A lógica racionalizante dos conselhos de Argov carrega vários pressupostos. Ao defender a ideia de que a mulher poderosa é aquela que se valoriza, a autora expressa indiretamente o padrão que define o que é mais digno de valor ou não. Quando utiliza termos como ―esforço não é apreciado‖ e ―sutilmente se desvaloriza‖, toma como referência o que o padrão masculino ao qual ela se refere está considerando adequado ou não. Se a mulher age de modo a convencê-lo de que tem valor, está automaticamente se valorizando. Nesse sentido, observa-se que a divergência da autora em relação ao discurso da mídia se deve muito mais ao caminho percorrido para conquistar um homem – embora seu livro tenha ampla aceitação na mídia impressa, como pode ser identificado em sua página virtual – e não no fato de que é a mulher quem deve traçar o caminho da conquista. Em ambos os casos, o que define como a mulher deve agir é um padrão masculino tido como legítimo. A ênfase na ideia da valorização lembra também as indicações de Illouz sobre o entrelaçamento das narrativas do ―eu‖ com os repertórios do mercado. A linguagem da valorização, ao mesmo tempo em que opera com aspectos da autoafirmação, usa critérios de utilidade para definir se os comportamentos são adequados ou não.
Algumas passagens demonstram a relação entre valorização/desvalorização com o sentido anteriormente referido:
[q]uando a mulher recebe o telefonema de um homem no meio da noite, pega o carro e sai correndo para encontrá-lo, a única coisa que está faltando é uma placa luminosa no teto do carro com a inscrição: ENTREGA EM DOMICÍLIO (p. 14). […]
A mulher que se desdobra em mil cuidados passa a seguinte mensagem: ―O que tenho a oferecer não é suficiente‖. Por outro lado, a mulher poderosa transmite a mensagem oposta: ―Eu tenho valor‖ (p. 15).
[…]
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e de se comportar de acordo com ela. Um homem sempre vai desejar o que não pode ter. Quando uma mulher se mostra desinteressada, conquistar o amor dela passa a ser um desafio (p. 18).
[…]
O que as mulheres precisam entender é que, quando um homem considera uma mulher um prêmio, a aparência tem muito pouca importância (p. 19).
[…]
Aja como se fosse um prêmio e ele acreditará (p. 20). [...]
As mulheres precisam entender que os homens amam a ―excitação da conquista‖ e são altamente competitivos. Eles gostam de carros de corrida, de esportes e de caça. Gostam de consertar coisas, descobrir coisas, conquistar (p. 28).
A relação entre ―agir‖ e ―aparentar ser‖ aparece de maneira muito tênue no aconselhamento de Argov. Embora a autora reforce a ideia de que não se deve agir como um jogador, não escapa das estratégias que lidam com a maneira de o outro pensar e agir, e inclusive muitas vezes essa última é decisiva para embasar o caminho adotado. Se o homem telefona no meio da noite, não há problema; o problema é ela ir correndo atrás dele. O homem deseja o que não pode ter, logo a mulher deve demonstrar que ela ―é‖ esse algo que ele não tem. Em outras partes do livro, algumas passagens indicam a sugestão de agir com conotação de ―aparentar ser algo‖:
[t]ente não dizer coisas do tipo: ―Por que você não me ligou?‖ ou ―Por que você desapareceu durante uma semana?‖. Se você agir como se isso não tivesse tanta importância (porque você tem vida própria e outras formas de diversão), ele irá procurá-la se estiver de fato interessado. Por quê? Porque não vai achar que tem total controle sobre você (p. 17).
[…]
Se você começar o relacionamento se mostrando dependente, ele vai se afastar (p. 18).
[…]
Muito do processo de construção de um relacionamento sólido depende do seu autocontrole. Dedique-se, seja companheira, mas não exagere. Não telefone demais, não passe horas na cozinha fazendo um banquete para ele nem se vista de maneira excessivamente provocante. Lembre-se: se você vender a alma para manter um relacionamento, vai ter que pagar a conta depois (p. 21).
[…]
Ela vai devagar, principalmente quando ele tem pressa. Ela se move no próprio ritmo, e não no dele, evitando que ele assuma o controle sobre ela (p. 26).
[…]
Os homens estão condicionados a conhecer mulheres que desejam compromisso. Ao mostrar que não é uma delas, você evita o acionamento do sistema de alarme (p. 44). […]
Se uma mulher não expõe seus sentimentos, ela parece menos emocional e mais atraente (p. 127).
Mas a poderosa deve ou não fazer o que tem vontade? Aparentar que tem interesse não seria uma forma de exprimir sua vontade? Por que ―revelar‖ seus sentimentos é encarado
136 como problema? É notável a desproporção entre a margem de liberdade esperada para um comportamento masculino em relação ao feminino. Da maneira como são narrados os comportamentos, os homens parecem espontaneamente agir com liberdade, inclusive porque contam com a vantagem de observar até que ponto a outra pessoa está sob controle. As mulheres têm que se utilizar do autocontrole para não parecerem emocionalmente dependentes. Ao comportamento tido como dominador, por parte dos homens, a autora confere o adjetivo de caçador. Se as mulheres apresentam comportamento similar a esse, isso é encarado como obsessão. Se o objetivo é dominar a mulher, não há questionamento. E embora Argov afirme no início que a mulher poderosa não se deixa ser controlada, ao longo do texto a figura dominadora masculina é apresentada como uma qualidade inerente aos homens; no final das contas, as mulheres devem compreender esse aspecto intrínseco à personalidade masculina, inclusive porque ―o espírito caçador‖ surge, para elas, segundo a autora, como autêntica prova de amor: ―homens são caçadores, e por isso ficam mais interessados em conquistar uma presa quando ela resiste a eles. A maioria dos homens sente atração pela mulher poderosa porque é emocionante a tentativa de dominá-la‖ (ARGOV, 2009, p. 44).
A narrativa de Argov é uma demonstração prática do que Illouz chamou de relações de desigualdade na arquitetura das escolhas. A margem de liberdade conferida aos homens tem relação com sua vantagem no mercado dos relacionamentos. Na medida em que podem escolher em uma margem maior de tempo, atribui-se aos homens uma justificativa supostamente associada à sua personalidade caçadora. Às mulheres, reserva-se não somente a condição de caça, mas o esforço para ser caça desejável. Retirando a metáfora, ocorrem, na prática, relações de poder desiguais.