que travar uma batalha constante consigo mesmo para ficar com uma só mulher. […] Na realidade, o homem, como a maioria dos primatas e muitos mamíferos, não é biologicamente inclinado à monogamia (PEASE & PEASE, 2000, pp. 134-135).
Aqui é possível retomar a análise de Illouz (2012) quando a autora se refere às formas de liberdades sexuais vivenciadas mediante diferentes posições de gênero, que permitem aos homens mais liberdade. Na ecologia das escolhas, baseada nesse modelo heteronormativo, os homens ocupam lugar privilegiado nas experiências sexuais, e daí porque a explicação apresentada pelo casal Pease pode fazer sentido para um possível leitor, ao ter contato com tal informação.
Na medida em que as construções das diferenças estão permeadas de concepções morais, os autores advertem, mais adiante, que não estão fazendo apologia à promiscuidade. As determinações biológicas são flexibilizadas para assegurarem a heteronormatividade que permeia todo o pensamento:
[m]as é preciso ficar claro que, ao mencionar a inclinação do homem para a poligamia, estamos falando de tendências biológicas. Não estamos incentivando a promiscuidade nem fornecendo uma desculpa para a infidelidade. O mundo de hoje é completamente diferente daquele do passado e a biologia não raro contraria nossas necessidades e expectativas. O fato de uma coisa ser instintiva ou natural não quer dizer que seja boa (PEASE & PEASE, 2000, p. 135).
O homem ―luta contra seu destino de macho reprodutor‖ e a ―mulher moderna‖ tenta assumir uma tendência sexual que não corresponderia ao seu destino biológico. Ao abordar a pornografia e explicar porque os homens teriam mais interesse por esse tipo de estímulo sexual, dizem os autores (2000, pp. 150-152):
[h]omem gosta de pornografia. Mulher, não. […] Na pornografia, mulheres e homens são apresentados como precisando dos mesmos estímulos físicos e visuais para ficarem excitados, e elas tendo um apetite sexual igual ou maior que o deles. Isso pode ter um impacto negativo sobre as mulheres também. Sua autoestima sofre prejuízo quando elas veem outras mulheres sendo tratadas como objetos sexuais e
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com uma fome de sexo completamente fora da realidade. […] Se alienígenas vindos de outras galáxias chegassem à Terra e fizessem uma pesquisa em filmes, livros e revistas femininas e masculinas, certamente chegariam à conclusão de que as fêmeas da espécie humana têm um apetite sexual insaciável, pulam em cima de qualquer homem que apareça e conseguem orgasmos múltiplos. Essa é a imagem da mulher moderna passada pela mídia. Na verdade, a devoradora de homens maníaca por sexo é uma criação do imaginário masculino e não corresponde a um por cento da população feminina. […]
A mulher de hoje tem a mesma necessidade de sexo de suas mães e avós, só que estas reprimiam e não falavam sobre o assunto. Antes da pílula anticoncepcional, a frustração devia ser bem maior. Mas, certamente, menor do que a que sentimos com o que nos chega pela mídia.
Essa passagem é bastante expressiva, porque ela produz generalizações em vários aspectos: a) estímulo sexual é coisa de homem; b) todas as culturas são idênticas e por isso o olhar estranho do ―alienígena‖ se depararia apenas com um padrão de relações humanas; c) a mídia cria uma imagem de mulher que poderia servir até para alimentar a indústria pornográfica, mas não para representar a autêntica ―fêmea da espécie humana‖. Ademais, o uso dos termos ―pílula anticoncepcional‖ e ―mídia‖ carregam sentidos sobre liberdade sexual feminina: as mães e avós eram reprimidas antes da pílula anticoncepcional, mas são muito mais pela representação midiática da mulher moderna, que tenderia a associar a sexualidade feminina a um padrão que seria, essencialmente, masculino. Na medida em que se trata de um homem e uma mulher redigindo o texto e falando em um ―nós‖, há trechos em que é possível questionar: quem é esse ―nós‖? As questões expostas pelos autores os tocam da mesma maneira? Onde ficam as diferenças biológicas deles próprios para conceber as questões? Um exame detido do conteúdo do livro deixa claro que prevalece o argumento do olhar masculino, de teor misógino pelo menos em relação ao feminismo e, embora se proponha a falar para os casais, apresenta muito mais situações em que é a mulher quem tem que adequar o comportamento com a finalidade de perpetuar seu relacionamento afetivo.
De todos os manuais estudados na pesquisa, esse é o único que reserva um capítulo para falar sobre gays, lésbicas e transexuais. Mais uma vez pensando nas contribuições de Butler (2010), cabe observar como se opera a representação dessas identidades sexuais e como elas são associadas ao padrão heterossexual que constitui a base de todo o argumento dos autores.
Para explicar os fundamentos das sexualidades para além da heterossexual, os autores iniciam explicando que homossexualidade é parte da história humana (e é uma das poucas vezes em que fazem menção a fatos históricos propriamente ditos, a exemplo da
118 Grécia antiga, proibições cristãs, era vitoriana). Nesse caso específico, os autores não mencionam a existência da homossexualidade na ―época das cavernas‖. Após a rápida menção a períodos históricos em que a homossexualidade teria existido, surge a questão: mas é uma questão de genética ou de escolha? A biologia novamente fornece as explicações.
A ―tendência homossexual‖ é explicada a partir da carga hormonal presente no cérebro dos indivíduos. A determinação, nesse sentido, prescindiria de escolhas e estabeleceria determinados tipos de comportamento. Mais uma vez, fusões entre noções de ―sexo‖ e ―gênero‖ constituem as concepções sobre o comportamento sexual:
Para cada lésbica (corpo de mulher e cérebro masculino) existem de oito a dez homens gays (p. 117).
[...]
Pesquisadores acreditam que a orientação sexual é quase completamente determinada ainda na vida intrauterina (p. 118).
[...]
Como produzir um rato gay (p. 119). [...]
Essa alteração do comportamento sexual só pode ser conseguida enquanto o cérebro ainda está no estágio embrionário (p. 119).
[...]
Estudos feitos na Alemanha nos anos 1970 demonstram que mães que passam por situações de estresse durante o início da gravidez têm possibilidades seis vezes maiores de gerar um filho gay (p. 120).
[...]
A mulher que planeja uma gravidez deve tirar longas férias em um lugar tranquilo e evitar contato com pessoas doentes ou negativas (p. 121).
[...]
Um estudo sobre mulheres diabéticas que estavam grávidas nos anos 1950 e 1960 apontou um grande aumento na incidência de meninas, suas filhas, que se revelaram lésbicas depois da adolescência (p. 121).
[...]
As mães que receberam hormônio feminino tiveram filhas mais ―femininas‖ e filhos mais gentis, afetuosos e dependentes que seus colegas, além de pouco inclinados a atividades físicas (p. 122).
[...]
Se o centro do comportamento, no cérebro, não receber hormônio suficiente para dar ao homem atitudes, modo de falar e linguagem corporal tipicamente masculinos, essas funções vão ter características femininas (p. 123).
As sexualidades não hegemônicas são tratadas a partir do mesmo viés biologizante que caracteriza as demais concepções em toda a exposição dos autores. A performatividade do gênero e a sexualidade são reduzidas a uma explicação hormonal. Enquanto situada no ―reino biológico‖, a heterossexualidade é afirmada como um padrão. As sexualidades tidas como excepcionais, que teriam variação mediante a dose hormonal, mesmo que biologicamente também concebidas, aparecem como uma espécie de desvio da regra padrão. Maior ou menor
119 dose de hormônio faria um ―corpo de mulher‖ ter uma cabeça masculina e assim por diante. Os termos carregam sentidos fixos, sejam quando querem se referir ao que entendem como biológico, seja quando exprimem comportamentos sociais que, em última instância, seriam igualmente determinados pela biologia. Até a linguagem, algo eminentemente social e heterogêneo na existência humana, é apresentada como decorrente da carga hormonal.
Ao sugerirem também que a mulher deve ter cuidados durante a gravidez, evitando o que denominam de variação hormonal, responsabilizam indiretamente as mães pela possível homossexualidade de filhos ou filhas, já que a gravidez é, para eles, um tema diretamente relacionado às mulheres.