Chapter Four. Data, Measurements and Methods
4.2.1 Geographic Indicator
Deng Xiaoping não acreditava na democracia e acreditava que o país somente se desenvolveria através da força centralizada representada pelo Partido Comunista. Na visão de Deng, a China continuava sendo um país extremamente grande, subdesenvolvido e, acima de tudo, pobre. Deng definiu um objetivo para sua pátria: “chegar, na metade do século XXI, ao nível de um país medianamente desenvolvido” e criou um método para isso: “Para que o socialismo seja concretamente superior ao capitalismo, é necessário que ele seja capaz de nos tirar da pobreza6”.
Deng empenhou-se no alcance de tal objetivo, seguindo o preceito de liberdade econômica, mas sem existir democracia. Durante seu comando, Deng transformou a visão que o Ocidente tinha da China transformando-a de um império do totalmente político, para um país totalmente econômico. Entretanto, a realidade chinesa também era política, como foi demonstrado através dos protestos estudantis na praça de Tiananmem, em abril de 1989, que reivindicavam a adoção do regime democrático, sendo tais protestos violentamente reprimidos pelo governo chinês no episódio que ficou marcado na história daquele país como “Sangue nas ruas de Pequim”. Após esse episódio, Deng restaurou o maoísmo na China ao apoiar, na década de 90, o retorno progressivo e cautelosamente controlado do clã reformador (no sentido econômico do termo). No entanto, permaneceu fiel a sua crença: sem a estrutura de um partido dirigente forte, a China jamais viria a ser uma grande potência. O homem que liquidou o maoísmo nunca cogitou de se livrar de toda a herança do “imperador vermelho” e aplicou ao seu antigo mestre a avaliação que Mao havia feito do próprio Deng 20 anos antes: “70% de bom e 30% de ruim”.
A história recente da China foi marcada por eventos que delinearam sua cultura e o seu pensamento: as Guerras do Ópio, o fim do Império (1898-1911), a
6 História Viva- Rerni Kauffer. Disponível em:
>http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/deng_xiaoping_- _o_arquiteto_do_milagre_chines.html – Acesso em 01/11/2013<.
República (1911-1949) e a Revolução Comunista (1949) e Cultural (1966-1969). Aijmer e Ho (2000) consideram o comunismo chinês como desastroso, pelo fracasso do sistema de comunas causando a desestruturação do modo econômico-cultural, que se baseava no parentesco e na linhagem. O ambiente repressivo e de permanente vigilância era representado pelas brigadas e pelos “guardas vermelhos”. Na luta contra o capitalismo máquinas e empresas que não foram socializadas eram destruídas e os microempresários eram perseguidos por serem caracterizados como “burgueses”. A luta não se limitada às mercadorias estrangeiras, mas a qualquer tipo de mercadoria. O comunismo chinês não se voltava à prática do consumo de bens nacionais e sim, contra toda e qualquer forma de consumo daquilo que não era considerado como o estritamente necessário.
Tal sistema inspirava-se em uma vida no campo de forma socialista e sem vícios burgueses. Nesta época, durante a Revolução Cultural o polêmico líder Deng Xiaoping foi excluído por Mao Tsé-Tung e obrigado a se reeducar, trabalhando numa fábrica, tendo que ver seu filho ser aleijado pelos Guardas Vermelhos. Os donos das maiores fortunas de Gaungdon bem como de todo o país, fugiram para Hong Kong para fins de fugir das penalidades, as quais eram impostas aos burgueses. Em Hong Kong tais indivíduos formaram uma das regiões mais prósperas do mundo tornando- se a menina dos olhos do governo chinês após a abertura econômica.
Guangdong renasce com as reformas, brilhando como vitrine do país após trinta anos da abertura econômica. Após reatar com o Partido e retornar ao poder central da China na década de setenta, Deng Xiaoping teve uma grande participação na abertura econômica da China. Já no ano de 1982, a grande ânsia da China pode ser resumida em uma célere frase: ”é tempo de prosperar. A China foi pobre por milhares de anos. Ficar rico, definitivamente, é glorioso!”. A mesma define bem o que significou a abertura econômica em 1978/79.
Informa Castells (1999) que o primeiro passo chinês para a instituição de uma política de atração de Investimento Externo Direto foi a adoção, em 1979, da “Law of the People’s Republic of China on Joint Ventures Using Chinese and Foreign investment” ou “Law of Sino-Foreign Joint Ventures”, um estatuto jurídico da China que regulamentaria o investimento externo. No ano seguinte, foi criada a política das Zonas Econômicas Especiais no intuito de atrair investimento estrangeiro e tecnologia avançada e oferecendo vantagens como a mão-de-obra barata, isenção tributária e disciplina social.
Deng Xiaoping liderou o processo de abertura econômica da China. Esse processo foi denominado como “A Grande Experiência”. Sob seu pensamento, as Zonas Econômicas Especiais (Jing ji te qu) foram criadas e Guangdong concentra as principais delas, como Shenzhen. As ZEE possuem carga tributária mais baixa e condições autônomas políticas e mercantis. O objetivo é atrair investimento externo, especialmente, da população chinesa ultramar, reconquistando a sino-riqueza anteriormente dispersa, inclusive de Hong Kong que antes de 1997 era colônia britânica. De forma sintética consideram-se as vantagens das ZEE por serem consideradas especiais pelo governo chinês:
1. Impostos especiais incentivando o investidor estrangeiro;
2. Maior independência sobre atividades comerciais internacionais;
3. Características econômicas, representadas como as “quatro primazias”: a) Utilização de capital estrangeiro;
b) Atrair os chineses que estão fora da Republica Popular da China, bem como negócios inteiramente de propriedade estrangeira;
c) Produtos são primeiramente de orientação para exportação; d) Atividades econômicas são reguladas pelo mercado.
A política chinesa de Portas Abertas é considerada o marco inicial desta recém expansão econômica: ao longo das décadas de 1980 e 1990, a China tem emergido entre os países em desenvolvimento como o maior beneficiário de Investimento Externo Direto e o segundo do mundo, atrás dos Estados Unidos. Para Escobar (1997), os responsáveis pelo “milagre chinês” são e foram os chineses de ultramar:
Os agentes secretos da Renascença não foram as centenas de milhões de habitantes da Mãe-Terra, mas uma verdadeira via láctea de refugiados: os
hua qiao – a diáspora chinesa espalhada pelo mundo, também conhecida
como overseas chineses, China Invisível, Grande China Inc., Filhos do Imperador Amarelo, Senhores do Anel (do Pacífico), mandarins mercadores ou, simplesmente, os Judeus da Ásia. (...) A maior business school do planeta é a China contemporânea. E os professores são todos da Internet de bambu7 (ESCOBAR, 1997, p. 225).
Concordando com Escobar, Arrighi (1996) afirma que se o principal atrativo da República Popular da China para o capital estrangeiro tem sido as suas reservas enormes e extremamente competitivas de força de trabalho, o “casamenteiro” que
7 Internet de bambu é o termo usado pelo autor para designar a diáspora chinesa pois, através de
laços de família, clã e dialeto, a diáspora criou uma verdadeira nação sem fronteira, trançada de redes de business, (...)
facilitou o encontro do capital estrangeiro com a força de trabalho chinesa foi a diáspora capitalista dos chineses de além mar.
Atraídos pela reserva de mão-de-obra qualificada e barata e pelo seu potencial crescente como mercado que contém um quinto da população mundial, os investidores estrangeiros continuaram a despejar dinheiro da República Popular da China. Cerca de 80% desse capital provêm da comunidade chinesa de além mar, formada por refugiados da pobreza, da desordem e do comunismo, que em uma das ironias mais picantes de nossa era são hoje os financistas e os modelos de modernização favoritos de Beijing (ARRIGHI, 1996, p. 11)
Em 1992, Deng Xiaoping, apoiado pelos líderes provinciais do partido e pelo Exército de Libertação do Povo (ELP) e depois de enfrentamentos e jogadas políticas, consegue costurar um amplo acordo denominado o “Grande Compromisso” entre os segmentos do PCC (anciões, marxistas-leninistas, pró- abertura, líderes locais, tecnocratas e o ELP) para garantir e acelerar o processo de reformas e abertura.
O fio condutor do acordo foi a ideia de transformar a China numa nação rica e poderosa até a metade do século XXI. A estratégia de desenvolvimento nacional gerou dois eixos articulados propulsores do crescimento da China: de um lado, a dinâmica exportadora promovida pela configuração das ZEEs e pela política cambial (manutenção do yuan desvalorizada em relação ao dólar) e, do outro, a dinâmica interna puxada pela expansão dos investimentos, sobretudo os públicos em infraestrutura.
Na atualidade, a região conhecida como o Grande Delta é o maior pólo industrial do mundo, de novo, aproveitando-se das condições geográficas, hidrográficas e dos inúmeros portos existentes ao longo daquela costa, bem como de um modelo de produção de mão-de-obra intensiva. A volta de Hong Kong à China coroa, economicamente e, sobretudo, moralmente, o sucesso chinês. Atualmente Hong Kong é o centro financeiro da Ásia não japonesa, centro de desenvolvimento de produtos, com excelente infra-estrutura e qualidade de vida. Castells (1999) refere-se à cidade como a Manhattan da Ásia, porta de entrada para o mercado interno chinês. Após 156 anos sob o domínio britânico, domínio este estabelecido a partir da assinatura do Tratado de Nanquim ao final da primeira guerra do Ópio, a soberania de Hong Kong foi devolvida à China em 1997. Afirma Castells que, ainda assim, o papel do Estado no desenvolvimento de Hong Kong foi decisivo, mesmo que de maneira sutil e indireta. A terra era de propriedade da
Coroa britânica e não podia ser vendida, de forma que o governo podia apenas arrendar a terra, ação suficiente para contribuir com o aumento da receita pública do governo. Foi por meio da manipulação deste mercado de terras que o governo pôde desenvolver projetos habitacionais e industriais urbanos.
Guangdong é considerada a província mais urbanizada do país, possui o menor índice de desemprego e o maior PIB da RPC, ultrapassando Hong Kong e Singapura. A região mais industrializada concentra pequenas, médias e grandes indústrias da China e produz desde a mais corriqueira bugiganga de plástico até a mais sofisticada high-technology, como a indústria química, a petroquímica, automobilística e a produção de navios. O Delta do Rio da Pérola é, de novo, tomado como âncora desse processo.