Na introdução do livro é informado que ele se direciona às mulheres boazinhas, e que se elas não perceberem que o fato de ―se desdobrar pra agradar os homens‖ inviabiliza as relações, podem estar perdendo a chance de construírem uma relação saudável. O discurso
131 responsabiliza, desde o início da narrativa, a mulher pelo fracasso nos relacionamentos.
Argov utiliza um recurso na linguagem que a aproxima da leitora: é uma mulher falando para outra. Ela tanto fala sobre ―toda mulher‖, para exemplificar situações, quanto se coloca na condição de que ―sabe o que está falando‖, pela sua experiência também enquanto mulher.
Antes de descrever o que está considerando como mulher poderosa, Argov (2009) fala sobre três situações que toda mulher já teria vivenciado, fosse solteira ou casada, mas nem sempre teria coragem de assumir para si: se sentir carente por insistir em procurar um homem, perder um homem no momento em que cedera às vontades dele e/ou se sentir desvalorizada.
Ao traçar um diagnóstico do que provavelmente teria levado sua leitora até o livro, Argov define o que vem a ser uma mulher poderosa:
[n]ão se trata daquela figura tirânica, dominadora, arrogante e dona da verdade que todos detestam.
A mulher que descrevo é amável porém decidida. Ela sabe quem é, conhece seus pontos fortes e fracos e gosta da própria companhia. Ela não abre mão da sua vida e se recusa a correr atrás de um homem, por mais que se sinta atraída por ele. Ela não permite que ninguém tenha controle total sobre ela e sabe se defender quando os outros passam dos limites (ARGOV, 2009, p. 7).
A noção de ―poderosa‖ condensa várias influências ao sugerir postura de autonomia e do espírito decidido ao mesmo tempo em que preza pela personalidade ―amável‖ e se distinguindo da ―arrogante, que todos detestam‖. Mais uma vez, lembrando as ideias de Hochschild quando afirma que o espírito comercial da vida íntima absorveu significados do feminismo, porém abduzindo seu espírito crítico, a imagem da mulher poderosa de Argov é constituída pelo repertório da autoafirmação feminina (ideias da popularização da psicologia) e aspiração de independência (concepções do feminismo), mas ―sem exageros‖ que caracterizariam uma mulher com mais autonomia, ou seja, uma mulher que se assemelha à imagem da feminista. A poderosa ―usa a feminilidade a seu favor‖, afirma Argov. Em outras palavras, a feminilidade continua naturalmente associada à figura de mulher: a mulher poderosa apenas confere um tom mais autodeterminado a essa ―característica‖.
Sherry Argov informa às suas leitoras que seu livro se baseou em uma pesquisa, através da qual entrevistou homens para investigar o que eles pensavam sobre as mulheres e sobre os relacionamentos com elas. Então, a autora se propõe a relatar a lógica do pensar e
132 agir dos homens. O modo de agir e pensar dos homens, mais uma vez, aparece como um dado. Ele é o parâmetro a partir do qual o comportamento feminino deve se modificar. Um modelo tradicional, requerido às mulheres no passado, agora é apresentado como ultrapassado, porque atualmente os homens preferem mulheres mais determinadas. Ficam fora dessa relação todas as mediações sociais existentes nos padrões apresentados e, amparando-se nos termos da psicologia, cria-se imagens de personalidades de mulher que, adequadas ou não, possuem em si as causas e consequências de seus envolvimentos afetivos. Igualmente fica descartada a hipótese de que a mulher poderosa da qual fala Argov tenha alguma relação com os questionamentos feministas das décadas de 1960 e 1970. Ela parece ter brotado simplesmente das novas atitudes esperadas para uma mulher.
A ideia de desejo, como notou Rudiger (1995), passa a fundamentar a conduta individual, e é a ela que Argov (2009, p. 9) vai recorrer para falar sobre o pano de fundo das ações da poderosa:
[a] mulher poderosa se destaca porque pensa com a própria cabeça em um mundo que ainda ensina as mulheres a olhar ao redor para descobrir qual é a opinião dos outros. É uma mulher que busca o próprio desejo em vez de responder sempre às expectativas externas.
A mulher poderosa é aquela que estabelece as próprias regras, que se sente confiante, livre e satisfeita com ela mesma.
A autora também apresenta uma crítica sobre o que considera o discurso da mídia, que pressionaria as mulheres de todas as faixas etárias a adotarem certos padrões:
[n]os capítulos seguintes, você vai encontrar uma mensagem bastante clara: sucesso no amor não tem nada a ver com aparência, e sim com atitude. A mídia nos transmite a ideia oposta. Uma adolescente pega uma revista e lê: ―Atraia seu gato‖ com esta roupa ou com determinado estilo. ―Enlouqueça o homem da sua vida‖ com essa cor de esmalte ou de batom, garante a matéria. E o que é que essas mensagens ensinam? A tornar-se obcecada pela aprovação do outro.
E ainda há a maneira pela qual o envelhecimento é retratado. Mal a adolescente se transforma em uma atraente mulher de 30 anos, a mídia começa a bombardeá-la com imagens ameaçadoras de velhice. Duas rugas e uma marca de expressão já a colocam no balcão das ―promoções‖, como se ela fosse mercadoria da coleção passada e só pudesse ser vendida pela metade do preço. E o que a mulher aprende? A tornar-se obcecada pelo medo da reprovação do outro (ARGOV, 2009, p. 9).
A crítica ao padrão midiático certamente alinha o discurso da autora a perspectivas críticas contemporâneas. Todavia, no mercado cultural oferecido às mulheres atualmente, do qual os manuais de autoajuda também fazem parte, cada um tenta vender a imagem que considera mais adequada ou que encontra maior público consumidor. Argov se distingue do
133 discurso que associa a realização feminina a partir do uso de determinados produtos, fazendo a crítica ao apelo publicitário, mas invoca o trabalho de modificação da personalidade como meio de aprovação do outro, ainda que defenda que a mulher não deve ter uma postura submissa. Seus conselhos sobre como se tornar uma mulher poderosa baseiam-se, afinal de contas, na opinião dos homens que ela entrevistou para redigir o livro. A mulher que Argov define como poderosa pode não estar obcecada pela aprovação do outro, porque ―aprendeu a manejar suas vontades‖24, porém aprendeu do mesmo modo a administrar seus afetos e desejos com o objetivo de lidar com os relacionamentos.
A ―mulher boazinha‖ é assim descrita no livro (ARGOV, 2009, p. 11):
[é] aquela que se entrega por completo a um homem que mal conhece, sem que ele tenha que investir muito. É a mulher que se dá cegamente porque anseia receber de volta a mesma atenção. É a mulher que age de acordo com o que ela acha que o homem gosta ou deseja porque quer manter o relacionamento a qualquer custo.
Em seguida, mais uma comparação com o discurso da mídia, que estaria evocando um lugar submisso para as mulheres:
[e] verdade que as revistas femininas, em geral, estimulam esse comportamento: ―Comece bancando a difícil. Mas no segundo encontro prepare uma refeição dos deuses para ele, crie um ambiente romântico com música suave, champanhe em copos de cristal e luz de velas... Não se esqueça dos guardanapos bordados e dos morangos orgânicos daquela loja maravilhosa a duas horas da sua casa. Depois, sirva tudo usando uma camisola de renda preta.‖ Essa é uma receita perfeita para quê? Para um desastre (ARGOV, 2009, p. 11).
Por que a autora considera que esse caminho não é adequado? Porque demanda um investimento alto, sem a certeza do retorno. Assim como um negócio comercial, em que é preciso avaliar os riscos antes de investir, a poderosa utiliza sua lógica racional ao lidar com um relacionamento. Acrescenta Argov, contrapondo os ―investimentos‖ que mulheres e homens fazem em um relacionamento – ou começo de relacionamento –: ―[c]omo não recebeu tudo de graça, ele [o homem] valorizou muito mais o que conquistou. […] Isso faz parte da natureza humana. E quanto mais você cedesse, mais ele exigiria‖ (ARGOV, 2009, pp. 12-13).
Os homens precisam de estímulo mental, afirma Sherry Argov. Mas, logo adverte que o estímulo mental não seria a capacidade da mulher de ―defender suas ideias em uma
24 ―A diferença é que elas descobrem suas vulnerabilidades e aprendem a administrá-las. Espero que este livro
134 discussão sobre política internacional ou se entenderem de investimentos‖. A mulher que demonstra não temer ficar sem o parceiro provocaria mais desafio mental no homem. Reforça-se uma lógica do homem-caçador, que precisaria estar na eterna dúvida sobre o domínio que teria sob sua caça: ―uma mulher poderosa dá ao homem bastante espaço para que não se sinta preso numa jaula. Então ele vai atrás dela para tentar prendê-la‖.