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4. Kapitel – Resultat, kreative aspekter

4.4. Omgivelser

As observações lançadas adiante são apenas exercícios de interpretação iconográfica. Evidentemente, não esgotamos as possibilidades de análise, mas incluímos tais apontamentos nesta pesquisa como forma de sugerir e incentivar futuras abordagens assim fundamentadas.

Sabemos que a paisagem encerra elementos pertencentes a tempos históricos diversos, de forma que eles se encontram, muitas vezes, “justapostos, superpostos e imbricados” (BASTIÉ, 1973, p.49). A foto 14, por exemplo, nos permite compreender esta afirmação, já que sintetiza a presença concomitante de elementos industriais e rurais, sempre tão integrados no cotidiano osasquense. Sabemos que as iniciativas industriais foram mais pronunciadas, mas isso não é negligenciado pela imagem, já que o pastoreio aqui registrado estava funcionalmente vinculado à agroindústria, correspondendo aos campos de invernada do frigorífico.

Foto 14. Instalações da Cerâmica Industrial (1915)

O registro fotográfico enfrenta o desafio de perpetuar o tempo (Leite, 2002, p.15), mas isso não significa que ele possa fazê-lo de forma objetiva, pois a imagem capturada será sempre o produto de uma seleção feita pelo fotógrafo (Burke apud Leite, 2002, p.17). Neste sentido, todo registro fotográfico implica numa atitude de recorte, interpretação e intenção do sujeito que obteve a imagem, mas certamente não invalida seu caráter documental.

Leite (2002) realizou um estudo iconográfico com as cartés de visite60 produzidas por Militão Augusto de Azevedo no século XIX. De acordo com o autor, a indumentária utilizada pelos clientes possuía um importante significado de representação social, pois revelava como estas pessoas gostariam de ser vistas.

A foto 15 nos permite algumas reflexões a este respeito: observamos um grupo de pessoas diante de uma jardineira, transporte coletivo comum nas zonas rurais por mostrar-se mais resistente às estradas de terra. Podemos concluir que ela conduzia um público restrito, já que as longas caminhadas ou cavalgadas predominavam no deslocamento da população. Ainda assim, a fotografia nos apresenta (ao centro) um homem trajado com típicos trajes urbanos, mas vestindo uma perneira, indumentária que, segundo o senhor Magno Santo Togniolo (informação verbal61), protege contra a picada de cobras, um problema dissonante do espaço urbano, estilo de vida inicialmente anunciado pela vestimenta.

60 Carté de visite consistia num retrato, geralmente de pose individual, que podia ser reproduzido em maior

escala, o que a tornou o produto mais popular oferecido pelos ateliês no século XIX. [LEITE, 2002, p.36-38]

Foto 15: Transporte de jardineira do início do século XX - acervo pessoal Walter Ramos

Fonte: Coelho, Moreti e Messias (2004)

Dentre as cartés de visite analisadas por Leite (2002, p.138), uma delas nos chamou atenção, porque discutia a representatividade do calçado: “é notório que, do ponto de vista da composição da cena, Militão deu atenção especial aos pés do retratado, pés que, ao estarem descalços, assumem, como sabemos, a simbologia do trabalho físico, braçal”. Esta proposição nos induziu a refletir sobre a aquisição do calçado como um elemento cultural cujo valor social (status) sobrepunha o valor funcional (proteção dos pés). Sabemos que sua aquisição representava uma importante conquista material, sendo o seu uso reservado para situações especiais:

Nós íamos a pé, nós éramos pobres, meu pai não podia bancar, tinha pouco... nós andávamos até chegar na igreja, então nós iamos com o sapato velho no pé, depois escondíamos o sapato velho no mato e púnhamos o sapato novo para ir na igreja... (Ermelinda Ongaro Paes, informação verbal62)

A minha mãe era uma mulher muito simples, muito pobre. [Ela] falou assim: “a mulher não deu um sapato para você?”, eu disse [que] não, meus dedos dos pés eram todos abertos de tanto [eu] andar descalça, [então ela] comprou um sapato para mim, eu tinha 12 anos [quando] eu calcei o [meu] primeiro sapato. (entrevista 13 - Maria Aparecida de Freitas)

Como podemos observar nas fotos 16 e 17, o calçado aparece como um elemento de diferenciação entre os grupos escolares retratados. Não foi possível identificar a localização dos mesmos, mas reconhecemos seu registro em épocas distintas. Se, por um lado, não podemos considerar a ausência ou presença dos calçados como indicador cultural de um cotidiano urbano e rural, por outro lado, podemos reconhecê-lo como elemento que expressa maior acessibilidade econômica da população entre o início do século e a década de 1930. Essa representatividade é reafirmada quando localizamos no relatório da inspeção sanitária realizada em 1939, apontamentos do autor no que diz respeito a este aspecto, sendo destacado: “todos usam aventais brancos, embora algumas crianças freqüentem a escola descalças, por não possuírem sapatos” (OLIVEIRA & NEGRELLI, 1992, p.57).

Faz-se necessário ponderar, entretanto, que os bairros centrais foram os primeiros a serem beneficiados com infra-estrutura urbana, inclusive, com farmácias e escolas. Desta forma, se a foto 17 nos inspira a ideia de algum desenvolvimento local já na década de 1930, isso certamente não se reproduzia em todo o território osasquense, já que a expansão urbana esteve intimamente associada à implantação de plantas industriais e à ampliação dos fluxos migratórios, ambos intensificados a partir da década de 1940.

Foto 16: Grupo Escolar (1906) - acervo pessoal de Walter Ramos

Fonte: Coelho, Moreti e Messias (2004)

Foto 17: Grupo Escolar (1932) - acervo pessoal de Walter Ramos

Evidentemente a passagem do tempo acentuou o caráter urbano no cotidiano local, mas a presença de elementos rurais continua provocando justaposições curiosas que despertam nosso olhar para a identidade da cultura osasquense. A foto 18, por exemplo, retrata o percurso realizado pelos grupos cavaleiros no retorno para as cocheiras após o desfile cívico militar realizado no dia 07 de setembro de 2013.

Foto 18: Retorno dos grupos cavaleiros para as cocheiras após o desfile cívico-militar.

Autoria: Danielle Albino (07/09/13)

A inserção das charretes e dos animais no contexto normativo do trânsito urbano aqui retratada é representativa desta reunião de elementos culturais distintos. De acordo com Silva et.al (2008, p.07), o espaço urbano tem essa “potencialidade de reunir dimensões, tanto materiais quanto imateriais, de ontem e de hoje, que concordam e discordam entre si”.

IV. SEGUNDA FASE: INTENSIFICAÇÃO DOS FLUXOS MIGRATÓRIOS