Historical Background
3.6 Main Theoretical Points and Hypotheses
3.6.4 Urban-Rural Differences
As condições de cerco internacional sobre a China, a deterioração das relações com a URSS e o começo das melhorias econômicas, em 1957, são fatores que devem ser considerados na avaliação do contexto em que se deu a decisão do PCCh, por proposta de Mao, de adoção da nova estratégia de acelerada transformação econômica, o Grande Salto à Frente. Informa Pomar (2003) que:
[...] a estratégia era mobilizar a energia de centenas de milhões de homens e mulheres para revolver, profundamente, o solo da economia, da política e da ideologia na China. Já em 1957, no curso da campanha de retificação, combatendo o burocratismo, buscou-se a descentralização. Houve um pronunciado recuo do controle do governo central, que caiu de 9.300 empresas para 1.200. Aumentaram de 10% para 50% os recursos orçamentários nacionais destinados a obras locais (POMAR, 2003, p. 93- 94).
É importante ter em conta a realidade da estrutura produtiva na China nesse instante de decisão sobre o Grande Salto. Segundo Pomar (2003), na China de 1957, já existiam indústrias de aço, metal-ligas, aviões, automóveis e equipamentos de geração de eletricidade, bem como fábricas de máquinas pesadas e de precisão. Foram colocadas em operação cem grandes empresas industriais e tiveram início outras seiscentas grandes obras. O primeiro plano de governo, com metas e objetivos fixados para o período de cinco anos, imprimiu um rápido ritmo de desenvolvimento e promoveu importantes realizações, trazendo a impressão de sucesso, que atingiu toda a liderança do Estado-partido chinês no primeiro ano do Grande Salto, em 1958, sobretudo com a conquista de uma colheita recorde.
Entretanto, a proposta do Grande Salto mostrou-se um erro, porque o esforço para se tentar alcançar metas muito ambiciosas, em prazos curtíssimos, terminou submetendo a economia a insuportáveis tensões e desequilíbrios, que poderiam ter sido evitados. Na crítica a esse momento econômico, aponta-se que a conclamação ideológica ao trabalho e os incentivos morais quase se aproximavam do trabalho forçado ou do produtivismo stakhanovista à revelia da ciência e da tecnologia.
No Grande Salto, alguns serviços eram oferecidos gratuitamente, sem a devida contrapartida do poder aquisitivo refletido em alguma soma monetária para
pagamento de tais serviços, tentando-se restringir a necessidade do dinheiro e da operação mercantil. Na desorganização e no recuo da produção, atuaram as forças espontâneas e dispersas das iniciativas exageradas, contraproducentes, desgastando recursos, com ingentes esforços de grandes massas de homens. Citam-se, como exemplo, os altos-fornos de fundo de quintal que foram multiplicados pelas aldeias e resultaram em grandes perdas, porque o aço era de péssima qualidade. Os transportes e o abastecimento foram tumultuados, a economia ingressou em complicações crescentes, dificultou-se a sobrevivência em grandes cidades. Prejudicou-se a visão da importância dos projetos estratégicos de modernização das forças produtivas, de avanço tecnológico, de fortalecimento da estrutura de produção e do ritmo elevado e sustentado de crescimento econômico em uma trajetória de longo prazo. Subestimou-se a contribuição dos especialistas e o papel da formação científica.
Houve um caos organizativo, um colapso do sistema de transportes para os cereais e para o fornecimento dos insumos e matérias-primas, problemas de abastecimento. Além disso, a partir de 1959, durante o restante do Grande Salto houve grandes calamidades naturais, com sérios problemas climáticos, prejudicando gravemente a agricultura. Acusa-se a estratégia do Grande Salto de aventureirismo, ao tentar forçar a substituição do princípio socialista “a cada um segundo o seu trabalho” pelo princípio comunista “a cada um segundo sua necessidade”, sobretudo através das comunas populares.
Amin (2001) avalia que o débil desenvolvimento das forças produtivas na agricultura chinesa não permitia que a coletivização fosse tão longe como ocorreu nas comunas e brigadas. A organização do trabalho deveria corresponder mais às possibilidades reais de produção. Amin, todavia, justifica as formas de organização e gestão adotadas na produção rural pela aprendizagem da administração e dos valores do socialismo (a igualdade) e pela criação das condições de uma desconcentração da indústria.
As pequenas empresas nas áreas rurais contribuíram, como depois se concretizou na Revolução Cultural, para a ocupação das grandes massas camponesas, com atividades produtivas acessíveis, viáveis e caracterizadas pelos requerimentos de baixa tecnologia e de pouco capital. Para Gray (2006), os casos das irrigações em pequena escala, apesar de alguns fracassos, registraram êxitos
pelo seu baixo custo, ausência de agressão ao meio ambiente e por evitar os deslocamentos de massas da população local. Conforme Fairbank (1996):
Basta atravessar um túnel de uns quatrocentos metros de pedra trabalhada a mão sob a superfície de um novo campo – como uma forma de drenar a água sem causar a erosão da terra – para calibrar a impressionante aplicação de força muscular que significou o Grande Salto à Frente (FAIRBANK, 1996, p. 445).
Do sucesso da colheita de 1958 a China, por seus sérios problemas climáticos, deslocou-se para substancial queda de expectativas e pelas dificuldades crescentes da produção, a partir de 1959. Em julho desse mesmo ano, Mao foi criticado e assumiu a responsabilidade por tal estratégia econômica, tendo renunciado à presidência da República, fato que provocou a demissão de seu principal crítico – o ministro da defesa Peng Dehuai - e o Comitê Central redefiniu as tarefas do Grande Salto. Em agosto de 1960, a União Soviética retirou os seus técnicos da China, colocando em grandes dificuldades alguns projetos estratégicos de industrialização em curso, além da assessoria na gestão econômica geral, piorando o desempenho do Grande Salto.
Segundo Hobsbawn (1995), o episódio da grande fome, em 1960-1961, é considerado, pela maioria dos analistas como talvez a maior fome da história humana. Especula-se sobre a provável redução da população esperada da China, em cerca de 40 milhões, em 1961. Para Fairbank (1996), teriam sido de vinte a trinta milhões. Para muitos, a fome teria sido provocada pelas decisões voluntaristas de Mao.
Entretanto, Hinton (2004) denuncia que a notícia dessa grande fome só apareceu em censos de vinte anos depois, com manipulação de dados, para forçar uma interpretação totalmente negativa do Grande Salto e, por extensão, do período maoísta. O fracasso do “Grande Salto Adiante” custou à vida de milhões de pessoas e seu fracasso levou Mao Tsé-Tung a perder a presidência da República para Liu Chao-chi em abril de 1959.
A partir do fim de 1965, Mao, no intuito de reconquistar o status de chefe incontestável, lança o país nos horrores da Revolução Cultural, novo episódio sangrento que causaria a perda de 60 a 70 milhões de vidas e condenaria a China a um retrocesso de anos. Atormentada pelas convulsões, toda a China pensava unicamente em termos ideológicos: Mais vale ser vermelho do que especialista. Deng Shiaoping, percebendo ser mais importante salvar sua vida, silencia-se nesse
momento turbulento da história chinesa. Entretanto, estando na mesma situação de Liu Chao-chi, não tardou a ser acusado de traição por Chiang Ching, Lin Piao e Kang Cheng. Deng não contra-atacou, aceitando autocríticas públicas. Em 196, ele e sua família foram alvos de Guardas Vermelhos, que prenderam e torturaram seu filho mais velho, Deng Pufang, que se tornou paraplégico. Em outubro de 1969, Deng Xiaoping foi enviado para o exílio em uma fábrica de tratores na zona rural na província de Jiangxi para se “reeducar” em contato com os operários, passando quatro anos em tal fábrica.
Deng utilizou-se da tática precavida do bambu que se dobra sem se romper e conseguiu sobreviver. Aliás, Deng apoiou-se de dois pilares essenciais: o de Chu En-lai e o de Mao, disposto a poupar para a China o seu subordinado mais pragmático. Deng retornou à cena em 1973 para auxiliar Chu, acometido de câncer, aparentemente reatando a relação de intimidade que outrora tivera com Mao. Para a população, o nome do ex-secretário-geral do partido passou a ser considerado como uma verdadeira esperança. Em abril de 1976, Deng e seus aliados exploraram, ao máximo, as manifestações na praça Tiananmem, a faísca que, com o pretexto de homenagear a memória de Chu En-lai, incendiou todo o prado contra o Bando dos Quatro. Enfurecido com mais essa prova de independência, Mao ordenou sua destituição, mas, simultaneamente, deu-lhe proteção pessoal. Uma vez mais o dirigente chinês aceitou acolher debaixo da asa aquele que se dispunha a torcer o pescoço do maoísmo. Tal momento marca o início da ascensão de Deng Xiaoping, que nunca ocupou um cargo como chefe de Estado, chefe de governo ou de Partido, mas, mesmo assim, foi considerado o líder supremo da República Popular da China, de 1978 a 1992.
Mao morreu no dia 9 de setembro de 1976 e Deng, antecipando-se a Chiang Ching e seus amigos, que preparavam um golpe de força, uniu-se aos generais moderados que esmagou o Bando dos Quatro com o apoio ativo de Wang Dongxing, o “gorila” de Mao.
Hua Guofeng não durou mais que alguns meses no poder e, no fim de 1978, Deng se tornou o verdadeiro número um, cercado dos discípulos Hu Yaobang e Zhao Ziyang. Homens dos quais ele não vacilaria em se livrar em caso de necessidade, bem como de qualquer um que ousasse reivindicar a quinta modernização: a democracia.