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RØYSTERETT, MANNTAL OG VALKORT

In document Valghåndboken (sider 17-26)

Á Profa. Dra. Kátia Medeiros47

Juá, março de 2011.

Oi, Kátia!

Escrevo-te a fim de alimentar o diálogo estabelecido entre nós quando decidi realizar minha pesquisa para o doutorado com viés etnográfico, em 2010, lembras? Naquela ocasião, eu buscava leituras sobre pesquisa etnográfica, porque se tratava para mim do acesso a um novo campo para estudar, compreender e assumi-lo na investigação. Recordo que logo você falou com esse seu jeito divertido: “Muito bem, Valda, posso te oferecer algumas referências”!

Lembro-me de que a continuidade de nossa conversa se deu com uma indicação sua, de um clássico: Geertz – a interpretação das culturas48. E, no encontro seguinte, tu me trouxeste um texto do capítulo nove desse livro, comentando que se tratava de um anexo e que você sempre o considerou bastante interessante para quem quer se aventurar no estudo etnográfico. Gostei muito daquele texto constituído por notas sobre a Briga de Galos Balinesa, que tratava da descrição de um jogo, considerado absorvente pelo autor. A partir da leitura daquele capítulo, eu fui me animando para revisar a redação do meu projeto de investigação e seguir para o campo de pesquisa empírica, já direcionando meu olhar a fim de visualizar aspectos da cultura do grupo pesquisado.

Hoje, entendo que a leitura daquele texto, as conversas com minha orientadora e outros referenciais que fui acessando, inclusive ao cursar uma disciplina na Faculdade de Educação da UFMG, que abordou a pesquisa etnográfica e foi oferecida pela Professora Ana Gomes, foram me preparando para a investigação na qual mergulhei. Primeiro, fui entendendo o estranhamento da comunidade diante da

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Kátia Medeiros é professora do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Suas pesquisas estão relacionadas ao campo da Antropologia, com abordagens etnográficas.

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novidade da minha chegada ao povoado para fazer pesquisa como uma moradora provisória; ao mesmo tempo, fui me sensibilizando para acessar os informantes, para estabelecer vínculos com eles conquistando sua confiança, enfim, para engajar-me no acompanhamento do seu cotidiano, buscando captar, em seus diálogos, as práticas discursivas de numeramento que eu objetivava acessar.

Deparei-me com um artigo de que gostei bastante, elaborado por Judith Green49 em parceria com colegas de investigação, publicado na Revista da Faculdade de Educação da UFMG. Achei-o interessante porque se reporta à etnografia-em- educacão, de modo que as autoras consideram a etnografia como lógica de investigação pertinente para pesquisas educacionais que visam estudar práticas culturais. Dessa leitura, guardo aspectos bem importantes que foram destacados por elas, em virtude das implicações para um estudo etnográfico: considerar o caráter processual da pesquisa, entendendo que questões são geradas e identificadas através do tempo e dos eventos; verificar que o tempo, as observações e a participação do pesquisador vão configurando eventos relevantes para o estudo e que a posição do etnógrafo, ao interagir com o contexto, precisa ser a de um aprendiz que estuda com as pessoas, o grupo local.

Eu já procurava ir assimilando esses ‘conselhos’ enquanto lia, visto que já estava me preparando para dirigir-me ao campo de pesquisa. E, na revisão do meu projeto de tese para submetê-lo ao exame de qualificação, assumi esse campo como norteador da investigação, em particular, ao adotar a perspectiva etnográfica referenciada nas abordagens de Brian Street50. Essa opção pareceu-me importante porque, para Street, a etnografia é assumida como postura, no sentido da observação participativa pautada em práticas de diálogo etnográfico como dispositivo. Interessou- me, igualmente, porque isso reforçava e dava respaldo à minha opção de considerar a convivência com os sujeitos como indispensável para que se constituíssem sentidos sobre os discursos nas situações pesquisadas. Pensei que assim me aproximaria mais daqueles significados, que os próprios participantes da pesquisa dariam às práticas que eu buscara observar.

Serviram-me também, na condução do estudo, as ideias de outro texto de

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(GREEN, 2005)

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Brian Street51 em virtude de serem apresentadas especificamente para o trabalho com sujeitos da Educação de Adultos reconhecidos como sujeitos de conhecimentos, que se constituem a partir de suas experiências de vida, das elaborações nada simples que tecem sobre elas e no confronto de visões de mundo, interesses, posições discursivas e inserção nas relações de poder.

Tu tens trabalhado com esse autor, Kátia? Tive acesso à descrição de um trabalho onde a perspectiva etnográfica, proposta por Street, é exemplificada. Trata-se de um estudo desenvolvido por um grupo de pesquisadores formados no Reino Unido em parceria com grupos engajados na Educação de Adultos no Sul da Ásia, em particular, os integrantes de uma organização feminista denominada NIRANTAR, que eram responsáveis por um trabalho com mulheres residentes na zona rural do Sul da Índia.

O percurso proposto por Street naquele estudo serviu-me de inspiração não só por se referir a um público em muitos aspectos semelhante aos participantes da nossa investigação – Jovens e Adultos trabalhadores, residentes na zona rural e com pouca escolaridade –, mas também por buscar investigar seus conhecimentos e constatar os saberes dominados pelos sujeitos nas experiências coletivas de vida.

Portanto, no meu trabalho, assim como no trabalho descrito por Street, a etnografia foi entendida como modo de estudar as crenças nativas relativas às experiências de numeramento. Os Jovens e Adultos mobilizam, no seu contexto especifico de fazeres, observando o que dizem sobre si e suas vidas. Entendes?

Nesse sentido, considerei algumas ideias-chave do campo da etnografia, propostas por Street, três das quais busquei também adotar, de modo especial, no decorrer da pesquisa que realizei: (1) comutação entre modos, linguagens, culturas e práticas – por entender que o pesquisador-etnográfico deve ser capaz de transitar entre os modos e a ordem, preestabelecida para seu projeto investigativo inicial, de voltar e ir adiante ao desenvolver papéis, ora de um observador, ora de um participante; (2) flexibilidade – considerando que o pesquisador- etnográfico precisa estar ciente de sua efetiva situação como um pesquisador-observador para caminhar e reconhecer as

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necessidades de mudanças, definidas no envolvimento com a comunidade investigativa; (3) tempo para Etnografia – entendendo que o período de convívio com o grupo pesquisado não precisa ser necessariamente longo, mas deve-se considerar o que será indispensável para a realização do estudo, o que independe de uma cronometria pré- definida.

Atenta aos alertas de Street, na abordagem etnográfica que pretendo imprimir a meu estudo, busquei flagrar as relações com conhecimentos matemáticos nas vidas daqueles trabalhadores-estudantes, procurando intuir os porquês das suas tomadas de decisões. Nossa intenção, portanto, ia além de perceber as habilidades técnicas dos sujeitos: queríamos acessar o seu saber social, no qual incluímos as práticas de numeramento em que se envolvem.

As abordagens de Street, amiga, também me pareceram colaborativas, em virtude da direção pontuada no trabalho com sujeitos da Educação de Adultos, reconhecidos como detentores de um conjunto de conhecimentos locais, baseados em suas experiências de vida; no caso deste estudo, experiências forjadas na atividade laboral na indústria de confecção e na vida de comunidade, que, de alguma forma, mantêm referências na vida campesina. Considerei pertinente, para orientar a atitude interpretativa assumida na investigação, optar por adotar a perspectiva etnográfica referenciada nas abordagens de Brian Street, que me orientaram tanto na produção quanto na análise do material empírico.

Assim, essa perspectiva inspirou a maneira como foram feitos os registros no diário etnográfico, após a realização de cada encontro, e organizadas as informações reunidas para a elaboração de um texto etnográfico. Street52 argumenta que diferentes contextos de diversas culturas proporcionam diferentes letramentos e, no caso do meu estudo, defendo que também acontecem diferentes numeramentos, em virtude das diversas condições das relações culturais, em que as práticas de letramento e numeramento, forjadas no uso cotidiano sociocultural da matemática, se constituem. Essas práticas envolvem representações contidas nos enunciados emitidos pelos participantes, quando falavam sobre matemática, tanto quanto atitudes e atividades que operam com conhecimentos matemáticos.

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A concepção etnográfica, apresentada por Street, pareceu-me também aproximar-se, em vários aspectos, da abordagem etnográfica proposta por Elsie Rockwell53, ao fazer alusão à etnografia não somente como orientadora da forma de atuar no trabalho de campo, mas também para o tratamento do produto final da atividade investigativa. Rockwell adota a etnografia como alternativa investigativa no campo da educação. Considerando a pesquisa etnográfica, para além de uma ferramenta no gerar dados na investigação, essa autora admite que não se trata de um método, mas de um enfoque que possibilita o encontro teórico-metodológico. Penso que essa ideia é pertinente em relação ao meu trabalho!

Sabes, porque estamos sempre conversando, que meu ingresso na comunidade pesquisada se deu no mês de setembro de 2010 – mês em que se inicia o aquecimento do processo produtivo nas facções de roupas jeans da região do Juá e de sítios vizinhos, com inserção de serões para atender à demanda que se intensifica. Retornei da comunidade no final do mês de maio de 2011, quando já me deparava com as portas de algumas das facções fechadas desde o início da Semana Santa – época em que as pessoas da comunidade, respeitando o calendário litúrgico, afastam-se do trabalho. No mês seguinte, maio, só algumas facções retornaram à atividade, porém com uma produção muito tímida, por ser um mês em que se espera comercializar a produção estocada e preparar-se para, no mês de junho, aprontar novos modelos para o período das festas juninas, bem-cultuadas no calendário do município de Caruaru.

Mesmo durante minha permanência na comunidade, fui me deparando com mais leituras do campo da etnografia que, de certo modo, reforçavam o que já encontrara em outros textos e, assim, tornavam-se para mim mais robustos os argumentos em que me baseava para tomar decisões quanto aos procedimentos e para vislumbrar possibilidades de análise.

Por exemplo, Mattos54refere-se à etnografia como um processo guiado preponderantemente pelo senso questionador do etnógrafo, de modo que a utilização de técnicas e procedimentos etnográficos não precisa necessariamente seguir padrões rígidos ou predeterminados. Eu previa que, na interação com o campo, poderiam ser redefinidos percursos, tendo lido Street e Rockwell, dentre outros. E foram!

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(ROCKWELL, 2009)

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Eu imaginava que, residindo no povoado escolhido como campo de investigação, teria acesso fácil à escola e ao trabalho dos participantes da pesquisa. E, para minha surpresa somente a escola estava próxima de minha residência, pois, no noite a noite, frequentar a sala de aula realmente foi favorecido por essa proximidade. No entanto, no dia a dia, a frequência aos espaços laborais daqueles estudantes exigiu muito mais disposição, não só porque eles moravam e trabalhavam em lugares diversos, e, muitas vezes distantes e de difícil acesso, mas também porque, a princípio, resistiram às minhas visitas ao local de trabalho e até mesmo se negaram a admitir que trabalhassem naquele ramo de atividade laboral.

Kátia, sabes que sou uma agrestina, portanto minha lente de observação foi também calibrada pelo olhar de pesquisadora com marcas de alguém que esteve parte da vida residindo no agreste pernambucano. Embora distante do espaço de investigação atual do ponto de vista geográfico e também temporal (porque há mais de vinte anos moro na capital do estado) vivenciei alguns limites que se impõem a quem reside nesse contexto, tais como a dificuldade de acesso a outros espaços, inclusive o escolar. Quando criança, morando no Agreste, eu caminhava mais de uma hora diariamente, porque não havia transporte do sítio para a escola. Entretanto, não cheguei a viver ali a dinâmica do trabalho remunerado, uma vez que saí de lá para estudar e foi só no Recife que minha vida profissional se iniciou. Desse modo, se eu me identificava com algumas vivências daquelas pessoas do Juá, outras tantas me causavam estranheza e exigiam um deslocamento de minha atenção e sensibilidade investigativas.

Aprendendo mais a assumir uma atitude etnográfica, recorri também às orientações de Smyth55, pontuadas na identificação das ações que cabem ao etnógrafo desenvolver: descrever – o que está acontecendo?; informar – como eles entendem a descrição?; enfrentar – o que faz pensar que esse acontecimento é importante nessa situação?; reconstruir – como recorrer à reconstrução do acontecimento? Dito em outras palavras, buscamos questionar o que o sujeito fazia num dado momento (a descrição); como o fez (o informar); qual a sua importância (o enfrentar) e, diante dos seus discursos cuja compreensão muitas vezes nos escapava, buscar significados, elaborar hipóteses, tecer argumentos (o reconstruir).

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Foram essas disposições e condições de investigação que conformaram o trabalho de campo por meio do qual foi produzido o material empírico, onde pretendo flagrar e analisar, nas práticas de numeramento que busquei identificar, a constituição de jovens e adultos, como estudantes da EJA, trabalhadores e trabalhadoras das facções, residentes das regiões campesinas do Agreste Pernambucano, sujeitos de conhecimentos, de aprendizagens, de culturas, de direitos.

Aqui do Juá, agradeço a ti que escutas minhas falas e me fazes também rir dos acontecimentos, e, desse modo, descansar um pouco dos desafios e da dinâmica que constituem a pesquisa. Sei que posso contar com teu apoio! Muito obrigada!

Até o dia em que houver oportunidade de nos encontrarmos pessoalmente e “brincar” aí em Recife!

Beijo, Val

In document Valghåndboken (sider 17-26)