À Profa. Orientadora desta tese: Dra. Maria da Conceição F. R. Fonseca – FaE/UFMG Lisboa – Portugal, dezembro de 2012. Olá, Ção!
Percebo que realmente compartilhar contigo toda a experiência que tenho vivenciado na oportunidade desse estágio sanduíche, por via de e-mail, seria impossível! Eu tenho questionado, buscado orientação para tomar decisões, mas comentar o teor das minhas vivências aqui na Universidade de Lisboa é mesmo inviável. Por isso, escrevo-te mais uma carta visando situar, antecipar um pouco da conversa que só será possível detalhar pessoalmente, no meu retorno ao Brasil. Busco retomar aspectos do meu plano de trabalho apresentado para o pleito do meu estágio- sanduíche aqui no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, supervisionada pela professora Cármen Cavaco. Nesta carta, eu tento te informar como tem decorrido a orientação, as contribuições dos doutorandos que integram o Grupo de Pesquisa em Educação de Adultos da Faculdade de Educação – da UL, e as minhas opções para adoção de categorias de análise do material gerado na pesquisa.
A professora Cármen Cavaco, ao me receber no seu gabinete na Universidade de Lisboa, presenteou-me com dois livros seus e logo me indicou uma literatura referente aos estudos no campo da formação experiencial de adultos. Debrucei-me sobre a leitura daqueles textos, de modo a compreender melhor o que se entende por formação experiencial. Essa leitura foi também reafirmando minha crença na relevância de se estudar tal abordagem para a elaboração de minha tese, porque eu reconheço a importância dos adquiridos experienciais na educação escolar e extraescolar dos jovens e adultos trabalhadores, sujeitos da minha pesquisa.
Por isso, enquanto eu lia aqueles textos, indicados por Cármen, eu pensava nas matemáticas que os trabalhadores-estudantes que acompanhei utilizavam, de modo que fui percebendo certo tom de solidariedade permeando aquelas práticas de numeramento, marcadas pelo compartilhar de experiências para o enfrentamento das
etapas do trabalho, e do próprio modo de organização da produção, para favorecer o grupo de operários que a ela se dedicam. Por isso, eu me convenci de que a solidariedade seria uma categoria fundamental na análise do material empírico produzido, documentado no diário de campo que elaborei. Dessa maneira, comecei a encontrar argumentos para afirmar que práticas de numeramento naquele contexto podem ser entendidas como sendo práticas solidárias e que essa solidariedade contrasta com a lógica de um modo de produção explorador, tal como aquele ao qual se submetem os trabalhadores-estudantes de minha pesquisa.
E, vinculado a esse entendimento, compreendi que aquelas relações solidárias de convivência no trabalho eram também alicerçadas no cuidado, vinculado à dimensão estética, porque se tratava de uma produção fabril, mas também apresentavam marcas do modo de viver e conviver com a vida rural que estavam inscritas naquelas pessoas: como artesãos, elas cuidavam da produção; como comunidade, cuidavam de si e do outro, apoiando-se e orientando-se pelo desejo de realização de seus sonhos. Essa percepção me fez pensar as relações pessoais naquele povoado, permeadas pelo cuidado nas suas múltiplas dimensões ali inscritas. O cuidado permearia, também, os modos de matematicar que vi serem mobilizados no cuidar dos planos para a vida futura (casamento, paternidade/maternidade); no cuidar do orçamento para despesas familiares (alimento, vestuário, saúde); no cuidar de eventual possibilidade de lazer, enfim, nas diversos modos de viver e conviver num lugar tão carente de recursos materiais para a vida. Por isso, aqueles trabalhadores- estudantes compartilhavam experiências, de um modo solidário e cuidadoso, oportunizando a condução da vida profissional, estudantil e nas diversas instâncias da vida social em que o sobreviver no Juá exigia.
Cármen havia sugerido a leitura de um livro sobre Educação de Adultos do qual gostei muito, intitulado: Educação de Adultos numa encruzilhada. Também me orientou para ler Ivan Ilyich e Rui Canário porquanto fazem alusão à relevância das aprendizagens extraescolares. Por fim, ela disponibilizou o material de leitura sobre Formação Experiencial de Adultos. Eu li com muito gosto aqueles textos e os fui incorporando ao meu trabalho.
Num encontro com a Cármen, no início de setembro, ela leu e comentou o texto que produzi. E, conforme anunciei, no dia 2 de outubro passado, apresentei essa
primeira versão do capítulo de análise do material empírico da tese durante a reunião dos doutorandos que integram o grupo de pesquisadores em educação de Jovens e Adultos aqui no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Na semana que antecedeu esse encontro, disponibilizei para o grupo aquele texto produzido que havia discutido com a Cármen. Desse modo, viabilizou-se contar com contribuições dos professores e dos doutorandos do programa para refletir sobre meus escritos.
Aquele encontro constituiu um importante momento para uma primeira revisão da escrita do capítulo metodológico, por permitir que eu retomasse a leitura dele, apoiada também nas lentes daqueles colegas com quem dialoguei na ocasião. As três categorias que elegi para tratar o material empírico das minhas vivências no Juá – a solidariedade, o cuidado estético e os adquiridos experienciais – foram consideradas pelo grupo como muito relevantes para me referir ao conhecimento matemático socialmente produzido e mobilizado por aqueles participantes da minha pesquisa.
Naquele momento, a professora Natália Alves disse-me da importância deste estudo para a Educação de Adultos e, sobretudo, para a Etnomatemática. Entretanto, a maior contribuição que a professora Natália – uma estudiosa da interface trabalho/educação – trouxe para a elaboração que devo realizar doravante foi a de questionar a posição que assumo para a adoção da categoria solidariedade. Minha proposta era contemplar a solidariedade como tática de resistência ao modo de produção capitalista – explorador, que subtrai a condição de vida digna das pessoas. Mas, além disso, eu percebia que elas acabavam por assumir também um compromisso ético umas com as outras, em forma de doação! Uma perspectiva visivelmente observada na partilha do alimento, da palavra de encorajamento, da atenção e, porque não dizer, da alegria expressa no riso pela conquista de algum objetivo compartilhado, nas risadas espontâneas em cada “causo” contado para animar o grupo, enfim, em cada ação comentada ou silenciada. Sempre com marcas valorativas da atitude solidária!
Daquela reunião, eu também assumo como muito importantes as questões levantadas pela professora Paula Guimarães ao dizer-me que gosta do fato de nos eventos eu ter posto em destaque aspectos positivos da vida comunitária do Juá, mas que imagina ocorrer também, naquelas relações de trabalho e produção, aspectos da vida não tão positivos. Isso me fez reportar ao comentário feito pela professora Sônia
Clareto quando, no dia da qualificação do meu projeto, perguntou-me sobre o que de bom eu percebia naquelas relações comunitárias, pois eu havia apresentado, no meu projeto para qualificação, aspectos negativos marcando aquelas vidas.
Penso que, nesse novo texto eu atentei para a questão posta por Sônia, mas talvez me falte dosar melhor, comentando eventos que testemunhem que as práticas de numeramento ali constituídas são marcadas por momentos de contentamento e também de desapontamentos, uma vez que isso constitui a própria natureza do convívio humano.
Todos os integrantes daquele grupo expressaram o gosto pela leitura do texto como um aspecto a ser considerado, visto que se falou “sobre matemática”, mas com uma redação que estimula bastante a vontade de ler e conhecer mais sobre o assunto. Considerando tais comentários, retornei à releitura do texto e preparei-o em ppt para apresentá-lo a uma turma de mestrandos numa aula na disciplina Aprendizagem Informal, no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, para a qual fui convidada pela Cármen.
Então, no dia 8 de novembro, compareci à aula dos mestrandos, e eles solicitaram que eu informasse que aprendizagens do grupo que acompanhei decorreram do contexto de trabalho. Na ocasião, foi possível conversar com os mestrandos sobre o conteúdo de minha tese, apoiando-me, sobretudo, em imagens do campo de investigação e dados empíricos (recortes do meu diário de campo). E aquele também se constituiu num importante momento para debater e assim revisitar aspectos do material empírico da pesquisa. Confesso que fico surpresa a cada vez que apresento novamente o trabalho, em forma de comunicação em eventos, em aulas, enfim, quando há oportunidade de compartilhar nossos achados... Há uma acolhida muito significativa do tema estudado, da escolha metodológica, bem como da relevância de nossa análise para a EJA, a Educação do Campo e a Etnomatemática!
Agora, realizo mais uma leitura do texto, organizando-o para nossa conversa brevemente no Brasil. Vamos garimpar e qualificar mais ideias para encaminhá-las aos nossos interlocutores da composição da banca de defesa!
Um grande abraço, Val