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Chapter Four. Data, Measurements and Methods

4.2.4 Other Variables

Denomina-se segunda economia, o setor informal em países socialistas, sendo que tal prática observada no Leste Europeu, em Cuba e na China é muito explorada. Segundo Henken (2005), esta categoria define-se como uma atividade que não é regulada pelo Estado, nem prevista no plano central, constituindo-se uma alternativa econômica e laboral à burocratização redistributiva existente em estados socialistas. Além disso:

A segunda economia expande o conceito de informalidade ao incluir, não apenas atividades econômicas ilegais ou não reguladas pelo Estado, mas também todos os lucros privados (legais ou não) que contradizem os ideais de igualitarismo do socialismo, propriedade estatal dos meios de produção e o estado universal de empregos (HENKEN, 2005, p. 368).

Na China, a informalidade aparece tanto em relação a uma economia de mercado capitalista, quanto no estado centralizador ideologicamente socialista, o qual mantém o controle público sobre inúmeras propriedades. Conforme Nee (1989), esta segunda economia manifesta-se na sombra, em uma zona relativamente autônoma do Estado. A singularidade da China é que ela, atualmente, em contraposição ao período que precede a abertura, é tanto legal quanto sujeita à regulação do Estado, embora, na prática, ela seja amplamente desregulada e não prevista.

Hoje a noção de segunda economia aplica-se mais às áreas rurais na China, onde ainda há resquícios de políticas socialistas no que se refere ao cultivo e

propriedades de terras. Nee (1989) argumenta que, na China, uma das consequências da transformação do sistema redistributivo para uma economia de mercado é uma alteração da ordem da estratificação social através do deslocamento das relações de poder verticalizadas entre redistribuidores e produtores para uma relação de horizontalidade entre ambos, ou mesmo de uma inversão de ordem. Produtores passaram a gerar capital privado e, encarnados na figura de empreendedores (legalizados ou não), o poder se transforma.

Segundo Pinheiro-Machado (2009) a China vive um processo de privatização lato sensu e entende a autora que o paradoxo chinês é justamente a coexistência do socialismo com valores de neoliberalismo, tais como o lucro privado, o empreendedorismo, a promoção individual; bem como a coexistência do limite da expressão individual com ganhos, iniciativas e vidas privadas, nas quais os indivíduos urbanos tomam os rumos de suas vidas, decidem seus gostos, suas profissões, seus caminhos e suas responsabilidades, enfim, escolhem seus próprios destinos.

Gold (1985) mostra que a modernização trouxe consigo um maior nível de individualismo, no momento em que se aliviou o controle sobre as vidas privadas, liberando as escolhas mais íntimas como o consumo e o casamento. Davis (2000) revela que entre 1978 a 1990, por exemplo, a renda per capita, simplesmente, dobrou no país. Desde então, houve um afrouxamento do controle sobre os bens de consumo e, assim, o luxo aparece com força para demarcar novos posicionamentos sociais.

Quando o partido e os oficiais do governo reduzem o controle sobre o fluxo de mercadorias, eles também cedem grande autonomia à sociabilidade cotidiana”, no entanto, “não há um triunfo da vida privada sobre a vida pública, mas um enfraquecimento da tutoria‟ hegemônica que foi exercida sobre a vida urbana entre 1960-70. (DAVIS, 2000,p. 03)

Yang (1994) assinala que o consumo exacerbado na China deve ser entendido através de uma contextualização histórica, pensando que ele aparece em uma sociedade em que o dinheiro e os bens foram, por muito tempo, escassos. As mercadorias simbolizam o âmago da transformação de um sistema redistributiva para uma economia de mercado. Elas representam liberdade, poder, escolha, individualidade e, portanto, contrapõe-se aos tempos em que, para se conseguir qualquer mercadoria para além do prato de arroz, era necessário possuir redes estabelecidas com os agentes do governo.

Na reforma econômica, ditados populares reconheciam o dinheiro como uma motivação básica humana e satirizavam o socialismo oficial e enterravam a sua ética. Ditados utilizam os abundantes homônimos em chinês para construir novos significados de velhas palavras:

“ideais” é construída para dizer “Se há lucro para ser ganho, então eu quero isso”. [...] O típico slogan “servir as pessoas” mudou para “servir as pessoas do dinheiro”. A exaltação do progresso “olhe para o futuro” pode ser entendida como “olhe para o dinheiro”. Estas paródias dos padrões oficiais circularam amplamente, expressando um cinismo e irreverência em direção aos dogmas políticos e morais oficiais (YANG, 1994, p. 161)

Percebe-se, no comportamento da sociedade chinesa, uma revolução do pensamento até então calcado nos pilares na filosofia confucionista no desejo de enterrar um passado lardeado de fome, miséria e vergonha nacional, para um futuro glorioso conforme preconizava Deng, em sua célebre frase: “Ser rico é glorioso!”. Trinta anos mais tarde, a China contabiliza 60.000 bilionários em yuan, dos quais duzentos são donos de fortunas superiores a dez bilhões.

Pinheiro-Machado (2009) informa que uma das características que definitivamente caracterizam esse sistema mercantil chinês é o generalizado desejo de ser patrão. A vontade de trabalhar para si próprio é uma ânsia por poder e enriquecimento, mas também o desejo de controlar o próprio destino, de guiar a própria vida. O intuito de chegar à categoria de empresário, chefe e estar no topo do poder move os indivíduos.

Segundo a autora, ser empresário virou um disseminado objetivo. Há uma espécie de ditado popular chinês que diz: “entre um bilhão de pessoas, 900 milhões são empresários e 100 milhões esperam abrir um negócio” (no tempo em que população era um bilhão). Todos esses fatores fizeram (e ainda fazem) com que muitos dessas pessoas que abriram seus próprios negócios fossem exemplos de casos de sucesso e de enriquecimento instantâneo (e o consumo de luxo surge com imensa força nesse universo de demarcações de novas posições).

5.2.1 Um Sistema que Copia e Não Cria: a força da indústria da imitação

No século XIX, o Delta do Rio da Pérola, em continuidade com Hong Kong, passou a ser um dos maiores centros exportadores de réplicas a nível mundial. Os chineses imitavam tanto os produtos europeus, quanto as próprias relíquias

chinesas para o uso próprio e para exportação (barateando os custos destes bens localmente e mundo afora), formando um mercado de dimensões transcontinental. Nas primeiras décadas do século XX (no período de crise republicana, pós-restrição do Canton System), a indústria da imitação foi uma das principais fontes de subsistência para os chineses cujo modo de produção de trabalho intensivo, mão- de-obra e mercadorias baratas se estendiam até Hong Kong, mesmo sob as leis britânicas.

A velocidade e a especialização dos chineses em suas cópias passaram a ser o centro de atenção de exposições internacionais, que exibiam, por exemplo, as perfeitas cópias de porcelanas chinesas. Com peças limitadas, fabricavam-se mais de dez mil tipos de variadas imitações. Desse modo, até o período do comunismo, a China passou por uma era de domesticação de bens estrangeiros e, em competição com o Japão, desenvolveu e aprimorou as técnicas de copiar, chegando a resultados surpreendentes através de uma vasta mão-de-obra barata. O auge desse sistema ocorreu após a crise advinda da guerra com o Japão (1894-5), sendo estimulado pelo movimento de bens nacionais. O que se chamava de nacional, entretanto, dizia respeito apenas à produção, no momento em que o design desejado era sempre o estrangeiro.

O modelo econômico baseado em cópias era legitimado pelo Estado, visto como uma maneira bastante eficaz de produção nacional. Cursos foram fornecidos em larga escala, ensinando a copiar, a replicar e a criar partindo-se de um modelo. O movimento por bens nacionais e soberania fez disseminar maquinarias simples e complexas. Houve a substituição, definitiva, da importação pela indústria local, já que essa passou a copiar tudo. Catálogos, feiras, exposição e prêmios coroavam a apropriação local de certos bens. Cosméticos, pastas e escovas de dente, enfeites e utensílios tudo primordialmente. Esse sistema, enfim, foi sufocado com a Revolução Comunista.

A famosa frase de Deng Xiaoping – “Não importa se o gato é branco ou preto, conquanto que morda os ratos” – ditos no contexto de reformas no campo- inseriu-se no imaginário chinês e é ressignificada para os diversos contextos convenientes. A metáfora da cor dos gatos que ressalta a importância de se atingir o crescimento, independente dos meios para tanto demonstra a associação direta do boom da indústria chinesa (formal e informal) com a imagem reformadora do líder.

Na China, informalidade e Estado seguem o mesmo trilho. Houve um grande incentivo para que se abrissem fábricas, criassem empregos e fizessem as economias locais prosperar. Havia também um contingente populacional gigantesco e necessitado, o qual precisava de trabalho. Além disso, acrescenta-se um mercado consumidor interno e externo inesgotável. O incentivo ao empreendedorismo e ao consumo, portanto, faz parte de uma política estatal. Na era Deng, fazia-se necessário gerar renda e empregos imediatamente e, nesse sentido, um sistema que copia (e não cria) era o meio mais rápido e eficaz para tanto, pois englobava milhões de pessoas e, assim, geraria empregos.

Seria impossível uma explosão de empregos diante de um sistema burocrático e trabalhista tal qual se concebe como ideais no Ocidente. Assim, a diretriz que vinha do governo incitava o sonho da prosperidade imediata. Houve uma corrida desenfreada para o mundo dos negócios e isso foi amplamente legitimado pelo poder central, mesmo que através do consentimento calado. Sociedade, mercado e governo estavam sincronizados num projeto de desenvolvimento nacional.

Finalmente, devido essas condições de “urgência”, as condições de trabalho nas fábricas, bem como a própria produção de cópias, foram socialmente aceitas e legitimadas em nome de uma necessidade urgente de melhorar a vida degradante do interior do país. Ao mesmo tempo em que existem inúmeros exemplos de enriquecimento instantâneo, bem como uma classe média emergente, justamente, a base de exploração e penúria de quem se encontra abaixo e sustentando o desenvolvimento, uma vez que economias informais podem mascarar o caminho marcado por regulações das normas trabalhistas extremamente frágeis.