3. Kapitel – Metode og analyse
3.2. Informationsindsamling
3.2.3. Valg af informanter
Sabemos que nunca ocorreu a implantação de aldeamentos no sítio geográfico que compreende o atual município de Osasco, entretanto, não há como confirmar ou rechaçar a presença de aldeias. Segundo as orientações de Azevedo (1959, p.26)32 apud Petrone (1995, p.105), o termo aldeamento sugere uma criação intencional de aglomerados, ao passo que as aldeias guardam a perspectiva de uma origem espontânea.
Brito (2009, p.43) afirma em sua tese de doutoramento que “no século XVI, Osasco e regiões próximas eram habitadas pelos indígenas do grupo lingüístico tupi-guarani”. Essa idéia de ocupação, entretanto, encontra-se relativizada em sua dissertação de mestrado, onde aparece o termo ‘circulação’ ao invés de ‘habitação’: “os habitantes que circulavam por estas áreas, onde hoje encontra-se Osasco e outros municípios, eram índios do grupo lingüístico- cultural guarani” (BRITO, 1996, p.63).
As inúmeras toponímias locais (ex: Quitaúna, Piratininga, Bussocaba, etc.) reforçam a perspectiva de uma presença indígena na região, mas também não permitem quaisquer conclusões sobre uma ocupação permanente, intermitente ou apenas uma situação de trânsito dos grupos indígenas através deste espaço.
Sabemos que, no século XVII, houve um enorme desconforto gerado pela proximidade dos aldeamentos jesuítas de Barueri33 e Carapicuíba34, com as terras pertencentes ao bandeirante Antônio Raposo Tavares, situadas na porção sudoeste de Osasco, então conhecida como Vila Quitaúna. O trecho abaixo demonstra o impacto dessa proximidade espacial entre grupos com propósitos diferenciados:
Finalmente o ataque aos aldeamentos vizinhos a Quitaúna ocorreu com o aval da Câmara Paulista e sob o comando de Raposo Tavares, em julho do ano de 1633. Gozando de uma influência razoável sobre os administradores lusos, a Companhia de Jesus conseguiu reverter o processo e a posse dos
32 AZEVEDO, Aroldo. Aldeias e aldeamentos de índios. Boletim Paulista de Geografia, n.33, São Paulo,
out.1959.
33 Data de fundação: 11 de novembro de 1560. 34 Data de fundação: 12 de outubro de 1580.
aldeamentos foi garantida aos jesuítas. (COELHO, MORETI e MESSIAS, 2004, p.21)
Isso nos permite concluir que mesmo os grupos jesuítas enfrentaram dificuldades para assegurar a integridade de suas atividades na região, sobrevivendo à investida dos bandeirantes em seus aldeamentos. Neste contexto, a região de Osasco certamente constituía um ambiente hostil à manutenção de aldeias desde o século XVII, pois quaisquer grupos espontaneamente reunidos estariam continuamente expostos ao assédio dos grupos jesuítas, motivados pelos propósitos de assimilação cultural, e dos grupos bandeirantes, comprometidos com as atividades de aprisionamento.
Os laços entre as tradições indígenas e a vida rural sempre foram muito estreitos em todo o estado de São Paulo, havendo uma vinculação genética entre a cultura indígena e a cultura caipira. Darcy Ribeiro dedica um capítulo do seu livro, “O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, a esse tema, apresentando a livre miscigenação entre portugueses e indígenas como elemento central na constituição da cultura caipira.
De acordo com Petrone (1995, p.103), o termo ‘aldeia’ nem sempre esteve associado à etnia indígena: ele era utilizado pelo colono português para “indicar uma forma particular de habitat rural concentrado; corresponde ao villaggio italiano, village francês, dorf alemão” e sua transposição de significado para a taba indígena ocorreu em terras brasileiras.
A aldeia indígena é [...] dentro da psicologia do colono, a não-cidade, não apenas porque é expressão de vida rural, mas sobretudo porque está longe de fornecer condições de prestígio que só a cidade, mesmo que modestíssimo embrião de aglomerado urbano, pode oferecer. (PETRONE, 1995, p.104)
A cultura caipira abriga, portanto, elementos de ambas as matrizes culturais. No regime de trabalho indígena, por exemplo, as tarefas domésticas e o plantio correspondem às atividades femininas, ao passo que o roçado, a caça e a guerra correspondem às responsabilidades masculinas. Estas atividades exigem vigorosos esforços, mas não são regulares, por este motivo, os homens mantém-se em descanso no intervalo entre um evento e
outro, assegurando sua reserva de energia para quando for solicitada. O modo de vida caipira guarda algumas semelhanças com esse cotidiano: longos períodos de descanso e lazer também são apreciados, pois as atividades de intensa atuação (como o plantio e a colheita) são igualmente esporádicas (RIBEIRO, 2006, p.329-368). Estes hábitos deram aos antigos paulistas a equivocada reputação de gente preguiçosa, perspectiva acentuada pela apreciação do ócio preconizada pela matriz portuguesa. De acordo com Holanda (1995, p.38):
Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia destes povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no culto ao trabalho [...] Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. [...] E assim, enquanto povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da Antiguidade clássica. O que entre elas predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais do que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.
Se por um lado não podemos comprovar a ocupação do território osasquense por grupos indígenas, por outro lado, podemos refletir sobre a presença da cultura caipira. A porção externa do cinturão das chácaras paulistanas, descrita no capítulo anterior, manteve-se circundada por outra faixa concêntrica de terras, então habitada por uma população culturalmente caipira.
De acordo com Petrone (1995, p.13-16), as formas atuais de organização do espaço não podem ser dissociadas de suas configurações pretéritas. Neste sentido, sua obra retrata a vinculação genética entre os extintos aldeamentos indígenas e estes povoados do cinturão caipira. Quase todos os aldeamentos paulistas que integraram este contexto estão localizados no Planalto Paulistano35, sendo: Barueri, Carapicuíba, Embú, Guarulhos, Itapecerica, Pinheiros e São Miguel. A figura 03 apresenta essa distribuição espacial, assim como também localiza os principais núcleos caipiras.
35“[...] quanto à distribuição, convém insistir no fato de que a esmagadora maioria surgiu Serra-Acima, dado
que, conforme se viu, na marinha localizou-se tão só o de Peruíbe. [...] Os aldeamentos de Escada, Itaquaquecetuba e São José constituem, sob esse aspecto, um outro grupo, ficando isolado o de Queluz.” (PETRONE, 1995, p.126)
Figura 03: Localização dos aldeamentos e principais núcleos caipiras
Fonte: PETRONE (1995, p.377)
Neste cenário, o processo de difusão cultural mostrava-se perfeitamente exeqüível diante das facilidades de comunicação e trocas oportunizadas pela proximidade espacial que o território osasquense possuía com os aldeamentos vizinhos. Os relatos da senhora Catharina Andrade Benaglia (entrevista 02) reforçam esta hipótese ao descrever o costumeiro deslocamento do pai para dois antigos aldeamentos: Carapicuíba e Itapecerica.
O meu pai trabalhava de carro de boi, ele ia buscar lenha em Itapecerica da Serra para levar no mercado municipal da cidade, eu não sei o que eles faziam com a lenha, [mas] eles compravam. [...] Ele levava lenha de Itapecerica da Serra para o mercado municipal da cidade, que ficava na Rua da Cantareira com a [Rua] 25 de Março.
O segundo excerto é ainda mais representativo, pois relata a inauguração das capelas em Osasco com a Festa da Santa Cruz, uma manifestação tradicional caipira, considerada típica na Aldeia de Carapicuíba.
Na rua [em] que eu nasci tem aquela capelinha de Santo Expedito, foi o meu pai quem inaugurou. Ele tocava viola desde criança, então ele inaugurou com uma festa de Santa Cruz, no dia 03 de maio de 1941, para juntar fundos para fazer a capelinha que estava só no começo. Depois fizeram a capela de São José, que tem no morro, e fizeram a capelinha da Santa Cruz, no fim da rua que sai do viaduto, tem a capelinha até hoje lá, ali também foi meu pai que inaugurou com dança de Santa Cruz. [...] Quando o meu pai era vivo com a minha mãe, eles cantavam, tantos violeiros vinham aqui, aqueles que cantavam na rádio. [...] [Ele cantava] moda de viola, cantava música para dançar também, a mulherada dançava “prá chuchu”. Ele tocava viola desde os 08 anos, ele ganhou oito violas de presente, a primeira quem deu foi o avô dele. A gente [também] ia na aldeia [de Carapicuíba], o meu pai era festeiro da aldeia, eu ia quando eu era ‘pequeninha’. (entrevista 02 - Catharina Andrade Benaglia)
De acordo com Fusco Neto36, fundador da Associação Brasileira dos Artistas Sertanejos, eles constituíram a primeira dupla sertaneja de Osasco, município que recebeu recentemente o título de capital da viola. A importância dessa difusão cultural pode ser melhor dimensionada ao localizarmos no livro escrito pelo primeiro prefeito local, Hirant Sanazar, uma referência à importância deste casal na vida cultural da cidade:
Em parte do cenário de então a figura lendária de ‘Mimi’, o carreiro do italiano, que transportava com suas parelhas de bois os toros dessa rotundas árvores, fazendo o longo e interminável percurso de Osasco até Taboão da Serra, enfrentando dificuldades incríveis. ‘Mimi e Nha Tonica’, essa linda união de amor, foram denominados pela Casa dos Violeiros do Brasil, ‘o pai da viola’ e a ‘cantadora fiel’, cujas cantorias do folclore brasileiro atravessavam as madrugadas. (SANAZAR, s/d, p.17)
A intensa migração de pessoas vindas do interior paulista, na década de 1940, reforçaria ainda mais este processo de difusão cultural. As tabelas 02 e 03 nos permitem visualizar a distribuição da população local a partir de sua naturalidade:
Tabela 02 – Naturalidade de população osasquense (2010)
Naturalidade Habitantes %
Naturais do município 374238 56,13
Naturais de São Paulo 135272 20,29
Não naturais de São Paulo 157230 23,58
Total 666740 100,00
Fonte: IBGE (2010)
Tabela 03 – Naturalidade de população osasquense por região (2010) Naturalidade Total % Centro-Oeste 2.720 0,41 Nordeste 106.714 16,01 Sul 14582 2,19 Sudeste 532.172 79,82 Norte 1.160 0,17
Brasil (sem especificação) 6.625 0,99
País estrangeiro 2.767 0,42
Fonte: IBGE (2010)
Todas as observações aqui expostas revelam um cenário de grande complexidade. A ausência da região de Osasco na obra de Petrone (1995), sobre o cinturão caipira, limitou drasticamente a interpretação da sua identidade cultural por este prisma de observação, mas isso não nos permite ignorar completamente sua influência, já que a difusão cultural esteve presente nos processos regionais.