• No results found

Embora o viés mercadológico esteja presente em exemplos já mencionados, associado a outros aspectos do texto, vale destacá-lo especificamente, pois várias são as passagens ao longo do livro de Argov em que são utilizados termos diretamente associados ao mercado, ou comparações com objetos de desejo para referir-se ao maior ou menor interesse despertado nos relacionamentos.

137 Nesse bojo, a linguagem da psicologia também é acionada para associar desejo, consumo e afetividade:

[t]udo começou quando ele era criança. Quando recebeu de presente de Natal algo que não pediu e com o qual brincou por cinco minutos. O brinquedo que ele amava era aquele que ficava lá na última prateleira da loja e com o qual ele sonhava. Foi preciso juntar meses de mesada para comprá-lo. E é desse que ele sempre se lembrará, porque teve que fazer por merecê-lo (p. 22).

[…]

As pessoas não costumam valorizar plenamente o que é gratuito. Quando uma mulher vai para a cama com um homem imediatamente, isso não o atrai. Os homens com quem conversei admitiram que o sexo muito fácil, em geral, não era tão bom (p. 29).

[…]

Vamos usar como exemplo uma caçada. O homem sai para caçar com os amigos. Fica acampado a semana inteira, dorme nas piores condições, é devorado por mosquitos e ainda tem que comer uma gororoba sofrível. No entanto, ele se submete a tudo isso para conseguir abater um alce. E, quando consegue, fica mais vaidoso do que um pavão e quer exibir a cabeça do pobre animal, colocando-a na parede do escritório.

Mas se você resolvesse deixar uma cabeça de alce de presente na porta da casa dele, o sujeito não ia nem ligar. Poderia ser o mesmo alce que ele caçou, mas o efeito seria totalmente diferente. O mesmo acontece na relação com a mulher (p. 29). […]

Se você tratar a si mesma como um bem de grande valor, ele vai, naturalmente, investir mais em você. Por exemplo, ele telefona e pergunta: ―Quando podemos nos ver?‖ Não responda: ―Quando você quiser!‖ (p. 36).

[…]

É como se houvesse uma negociação silenciosa, na qual um escambo é pactuado: ―veja bem, estou disposto a gastar o equivalente a dois jantares, um buquê de flores e um cineminha com pipoca – perfazendo um total de R$ 496,32, e nem um centavo a mais‖ (p. 56).

[…]

Para que um homem fique motivado a dar, ele precisa sentir-se bem quando o faz. Ele quer ser apreciado e reconhecido. É o ego que leva os homens à guerra, que os faz construir grandes empresas, malhar exaustivamente nas academias e até roubar. E é o ego que os faz se apaixonarem (p. 66).

[…]

Não é diferente de uma negociação comercial bem-sucedida (p. 80). […]

Vamos fazer uma comparação financeira. Ele teve comida, sexo e ainda assistiu ao jogo por 80 reais (nada mal). A conta dela ultrapassou os 800 reais (p. 100).

[…]

Bem, chega de mendigar, minha amiga. Estamos sob nova direção (p. 106). […]

Mantendo seu certificado de propriedade. Porque ter controle de suas finanças lhe dá poder (p. 145).

[…]

Necessidades financeiras não são diferentes de necessidades emocionais (p. 152).

Em tais trechos, se percebe que chama a atenção as associações dos termos emocionais com os termos das trocas comerciais não somente porque elas dão a conotação de que um relacionametno se trata de um negócio, mas também porque as comparações são

138 utilizadas para estabelecer relações de valor. A moral econômica que norteia outros aspectos da vida parece ser a linguagem mais apropriada para explicar como funcionaria a lógica de pensar dos homens. Em termos de comparação histórica, também é possível argumentar que, durante muito tempo, o matrimônio era concebido como forma de viabilizar ou manter determinadas estruturas econômicas, sendo uma decisão que independia da vontade das partes, compondo os chamados casamentos arranjados. Na lógica contemporânea descrita pelo livro, desaparece a figura da família, ou do pai, como o elemento decisivo para o início de um relacionamento, especialmente porque antigamente, em tais situações, praticamente não havia relação marital no sentido de construção afetiva. Hoje, a possibilidade da escolha está presente, porém, como se depreende do texto de Argov, não em condição mais simplificada. A mulher hodierna carrega o peso do erro pelos fracassos dos seus relacionamentos e ainda tem de desenvolver um esforço interno para saber lidar com as expectativas do homem desejado.

A cada início de capítulo, são apresentadas frases curtas que exprimem a necessidade de pensar o relacionamento como um negócio: ―sexo é como um pequeno negócio. Nunca se deve descuidar dele‖; ―A loja de doces – como tirar o máximo proveito de seus poderes femininos e sexuais‖; ―não vamos negociar levados pelo medo‖; ―não aprenda os truques do negócio. Aprenda o negócio‖; etc. O exemplo da ―teoria da loja de doces‖ é bastante lembrado pelas leitoras. A autora aconselha que não se deve entregar toda a loja de doces de uma vez, ou seja, se resguardar sexualmente para a hora certa, oferecendo ―uma jujuba por vez‖.

A sexualidade é encarada como algo que pode valorizar ou desvalorizar uma mulher, de acordo com a lógica dos homens. Ela compara o que seria a mulher ―só para passar o tempo‖ com a mulher ―que vale a pena‖. A primeira vai para a cama no segundo encontro e deixa o parceiro com a sensação que recebeu a loja de doces inteira. A segunda controla os próprios desejos e se despede dele com um beijo apaixonado, o que faz a chama crepitar. Insiste Argov (2009, p. 52): ―quanto tempo você deve esperar antes de transar? O máximo que puder. Mantenha a relação platônica pelo menos no primeiro mês‖.

Além de dominadores, os homens são apresentados como possessivos, embora isso não lhe custe o débito do fracasso dos relacionamentos: ―[o]s homens são possessivos. Eles gostam de saber que os outros não conseguem facilmente aonde ele deseja se estabelecer. Ele quer explorar novas terras onde poucos estiveram‖. Se a mulher, no entanto, ao desconsiderar essa ―qualidade inata‖, se deixa levar pelos seus próprios desejos, o resultado seria: ―se você

139 se entregar de primeiro a um homem, ele dirá a si mesmo: ‗Ela simplesmente não resistiu aos meus encantos!‘ Mas logo depois vai imaginar quantos outros também foram irresistíveis‖. Na margem de ação que caberia à mulher poderosa, a liberdade sexual aparece como um dilema. Resguardar-se para a hora certa, como provavelmente foram aconselhadas suas gerações anteriores, continua sendo sinônimo de valor.

3.3.4 Boazinha, poderosa, mãe, amante, falsa ingênua: os modelos femininos de