Os exemplos oferecidos pelos autores para reforçar seus aconselhamentos revelam quais são as figuras femininas enfatizadas. É possível também localizar em quais lugares sociais estão as mulheres descritas na narrativa, em termos de profissão, condição econômica, escolaridade. Um dos exemplos de mulher que, segundo os autores, não soube utilizar sua inteligência é o que segue.
Isso é interessante porque, embora possa dar a impressão de ser uma pessoa frívola, Vitória é, na realidade, uma pessoa muito séria. Ela tem um emprego sólido. Tem amizades sólidas. Tem um conjunto de princípios sólidos. E o que ela quer da vida é poder fazer biscoitos em um lar sólido com uma família sólida. Então, o que acontece? Assim que se sente atraída pela aparência de um desses caras charmosos, ela veste seu avental e começa a tentar transformar o Homem Sedutor no Homem do Lar. Uma mulher inteligente lhe diria que são ínfimas as chances de ela ser bem- sucedida nesse tipo de mágica (CARTER & SOKOL, 2006, p. 10).
O contraste entre a mulher ―emocional‖ e a inteligente revela alguns pontos que marcam identidades entre as duas figuras. Nesse sentido, se a mulher independente sonha, no fundo, em constituir uma vida familiar sólida, a mulher inteligente lhe adverte que o caminho escolhido está equivocado, mas não está em questão se a necessária associação mulher-família apresenta problemáticas. Os autores complementam a ideia, afirmando que uma mulher inteligente sabe que ―serão necessários mais do que alguns truques de mágica para
125 transformar um homem sedutor no seu homem‖. A rigor, ambas têm os mesmos anseios, porém constroem caminhos diferentes.
Na parte em que os autores dão dicas sobre o que uma mulher inteligente não deve deixar de observar na hora de se interessar por um homem aparecem vários indicadores como parâmetros de escolha: a atitude dele em relação a dinheiro; atitude em relação à carreira dele e à dela; a atitude dele em relação ao próprio carro; as convicções políticas e religiosas dele; os valores e neuroses dele.
Da mesma forma, complementam os autores mais adiante, a mulher inteligente ―pensa duas vezes sobre homens que‖: não dividem nada, comem tudo com a mão, não se oferecem para pagar a refeição, não têm dinheiro para pagar a conta ou fazem cara feia quando examinam a conta, dentre vários outros conselhos, dispostos em uma longa lista. Nos exemplos contidos em dois parágrafos, é possível identificar um discurso que se dirige a determinadas classes sociais, segmentos profissionais e hábitos provenientes do contexto cultural do qual fazem parte e que criam valorações sobre o que é um homem interessante ou não, elementos que, na prática, espelham cotidianos vivenciados por algumas pessoas dos centros urbanos, embora sejam oferecidos a ―toda mulher‖. Além do mais, a partir do cenário desenhado pelos autores, esses hábitos expressam um determinado modo de vida social, não cabendo, portanto, a generalização para rotinas sociais de culturas ou sociedades que não tenham tais modelos como parâmetro. Vale destacar que, uma vez que o livro foi traduzido em vários países, dialoga com vários contextos que, de alguma forma, estão vivenciando questões semelhantes às apontadas no livro, caso contrário não teriam tanta aceitação por parte do público leitor.
Do ponto de vista da sexualidade, além do modelo unicamente heterossexual narrado pelos autores, constrói-se uma ideia de mulher que está aberta a experiências sexuais, desde que ―na hora certa‖ e com o pano de fundo não só de um futuro compromisso, mas também da possibilidade da maternidade. Em comparação ao modelo biológico do casal Pease, aqui a condição física não estabelece a priori o baixo desejo sexual feminino. Nas palavras de Carter & Sokol, aparecem os argumentos da moral e da saúde física como justificativa para o recolhimento sexual.
As mulheres inteligentes sabem que...
Não é inteligente ter medo de pedir a seu candidato a parceiro informações sobre seu histórico sexual.
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A sua principal responsabilidade é proteger-se e proteger o filho que você possa vir a ter no futuro (CARTER & SOKOL, 2006, p. 94).
A menção ao discurso da mídia é feita, porém numa perspectiva de considerá-la como uma reprodução de valores tradicionais. Esse é outro elemento que pode ser comparado ao discurso de Allan & Barbara Pease, que tomam a mídia como um modelo que estaria muito à frente da realidade das mulheres, o que denota o caráter conservador que caracteriza tais ideias. A rigor, Carter & Sokol não rejeitam por inteiro o discurso da mídia, porém a localizam como reprodutora de padrões femininos do passado e, segundo esses autores, não seria de bom tom desfilar essa imagem de mulher tradicional nos primeiros contatos com o homem pretendido:
[q]uerendo ou não, nós ainda continuamos condicionadas pelos estereótipos dos anos 1950. Como poderia ser diferente? Em qualquer banca de jornal podemos ver revistas que se dedicam exclusivamente a habilidades domésticas como cozinhar, receber bem, controlar gastos e decorar a casa. Desde que estejam no lugar certo e no momento certo, não há nada de errado com essas coisas. No entanto, o início de um relacionamento não é o lugar certo nem o momento certo (CARTER & SOKOL, 2006, p. 109).
A maior parte dos exemplos está direcionada a mulheres jovens e solteiras. Porém, também é possível identificar um diálogo com uma faixa etária mais elevada, apresentando alguns dos aspectos identificados na pesquisa de Castro (2009). A personagem Mary Beth é assim descrita pelos autores:
[e]la quase se casou há quatro anos, mas terminou o noivado porque ―não estava se sentindo muito segura‖. Agora, ela começa a se perguntar se aquilo foi um erro. Quando ainda tinha vinte e poucos anos, o fato de não estar casada não a perturbava. No entanto, ultimamente, ela tem se sentido deprimida por estar solteira. Ela tem certeza de que seria uma mulher feliz – se estivesse casada (CARTER & SOKOL, 2006, p. 150).
A questão geracional aparece como mais um fardo a ser enfrentado pelas mulheres e isso se apresenta como um dilema para equacionar ―enquanto é tempo‖. A figura da mulher solitária e deprimida aparece como uma imagem trágica, que pode ser evitada se as mulheres agem ―de maneira inteligente‖ quando jovens. Até porque a representação da mulher jovem solteira é colocada como aquela que tem liberdade, gasta seu próprio dinheiro, não dá satisfação ao outro e aproveita a vida sem lamentos.
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