A capacidade individual de lidar com ou evitar a dor decorrente dos relacionamentos é um tema sobre o qual se debruçaram os autores Steven Carter & Julia Sokol em várias de
121 suas publicações. O sofrimento proveniente dos relacionamentos é explicado a partir das escolhas ou personalidades individuais, daí porque a ideia de mulher inteligente é central no conteúdo do livro. Dotada de personalidade inteligente, ela reúne não apenas a autonomia emocional requerida, mas também a racionalização da sua esfera emotiva, que estabelece critérios de proveito, utilidade, entre outros, para ―investir‖ ou não em um relacionamento. Os autores falam, então, sobre os caminhos mais fáceis para adquirir ―sabedoria sem sofrimento‖. O trabalho das emoções aparece em várias passagens do livro sob a forma de aconselhamentos sobre mudanças no modo de ser ou se comportar, com vistas a determinadas finalidades emocionais. Fica notável que os autores dialogam com a tendência social de relacionamentos afetivos desfeitos ou com as dificuldades contemporâneas em estabelecer alguma forma de compromisso.
A narrativa é predominantemente voltada para o aconselhamento, com uma linguagem prescritiva. A base dos aconselhamentos segue a lógica da adoção de uma conduta racional como necessária aos relacionamentos afetivos. Ao longo dos capítulos do livro, é possível identificar a linguagem dos relacionamentos que mixa termos da psicologia, da racionalidade e do ideal de amor, construindo, assim, a ideia do ser ―emocionalmente inteligente‖.
Um aspecto comum em toda a sequência do texto é que o apelo discursivo que projeta a ideia de mulher inteligente se baseia na apresentação daquilo que ―ela sabe o que é‖: ―uma mulher inteligente sabe que...‖. Alguns conselhos, que aparecem na forma de mandamentos – ―os 11 mandamentos da mulher inteligente‖ – expressam as valorações morais e normativas das ideias expostas. Um dos trechos que elenca as certezas que mulheres inteligentes devem ter consta a seguir.
Manter-se racional.
Deixar sua inteligência controlar suas emoções, e não o inverso. Confiar mais em seus valores do que em seus hormônios.
Escolher relacionamentos que a façam feliz e permitam que ela cresça. Procurar e acolher pessoas otimistas e encorajadoras.
Manter distância de relacionamentos que significam p-r-o-b-l-e-m-a.
Afastar-se de pessoas que tentam controlá-la ou a façam sofrer. (CARTER & SOKOL, 2006, p. 7).
Na citação, verifica-se que a ideia de mulher racional carrega conotações do credo terapêutico contemporâneo. A concepção do amor como algo que deve evitar o sofrimento, a busca pela autonomia emocional, estão presentes no discurso do manual, mas também em
122 outras fontes terapêuticas contemporâneas. Deve-se observar, igualmente, que se cria uma associação da mulher com a esfera emocional: ela ―é‖ emocional, mas deve prezar pelo predomínio da razão, inclusive no âmbito dos sentimentos.
Termos como ―medo primitivo do abandono‖, ―destruir o ego‖, ―sabotar‖, além de sugestões para analisar a autobiografia são utilizados no livro para denominar características psicológicas presentes nas possíveis situações vivenciadas pelas leitoras.
Em outro trecho, aparece a obsessão como causa da insistência em relacionamentos inviáveis:
[a]s obsessões podem ser – e serão – a causa de dores de cabeça, distúrbios gastrintestinais, palpitações, crises de ansiedade, cabelo branco e rugas. Quase sempre o amor obsessivo é viciante e por isso precisa ser tratado como qualquer outro vício – com a firme determinação de obter a cura. A cura para o vício de relacionamentos amorosos obsessivos requer muita força de vontade, ajuda profissional e grupos de apoio (CARTER & SOKOL, 2000, p. 16).
Aqui, o discurso de autoajuda está em direta associação com o repertório da psicologia, caracterizando a obsessão amorosa como um vício. Observe-se que, ao mesmo tempo em que há uma popularização de termos da psicologia para construir a reflexividade ou narrativas do ―eu‖, o débito emocional é creditado como problema da personalidade individual. Se várias leitoras que tenham acesso e tomem como parâmetro as explicações do livro para sua vida vierem a utilizar os termos para falar sobre a sua situação ou de outras pessoas, o farão na condição de enxergar o problema como uma questão individual, passível de cura, ou seja, como um problema localizado e não como tendência social que se expressa coletivamente.
É comum também o uso de exemplos que visam mostrar ―os erros‖ cometidos pelas mulheres. Junto da ideia de erro, vem o sentimento de culpa e fracasso. A mulher, que deveria saber exatamente como agir, insiste ―em cometer erros‖. As noções de certo e errado apresentadas pelos autores também ajudam a perceber seu conjunto de valores morais.
Além das noções acima referidas, outras formas de abordagem da personalidade centram-se nos aspectos individuais, não se evidenciando até que ponto, em termos de relações de gênero, há relações assimétricas de poder culturalmente construídas. Aqui aparece uma forma de essencialização por via da cultura, ao se atribuir à personalidade aspectos que também dizem respeito aos valores construídos socialmente. As pessoas, segundo essa lógica, apresentam personalidades atrativas ou não. E esse é um dos aspectos que pode ser
123 identificado como uma diferença em relação a uma abordagem feminista (considerando que essa se constitui como uma das fontes indiretas dos discursos dos manuais). Até certo ponto, existe o pressuposto de uma imagem da mulher moderna. No entanto, para se firmar emocionalmente, essa mulher precisa acionar seus recursos internos e modificar sua personalidade em função de um relacionamento afetivo bem-sucedido. Não há problematização sobre o lugar dos homens nas relações sociais, nem sobre seus valores, etc. Seu lugar está assegurado moralmente e, quando é posto em questão, centra-se no plano da subjetividade individual: existem homens certos e homens errados; tudo se resume ao caráter. Um exemplo disso se dá quando os autores discorrem sobre o ―homem cronicamente infiel‖. As características desse são descritas, mas são associadas aos traços da sua personalidade, e a mulher nada poderia fazer por ele. Estão subentendidas aqui concepções sociais sobre modelos de relacionamentos, monogamia, valores patriarcais ressignificados, entre outros. Por comparação, se o casal Pease associava a tendência poligâmica masculina à sua condição biológica, aqui vê-se que ela é fixada na ideia de personalidade. Observa-se que a mulher pode modificar sua personalidade em função do homem; o contrário, porém, não é sugerido.
As estratégias de comportamento são indicadas e, mais uma vez, vale lembrar a noção de trabalho das emoções no sentido de provocar determinados estados emocionais em si. Ao aconselharem as leitoras sobre comportamento, os autores sugerem que elas adotem mudanças efetivas em si mesmas, ao invés de mudanças aparentes com o objetivo de impressionarem o outro:
[a]s mulheres inteligentes sabem que a adoção de certas estratégias pode ajudar a mudar um relacionamento, mas sabem também que essa mudança será apenas temporária. Barbara Jean precisa começar a fazer algumas mudanças efetivas na maneira de manifestar seus sentimentos. Isso, sim, irá mudar o relacionamento. Ou seja, ela precisa parar de se preocupar em mudar o comportamento de Sam. […] Veja bem: ser cautelosa e cuidar de si mesma não é uma estratégia, mas uma atitude de autoafirmação que produzirá resultados concretos (CARTER & SOKOL, 2006, p. 125).
Pode-se acrescentar que a ênfase na mudança no comportamento é direcionada à mulher, o que não deixa de ser uma forma de apontá-la como responsável pelo fracasso dos relacionamentos. Os autores advertem, no entanto, que uma mulher inteligente não finge ser inferior ao homem com o objetivo de agradá-lo:
[o] que as mulheres inteligentes pensam sobre conselhos que recomendam que uma mulher se cale, se mostre inferior – ou diferente – do que realmente é? As mulheres
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inteligentes sabem que a maioria das crenças sobre o que faz um relacionamento funcionar se concentra nas necessidades dele, e não nas dela. Esses conselhos nem sempre são inteligentes (CARTER & SOKOL, 2006, p. 141).
Esse ponto é importante porque vai ser um dos itens divergentes em relação ao próximo livro analisado, e também porque mostra que o discurso de Carter & Sokol cria um diálogo mais aberto com as transformações culturais no que diz respeito às relações de gênero, embora em outros aspectos reivindique posições mais tradicionais. No entanto, na construção de mulher inteligente cabem sentidos de autoafirmação e autodeterminação femininas, bem como concepções de autonomia emocional, assuntos caros tanto à psicologia quanto ao próprio feminismo, resguardadas as devidas especificidades e implicações práticas das diferenças de objetivos.