5. Crusader Politics
5.5. One Vision Too Far
Fonte: Arquivo da pesquisa/2010.
No entendimento de Oliveira (2004) são saberes que expressam dimensões educacionais, produtivas, culturais e “são denominados de populares porque são frutos de experiência de vida” (p. 54), as quais são adquiridas no fazer cotidiano, e utilizados pelos sujeitos para realizar sua prática produtiva, manejar instrumentos, conhecimento do ciclo da natureza, das enfermidades de seus animais, etc. Saberes que são repassados às gerações futuras no dia a dia. Fazem parte do conjunto desses saberes, as histórias de visagens, lendas, mitos, experiências vividas, muito fortes no espaço amazônico-marajoara. Esses saberes são elementos presentes nos fatores históricos e culturais da Amazônia, conhecê- los é indispensável para se falar de educação nesse meio e refletir sobre práticas sociais de comunidades ribeirinhas e práticas pedagógicas de instituições educativas presentes nesse espaço.
O estudo dos saberes, [...] sobre as práticas sociais cotidianas construídas em uma realidade cultural própria e marcada pela precariedade social, econômica e política torna-se importante para a reflexão da práxis dos atores sociais da própria comunidade ribeirinha. O estudo dos saberes produzidos por esses atores em seu cotidiano sociocultural é significativo para a compreensão da prática
pedagógica na educação de jovens e adultos no espaço rural das comunidades ribeirinhas (Id., 2004, p. 11).
Não raras vezes ouve-se falar de saber cultural como sinônimo de senso comum, porém alguns autores fazem diferença entre saber cultural e senso comum, outros, no entanto, os entendem como se tratando da mesma coisa.
Em Ayala e Ayala (1987) o saber popular tem direta ligação com a cultura popular (de onde nasce) para os quais ela é “criada pelo povo e apoiada numa concepção do mundo toda específica e na tradição” (p. 41). Citam alguns exemplos de manifestações da cultura popular, como os chás medicinais, os artesanatos, as cantigas de ninar e a culinária, as quais se constituem como saberes populares, não exigindo espaço e tempo formalizados e são transmitidos de geração em geração por meio de linguagem falada, de gestos e atitudes. São transformados à medida que sofre influências externas ou internas.
Kuhn (1982) faz diferença entre saber popular e senso comum. Enquanto este se dá num contexto mais global, para uma sociedade como um todo, aquele é específico e diverso, voltado aos diferentes grupos que compõem a sociedade. Está à margem das instituições formais, não lhe emprestando o poder e a legitimidade do saber aceito.
Nas abordagens trabalhadas por Santos (2005), saber cultural diz respeito ao acúmulo de conhecimento produzido por várias gerações; “[...] construídos com sentido de pertencimento, marcado pelas formas de viver e compreender o mundo, suas representações e valores” (SANTOS, 2005, p. 1). No contexto amazônico são saberes que estão presentes e são referências da história de vida dos ribeirinhos, sua produção da vida cotidiana, crenças, religiosidades, entre outros
No entendimento de Lopes (2006) o senso comum é a forma de expressão do saber popular, a maneira de as camadas populares conceberem e interpretarem o mundo; desprezá-lo seria menosprezar o saber popular e qualquer forma de saber não científico.
No contexto dessas discussões são fundamentais as idéias desenvolvidas por Moraes (2007), antes, no entanto, entendo ser importante trazer a lume algumas considerações feitas por Maria da Conceição de Almeida, prefaciadora da obra. Primeiro evidencia que o que somos cultural e tecnologicamente é resultado de acúmulos construídos historicamente, pois “nenhuma cultura se edifica sem base, o solo e a argamassa do passado” (Prefácio. In . MORAES, 2007, p. 11). Mas essa é apenas uma das faces da questão. Trabalhando sobre as características de permanência e atualidade dos saberes e conhecimentos de populações que vivem distantes da cultura científica e dos progressos da ciência, a relação estreita com o meio ecológico, fonte de conhecimentos...
Repassados de forma oral e experimental, são responsáveis pela manutenção de centenas de grupos culturais espalhados pelos lugares ainda não cooptados pela lógica do sistema mercadológico que tudo nivela, padroniza. (2007, p. 11).
Cita o conhecimento das qualidades medicinais dos animais que obtinham os habitantes da Sibéria; a ciência botânica utilizadas por populações brasileiras para curar suas doenças, métodos de medidas de volume e área diferentes da geometria euclidiana, construção de artefatos e técnicas para coleta de frutos como o açaí, na Amazônia algumas das referências do desafiador, criativo pensamento de uma ciência perto da natureza.
Quando trata do que chama de saberes da tradição afirma que para aqueles que lidam com esses fragmentos da cultura humana e para compreender sua anterioridade é preciso “reconhecer a importância inestimável desses saberes para a consolidação da cultura contemporânea e, em particular, para a construção da ciência”. (2007, p. 12). A prefaciadora da obra de Moraes (2007) ainda escreve que “nesse sentido não reconhecer a importância dos saberes da tradição, ou tomá- los como um saber primitivo e menor é cuspir no próprio prato da aventura humana na Terra” (2007, p. 12). O autor então propõe uma questão instigante, reflexiva e radical sobre a sabedoria ecológica dos espaços estudados, que distante do minimalismo da chamada sociedade-rede, usam de criatividade para não sucumbir aos desafios vividos.
Se é assim, cabe perguntar sobre as condições de manutenção dessas sabedorias ecológicas, ou mesmo, se é necessária, é desejável a inclusão delas na correnteza perversa de um rio caudaloso, chamado globalização,
hábil em transportar riqueza para o mar dos soberbos da civilização, e mestre em dispensar nas suas extensas margens os que vão, cada vez mais, se despossuindo dos bens da vida e dos valores ancestrais. (2007, p.12).
Moraes (2007) faz reflexões, análises e discussões sobre conhecimentos construídos pelas populações amazônicas com o objetivo de contribuir para a redução do fosso entre ciência e tradição. Evidencia, ainda, parte da diversidade das técnicas de pesca das populações que têm na água uma espécie de santuário da vida, os limites entre as técnicas e os mitos presentes no mundo da pesca.
Voltando-me especificamente para o contexto do Marajó, recorro aos estudos de Silva (2006) desenvolvido em uma comunidade de pescadores o qual serve de referência para situar o espaço mais restrito do município de Breves no que diz respeito a alguns elementos de sua cultura. De um modo geral esse trabalho é importante para quem quer conhecer mais sobre outros aspectos do modo de vida desses sujeitos no referido município, porém tomo como referência para esse momento apenas dois capítulos da dissertação, um que trata sobre e outro que fala da “territorialidade dos moradores do Ituquara”. Em “o modo de vida no Ituquara”, além das abordagens sobre os modos de vida, o autor analisa os aspectos socioeconômicos e as principais atividades realizadas pelos pescadores e sua relação com o meio ambiente, fazendo uma prévia observação de que os pescadores realizam outras atividades e não só a pesca, como agricultura, criação de animais e até empregos esporádicos, o que mostra como esses sujeitos se adaptam à dinamicidade do cotidiano.
A pesquisa de Silva mostra que as residências estão fixadas às margens do rio, situação que se explica pelo fato de o mesmo ser a principal via de locomoção dos ribeirinhos. Assim, fica mais fácil para os moradores chegar à canoa ou ao barco, por exemplo.
Essa população atua numa movimentação constante e polivalente, desenvolvendo o cultivo de roçado, coleta de frutos a criação de aves e animais, ou seja, ele vai se adaptando conforme suas necessidades, geralmente determinadas pelo ciclo da natureza. Como a região é bastante alagada cultivam espécies que se adaptam ao solo úmido como o milho, arroz e maxixe. Estrategicamente também desenvolvem a horticultura, geralmente suspensa, cultivada em paneiros e canoas
velhas cheias de terra. A Foto 5 mostra uma caixa com hortaliças suspensa, à margem de um igarapé, suspensa para não ser submersa e à margem para facilitar a irrigação.