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Há pressupostos de concepções de gênero em todo o conteúdo do livro. Eles estão presentes no contraste entre a boazinha e a poderosa, no que se apresenta como o modo de ser dos homens, no que se considera valorizado ou não em uma relação, etc. Mudam-se os termos, que aparecem em linguagem mais contemporânea, porém os lugares esperados para as mulheres continuam, em vários aspectos, problemáticos, inclusive pelo custo emocional a elas repassado, seja no esforço para conseguir um relacionamento afetivo bem-sucedido, seja na culpa carregada se as tentativas não derem certo.

A poderosa demonstra sua esperteza, segundo Argov, quando faz o homem sentir que tem razão. Então, ela simula a falsa ingênua, com o intuito de massagear o ego masculino (2009, p. 67): ―deixe-o pensar que tem o controle. Automaticamente, ele fará o que você deseja‖. Afirma ainda a autora (2009, p. 68, grifos no original): ―para todo macho, a sensação de ser o homem é essencial‖. O que se requisita à poderosa é que ela saiba identificar quando massageia o ego dele para enaltecê-lo e quando faz isso demonstrando carência, sendo a primeira conduta aceitável e a segunda reprovável. ―A falsa ingênua é uma negociadora inteligente‖.

Em outro trecho, falando ainda sobre a falsa ingênua, Argov sugere que quando a mulher se mostra mais suave e feminina desperta no homem o instinto protetor; mas quando age mais agressivamente, desperta nele o espírito de competição. A mulher não deve tentar competir com o espírito caçador masculino, pois, segundo a autora, ele interpretaria como se ela pretendesse ―vestir as calças‖. Outras dicas sugeridas para a mulher ―fazer amizade com o ego dele‖ e fazê-lo se sentir importante na relação são como as seguintes:

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[s]empre que ele fizer algo que exija habilidade, como instalar uma prateleira, elogie-o. Não importa se ficar com um ângulo de 45º e tudo o que você colocar em cima dela escorregar para um dos lados. Bata palmas alegremente, como uma foca, e depois, quando ele não estiver por perto, chame alguém para consertá-la (p. 70). [...]

Peça para ele abrir o vidro de palmito (mesmo que você consiga fazê-lo sozinha) (p. 71).

[...]

Deixe que ele estacione seu carro ou o tire de uma vaga apertada (p. 71).

Algumas situações que põem a mulher em posição de desvantagem são revertidas, nos termos da autora, com compensações materiais, conforme o exemplo abaixo, em que Argov (2009, p. 73) justifica porque o homem deveria pagar a conta num restaurante em um possível primeiro encontro:

[m]as também não é justo que nós, mulheres, ganhemos menos no trabalho, tenhamos que usar sutiãs apertados para levantar bem os seios e nos equilibrar em saltos altos, carreguemos bebês na barriga e soframos as dores do parto. Assim, deixe que ele seja o homem. Um gentil cavalheiro. […] A mulher poderosa sabe que, quanto menos ela criticar, melhor será. E é por isso que ela não reclama. Em vez disso, age com habilidade.

Sugere-se, também, que nas contas de casa a mulher participe com uma parte, mas a divisão de despesas não precisa ser igualitária: ―o homem fica feliz em pagar por todo o resto. Ele não precisa sentir que tudo é igual, somente recíproco‖. A mulher poderosa também deve deixar os méritos para o homem, com o intuito de massagear o ego dele:

[a]lém de precisar sentir que ―está com a razão‖, um homem tem a necessidade de ser ―dono da ideia‖. Então, lembre-se, a ideia é sempre dele, mesmo que não seja. Não tente competir com ele, não vale a pena. Quando estiverem com um grupo de amigos e ele receber o crédito por alguma ideia sua, não crie um deus-nos-acuda. Ele precisa mostrar que é o chefe (ARGOV, 2009, p. 75).

A poderosa também se opõe à ideia de ―supermulher clássica‖, denominação de Argov para se referir às mulheres modernas que aspiram mais autonomia e igualdade nos relacionamentos. Segundo a autora:

[a]gora que as mulheres estão bem estabelecidas no trabalho, os homens não se sentem mais tão necessários aos olhos delas […] As mulheres bem-sucedidas profissionalmente são, com frequência, as que se pegam dizendo: ―Eu não deveria ter que me desculpar por ser forte‖. Elas não entendem por que não conseguem ―achar um bom homem‖.

É porque um bom homem deseja uma boa m-u-l-h-e-r. Ser poderosa não significa perder a feminilidade nem tentar abertamente vestir as calças dentro de casa. […] A supermulher clássica deseja um relacionamento em que o homem e a mulher sejam ―iguais‖. Essa é uma boa teoria, mas, na prática, acaba gerando uma relação desigual

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(ARGOV, 2009, p. 78).

Argov generaliza ao associar mulher bem-sucedida e mulher heterossexual, além de indiretamente supor como descabidas as mulheres que querem estabelecer relações mais igualitárias. Ao caracterizá-las jocosamente pelo ato de ―vestir as calças‖, tanto sugere que se adote um comportamento feminino considerado legítimo quanto busca deslegitimar posturas que se aproximem de modelos considerados como masculinos. Do mesmo modo, o termo ―supermulher‖ aparece como forma de se distanciar de um sentido feminista, como o fazem os demais autores dos livros analisados.

A autora adverte que é preciso separar os papéis de mãe e amante. E, ao advertir sobre a mulher estar agindo como mãe dele (implicitamente seria a condição da leitora no futuro, enquanto mãe), declara:

[a] maioria dos homens não se importa muito se o chão não está brilhando ou se a casa está uma bagunça. Eles ficam felizes em mergulhar no sofá manchado de tanto uso, com as almofadas marcadas pelo peso das nádegas deles. Não se importam se a pia está cheia de pratos sujos do dia anterior ou se seus sapatos deixaram pegadas de lama por todo o carpete (ARGOV, 2009, p. 110).

Para que a leitora evite agir como uma mãe, Argov aconselha que ela não deve tentar proteger o parceiro. Vê-se que as noções de proteção ganham conotações diferentes a depender de quem age: se é o parceiro, é visto como a virilidade de macho protetor; na mulher, como sinal de apelo maternal, o que também sugere que, na condição de mãe, a proteção ganha sentido positivo (―ele não precisa conquistar a própria mãe‖, diz a autora).