3. Kapitel – Metode og analyse
3.2. Informationsindsamling
3.2.2. Kvalitativt forskningsinterview
O Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, promulgado em 1808, favoreceu a ampliação da presença estrangeira no território nacional (GASPAR, 2009). Em função disso, muitos viajantes percorreram os arredores da cidade de São Paulo durante todo o século XIX, deixando valiosos registros sobre o seu cotidiano.
Os relatos de viagem produzidos por Aires de Casal27, Saint-Hillaire28 e Zaluar29, por exemplo, descreviam uma acentuada presença de chácaras no entorno da cidade (LANGENBUCH, 1968, p.N3). Em função do arranjo espacial concêntrico dessas propriedades, tal faixa de terra ficou conhecida como “cinturão das chácaras”. O material cartográfico (mapa 01), produzido por Matos (1958, p.74-75), registra sua distribuição entre os anos de 1769 e 1900. Sobre isso Langenbuch (1968, p.N5-N6) afirma:
Analisando-se a localização destas propriedades, constata-se que esquematicamente formam um bloco relativamente compacto que circunda a cidade, estendendo-se até os atuais bairros da: Ponte Grande, Pari, Brás, Moóca, Cambuci, Vila Mariana, Jardim Paulista, Vila América, Santa Cecília, Barra Funda e Bom Retiro. (LANGENBUCH, 1968, p.N5-N6)
Dentre os elementos que servem à sua caracterização, temos “o caráter residencial das chácaras, sua beleza paisagística e a relativa importância das árvores frutíferas” (LANGENBUCH, 1968, p.N3). O predomínio da função residencial foi revelado pelas ocupações profissionais essencialmente urbanas dos seus proprietários, identificados em diversas obras (LANGENBUCH, 1968, p.N3). A presença dos pomares também anunciava uma finalidade de abastecimento das chácaras, embora sua exploração comercial não fosse completamente ignorada (LANGENBUCH, 1968, p.N4).
27 AIRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasilíca. , v. 1, p.164
28 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Província de São Paulo. p.202 29 ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo. p.123
Mapa 01: Chácaras, sítios e fazendas ao redor do centro (século XIX)
Fonte: MATOS, Odilon Nogueira de. São Paulo no século XIX. In: AZEVEDO, Aroldo de. A cidade de São Paulo: estudos de Geografia Urbana, v. 2. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958.
Sabe-se que numerosas experiências agrícolas foram promovidas na região de Osasco, mas a baixa fertilidade dos solos locais impediu que elas alcançassem elevada expressão econômica, já que não toleravam, por exemplo, os investimentos necessários para a produção de café ou cana-de-açúcar (OSASCO, 2013). De outra forma, os registros históricos indicam uma presença acentuada de árvores frutíferas na região. Na Vila Osasco, por exemplo, que foi o núcleo original de povoamento, verificava-se o cultivo de:
[...] frutas de todas as espécies com cerca de 30 mil pés, entre elas: peras, maçãs, ameixas, laranjas, cidras, limões, bananas, jabuticabas, etc. Havia abundantes plantações de aspargos que eram vendidos no mercado de São Paulo, arrozais e uma cultura de amoreiras com cerca de 20 mil pés. (OLIVEIRA & NEGRELLI, 1992, p.19)
Cumpre mencionar que a lembrança destes pomares surgiu espontaneamente no depoimento de vários participantes. Isso revelou não apenas sua expressividade naquele cenário, como também a sua persistência na paisagem local, integrando memórias referentes às décadas de 1920, 1960 e 1970.
Vamos analisar mais de perto estes depoimentos:
Eu ia sempre com ele [o pai] carregar lenha, naquela estrada que sai do viaduto, de Osasco até a Baronesa, eu pegava ameixa com as mãos, a coisa mais linda do mundo, lá devia chamar Rua das Ameixeiras porque eram ameixas dessas amarelinhas de lado a lado, eu ia com meu pai na carroça pegando aquelas ameixas. (entrevista 02 - Catharina Andrade Benaglia)
De acordo com a senhora Catharina Andrade Benaglia, essas lembranças correspondem ao cotidiano de 1929. O percurso descrito refere-se ao Sítio da Baronesa (cerca de 50 alqueires). Essas terras foram utilizadas pela baronesa Francisca de Paula Souza como casa de veraneio após a morte do seu esposo, o Barão de Limeira (Vicente de Souza Queiroz30), em 1872, e posteriormente vendidas por seus herdeiros a um grupo de italianos (OSASCO, 2013).
30Cumpre lembrar que estes são os pais de Luiz Vicente de Souza Queiroz, patrono da escola de agricultura
E tinha o Ponte Preta que era um campo de futebol, tinha o campinho e o restante era o peral, meus irmãos iam jogar lá e pegavam pêras para vender para o pessoal da rua. (entrevista 03 - Ione Augusto Viriato)
De acordo com a senhora Ione Augusto Viriato, essas lembranças correspondem ao cotidiano da sua infância, na década de 1960. O local descrito refere-se ao entorno do Museu Dimitri Sensaud de Lavaud, cujas instalações ocupam a antiga casa de veraneio de Giovanni Brícola, um banqueiro que adquiriu aquelas terras como forma de investimento, na última década do século XIX (OSASCO, 2013).
Podemos observar que em ambos os relatos, as árvores frutíferas estão localizadas em áreas que abrigavam propriedades com função residencial (embora secundárias), que pertenciam a famílias abastadas, reproduzindo cenário semelhante ao cinturão das chácaras.
Na época tinha [muita chácara], eu fui morar lá em 1973. Que eu lembro tinha mais fruta: tinha pé de jaca, tinha pé de manga, tinha pé de abacate, [tinha pé de] laranja, [mas] só dava... assim, plantaram e abandonaram, ninguém cuidava. (entrevista 12 - Maria Agostine Fernandes)
Este relato descreve o bairro do Novo Osasco, que abrigava no passado parte do sítio Bussocaba e do sítio de Ernesto Kramer (OSASCO, 2013). De acordo com Oliveira e Negrelli (1992, p.29), eram famosas as frutas estrangeiras cultivadas por Emílio Kramer, então premiadas nas exposições. Não conseguimos identificar se a divergência dos nomes representa um equívoco nas citações ou elas se referem a dois membros de uma mesma família. De qualquer forma, estas informações nos permitem observar que, as frutas presentes nas recordações da senhora Maria Agostine Fernandes, já não correspondem às espécies européias comumente associadas às chácaras do cinturão.
Embora as funções residenciais tenham predominado frente às funções agrícolas e embora os pomares também tenham assumido relativa importância na paisagem local, a espacialização, promovida por Matos (1958, p.74-75), não integrou Osasco ao cinturão das
chácaras. Buscaremos destacar a seguir algumas particularidades da região que possivelmente justificam sua desvinculação deste cenário:
a) Nomenclatura das Propriedades
Langenbuch (1968, p.N6) identifica uma possível alteração na função das propriedades localizadas na porção externa ao cinturão das chácaras, sobretudo nos quadrantes oeste, norte e nordeste. Essa constatação se apoiou na variação da nomenclatura aplicada às propriedades, reduzindo-se a presença de chácaras (termo que revela uma finalidade residencial) e acentuando-se a presença de sítios e fazendas (termos que revelam uma finalidade econômica associada às atividades agropecuárias).
Essa afirmação nos reportou a lembrança da composição gráfica (figura 01), disponibilizada pela Câmara Municipal de Osasco, referente à organização espacial do atual município no ano de 1900. Notamos que as propriedades intituladas como sítios e fazendas predominavam nesta região, o que demonstra correspondência com as informações supracitadas.
Sabemos que as atividades agropecuárias, entretanto, exerceram uma participação pouco expressiva na região de Osasco, de forma que inúmeras propriedades funcionavam efetivamente como casas secundárias, assumindo funções de veraneio, conforme observamos no capítulo anterior.
Sobre essa frágil correspondência entre o título da propriedade e sua função predominante, Langenbuch (1968, p.N6), ainda pondera: “é obvio que não há uma exata correspondência entre o termo ‘chácara’ e sua importante função residencial, nem entre os do sítio e fazenda e a função predominantemente agropecuária. As próprias designações dos estabelecimentos parecem em alguns casos não serem muito precisas”.
b) Residências Secundárias
Dentre os elementos que atendiam à caracterização das propriedades no cinturão das chácaras temos o seu caráter residencial. O levantamento histórico, entretanto, aponta para um predomínio de propriedades com regime de ocupação temporária na região de Osasco, já que se tratavam essencialmente de residências secundárias. Ainda assim, os contextos de ocupação eram muito heterogêneos. Se tomarmos o Sítio da Baronesa e o Sítio da Campesina como exemplos, podemos reconhecer vinculações funcionais muito distintas: a primeira propriedade servia aos propósitos recreativos, conforme vimos anteriormente, enquanto a segunda desempenhava, de fato, uma função residencial, ainda que sazonal. Os proprietários do Sítio Campesina residiam na cidade de Faxina (atual Itapeva/SP), onde dedicavam-se à criação de gado. No período de corte (geralmente no mês de março), o gado era transportado para os frigoríficos localizados na região de Osasco e a família se mudava para o sítio, então utilizado como residência secundária (OSASCO, 2013).
c) Dinâmica Temporal
É importante atentarmos também para a variação temporal na dinâmica de transformação do espaço que resultou no loteamento dessas propriedades. De acordo com Langenbuch (1968, p.E6), o maior impulso evolutivo da cidade de São Paulo ocorreu na última década do século XIX. Este autor ainda afirma: “[...] constatamos que pouco falta para que o ‘cinturão das chácaras’ seja inteiramente absorvido pela cidade”. A região da Santa Ifigênia31, por exemplo, assistiu ao fim das antigas chácaras a partir de 1872 (BASTOS e SALLES, 2008, p.05), um processo que se iniciaria em Osasco em meados século XX. Essa diferença temporal na dinâmica de transformação do espaço reforça a exclusão dessa região em relação ao cinturão de chácaras.
31 Langenbuch (1968, p.N87) menciona que no estudo de José Jacintho Ribeiro, denominado “Cronologia
Paulista” (1899, p.383), o atual município de Osasco aparece, em 1852, como integrante da freguesia paulistana de Santa Ifigênia e de acordo com Osasco (2013) integraria, em 1895, o Distrito Paulistano da Consolação.