5. Kapitel – Resultat, identitetsmæssige aspekter
5.3. Aktiviteten som et socialt projekt
Relatamos na primeira parte desta pesquisa a presença no município de Osasco de alguns elementos aparentemente desajustados ao cotidiano de um espaço intensamente urbanizado. Se, por um lado, nem todos podem ser interpretados como sobrevivências de um cotidiano pretérito local, por outro lado, todos revelam uma ampla aceitação dos temas relacionados ao ambiente e à cultura rural entre a população osasquense.
Essa aceitabilidade não é recente, sabe-se que as festas da religiosidade popular que remetem a um passado agrícola, tais como Corpus Christi, Festa do Divino, Festa de Santa Cruz e Folia de Reis sempre encontraram público interessado na região, mesmo quando eram realizadas em outros municípios. Os depoimentos abaixo relatam a participação da população osasquense na Festa de Santa Cruz, realizada em Carapicuíba, e na Festa do Divino, realizada em Santo Amaro, tais relatos correspondem respectivamente às décadas de 1930 e 1960:
A gente [também] ia na aldeia [de Carapicuíba], o meu pai era festeiro da aldeia, eu ia quando eu era pequeninha. (entrevista 03 - Catharina Andrade Benaglia)
Aqui [em Osasco] tinha só negócio do divino que andava por aqui, mas eles tiraram, porque deram uma surra no homem, diziam que o homem estava pegando dinheiro para ele, [mas] não era, tinha mesmo a festa do divino, ele andava com aquela pombinha tirando o dinheiro [aqui], mas a festa era lá em Santo Amaro, porque [era] lá que tinha a Igreja do Divino. [...] Era bonito, [mas, aqui em Osasco] não tinha [a festa do divino], aqui não tinha [nem] mesmo [a Festa da] Santa Cruz, [mas] eu vi uma Santa Cruz aqui na Raposo Tavares, [ela] está sempre enfeitada [com] fita azul [ou] fita vermelha, porque tem gente que tem [costume] de rezar na cruz todos os dias, [não tem a festa], é só a oração. (entrevista 11 - Lourdes Raimundo da Silva)
Isso não significa que manifestações culturais semelhantes não existissem em terras osasquenses, elas apenas guardavam menor expressividade quando comparadas às demais regiões. Conforme mencionamos na terceira seção desta pesquisa, a inauguração das capelinhas osasquenses era realizada com a Festa da Santa Cruz, manifestação cultural difundida a partir do antigo aldeamento em Carapicuíba.
Dentre as festividades juninas, os relatos mencionam a Fogueira de Quitaúna, caracterizada por receber um andar extra a cada ano. De acordo com Oliveira (2009), essa fogueira chegou a ultrapassar dez metros de altura e foi extinta no início dos anos 1990. O senhor Vrejhi Sanazar menciona sua participação neste evento:
Eu [também] participava muito da Fogueira de Quitaúna: quando Osasco era um bairro da capital, existia em frente ao Parque dos Paturis um matadouro de bois da prefeitura de São Paulo que fornecia para o Tendal da Lapa. O Tendal [da Lapa] era o entreposto de carnes, [onde] os açougueiros compravam [para] vender nos seus açougues. E isso eu lembro: matava-se esse boi aqui na divisa com Carapicuíba, ali [também] havia uma cocheira dos burros que puxavam os carroções de lixo da prefeitura de São Paulo. [Então] na época junina ou julina, se fazia uma fogueira enorme com toras de madeira e os cavaleiros promoviam esta festa (entrevista 22 - Vrejhi Sanazar).
Observamos também uma larga disseminação local da música sertaneja, de tal forma que o município é reconhecido atualmente como capital da viola. De acordo com os documentos disponibilizados pela Casa do Violeiro do Brasil, este cognome foi popularizado pelo radialista Pavão do Norte, na década de 1960, quando anunciava os numerosos participantes osasquenses do seu programa na antiga Rádio São Paulo com o slogan “direto da Capital da Viola”. No ano de 2007, o município foi homenageado pela Assembléia Legislativa de São Paulo com o reconhecimento desta tipicidade.
Neste sentido, com o intuito de identificar algumas práticas culturais ainda atuantes no município que expressavam aparente vinculação genética com mundo rural, dedicamos especial atenção para duas atividades marcadas pela presença da viola: as associações sertanejas e as folias de reis. Este enfoque consiste apenas em um recorte de perspectiva, o que não significa que sejam as únicas manifestações atuantes e/ou representativas no território osasquense, onde encontramos também grupos de dança, comitivas de culinária tropeira, entre outras associações.
Desta forma, identificamos no território osasquense, a atuação de quatro grupos: Folia de Reis Belo Sol de Santa Maria (1994), Folia de Reis de Todos os Santos (2010), Casa do
Violeiro do Brasil (1969) e Associação Brasileira dos Artistas Sertanejos (ABAS) (provável fundação em 1971). As observações aqui descritas foram elaboradas no contato com apenas dois deles, a Folia de Reis Belo Sol de Santa Maria e a Casa do Violeiro do Brasil. Curiosamente, a presença da viola não foi o único ponto de convergência e similaridade entre os dois grupos, os quais também revelaram fortes sentimentos de enraizamento cultural.
Se tomarmos em consideração a origem da Casa do Violeiro do Brasil, encontraremos uma disposição muito mais nacionalista do que telúrica. De acordo com Souza (1982, p.54- 55), a idéia de realizar uma missa caipira surgiu da indignação provocada pela celebração de uma missa no Rio de Janeiro, no ano de 1967, marcada por canções e ritmos próprios da jovem guarda em substituição à música sacra.
A iniciativa foi idealizada por Marino Cafundó de Morais que, na época, era regente do Coral Santa Cecília de Osasco, como uma forma de “fazer frente à onda de desnacionalização e invasão da música estrangeira que, naquele ano de 1967, estava no auge, inclusive nas Igrejas, com a nova onda do chamado iê-iê-iê” (CASA DO VIOLEIRO DO BRASIL, 1984, p.01). Os documentos ressaltam ainda a necessidade de buscar as raízes musicais brasileiras e descrevem a música sertaneja como “uma das mais legítimas representantes da nossa gente” (CASA DO VIOLEIRO DO BRASIL, 1979, p.01).
Em visita ao grupo de Folia de Reis, encontramos discurso semelhante, na medida em que a retomada da tradição é apontado como importante elemento de resistência frente ao comportamento consumista que se dissemina ampliadamente no período natalino e que tem na figura do Papai Noel o seu maior expoente simbólico.
A folia de reis é uma resistência cultural em relação à invasão consumista de Papai Noel, shoppings e aquela coisa toda. A folia de reis é uma manifestação natalina tradicional da cultura com significado, está contando a história dos três reis que foram visitar o menino Jesus, é um movimento de resistência a esse massacre midiático de Papai Noel e consumismo, [então] a gente consegue quebrar um pouco com isso. (entrevista 16 - Alberto José Pereira Camargo)
Eu acho que quando vem alguma coisa que a gente consegue perceber que está sendo muito invasiva, eu acho que a gente acaba começando um movimento de contra-invasão, eu sinto isso em muitas coisas, não só na folia, mas em outras coisas. (entrevista 16 - Regina Maria Tavares Vasques)
Essa intencionalidade intelectual externa que se verifica nos projetos culturais folclóricos nos remete à lembrança da tentativa efetuada pela equipe técnica do CATI em promover hortas comunitárias (experiência relatada no capítulo 5.2.1.) na sua programação. Os idealizadores destes projetos compartilham os mesmos propósitos de retomada cultural, entretanto, o sucesso dos grupos aqui mencionados provavelmente está relacionado ao fato de que a música os reporta seu público aos momentos de festa, enquanto as hortas remetem aos períodos de trabalho.
Esse intuito cultural que perpassa os dois grupos resulta em mais um comportamento semelhante: a aproximação com outros grupos e/ou integração de atividades diversas consideradas típicas na cultura reconhecida por eles como tradicional.
O objetivo, declarado pela Casa do Violeiro do Brasil (1979, p.03), expressa um propósito ampliado sobre os temas culturais, na medida em que se propõe a lutar pelo “consagramento dos artistas sertanejos e a defesa da música, da dança e do folclore brasileiro”. O trecho abaixo reforça essa perspectiva:
A entidade, que é entidade civil sem visar lucros, abriga em seu meio vários grupos de folclore nacional, tais como catira masculino e feminino, maculelê, capoeira, pastoril, folia de reis, humoristas, forró nordestino, berranteiros, quadrilha caipira, futebol da viola x violão, congada, etc. e este ano promoverá a Décima Festa de Peão de Boiadeiro de Osasco. (CASA DO VIOLEIRO DO BRASIL, 1984)
De acordo com Schmidt e Mahfoud (1993, p.292-293), “a memória coletiva vive, sobretudo, na tradição, que é o quadro mais amplo onde seus conteúdos se atualizam e se articulam entre si”. Neste sentido, os idealizadores da Folia de Reis Belo Sol de Santa Maria também descrevem a origem e fortalecimento de outras ideias culturalmente relacionadas, tais como: Grupo Bela Época (resgata as marchinhas de carnaval), Quadrilha Junina Bela Folia
de São João (observa a origem dos costumes e músicas juninas), Grupo Sol em Canto (grupo de coral que se apresenta em casas de amparo aos idosos e abrigos de crianças carentes).
Apesar da diversificação das atividades, outro elemento comum que acompanha a atividade principal de ambos os grupos é a religiosidade. Os membros da Casa do Violeiro do Brasil, por exemplo, mantêm atividades semanais como um baile para terceira idade e uma roda de viola, entretanto, a mais tradicional delas é a Missa Caipira realizada na última segunda-feira de cada mês junto à Catedral de Santo Antônio. Apesar da periodicidade menor desta participação do grupo na esfera religiosa, todas as suas reuniões internas são precedidas por uma prece e pela leitura do Evangelho, além disso, notamos afixadas na parede contígua ao palco de apresentações, a imagem de São Gonçalo (protetor dos violeiros), seguida por um Crucifixo e pela imagem Nossa Senhora Aparecida.
A religiosidade também é um aspecto inerente à folia de reis. Em conversa com os idealizadores do grupo, descobrimos que sua intenção original previa uma atuação essencialmente cultural, mas o envolvimento profundo da comunidade a converteu numa autêntica manifestação da religiosidade popular. A primeira folia foi realizada, em 1994, com a intenção de demonstrar para um visitante australiano um aspecto da cultura brasileira. Embora todos os recursos tenham sido improvisados como, por exemplo, a bandeira e bumbo, os moradores vizinhos à casa que hospedava este visitante, os reconheceram e os acolheram como um legítimo grupo de folia de reis, solicitando visitas em suas residências. A foto 19 demonstra os materiais utilizados na primeira jornada do grupo, realizada em 1994, e a foto 20 apresenta os recursos da última jornada, realizada em 2014, demonstrando a transformação na cultura material do grupo.
Foto 19: Cultura material da primeira jornada da Folia de Reis Belo Sol de Santa Maria (1994)
Autoria: Alberto José Pereira Camargo
Foto 20: Cultura material da última jornada da Folia de Reis Belo Sol de Santa Maria (2014).
O elemento mais interessante que perpassa a origem deste grupo refere-se à conversão de uma proposta originalmente cultural para uma autêntica manifestação popular religiosa. O intuito do grupo previa essencialmente o resgate cultural de uma tradição, entretanto, o comportamento dos devotos legitimou suas atividades, de forma que o grupo assumiu largamente os pressupostos sagrados daquela manifestação. Os depoimentos abaixo reforçam essa perspectiva:
[Só que] esse pessoal tem devoção profunda pela folia de reis, a bandeira de reis para eles é, e [de fato] é, um objeto sagrado, então a gente ia em casas [onde] tinha uma pessoa enferma, [eles] vinham com a bandeira para curar aquela pessoa, tinha que abençoar a pessoa, beijar a bandeira e depois de um tempo a gente ouvia falar: “graças a Deus sarou a pessoa”, “graças à bandeira”, “graças ao santo rei sarou”, “graças aos santos reis”... nós não nos sentimos com essa incumbência, mas isso foi crescendo. [...] A nossa intenção era cultural mesmo, como uma manifestação típica brasileira, só que a nossa folia de reis foi percebendo essa carência, o pessoal foi precisando, a gente foi atendendo e essas coisas foram acontecendo. (entrevista 16 - Alberto José Pereira Camargo)
[Então] hoje a gente sabe que a folia é muito mais do que a gente, independente de quem carregue a bandeira ou de quem toque o violão [e] a viola, ou de quem entre, ela já tem uma coisa instituída, ela é além da gente. A gente tem na bandeira, [por exemplo] muitas fitas de pedidos e hoje em dia muito mais fitas de agradecimento por graças atendidas. (entrevista 16 - Regina Maria Tavares Vasques)
Esse grupo se reuniu com objetivo de resgatar a cultura, encontrou em suas visitas uma energia emanada dos devotos que abrem suas casas para nos receber, atitude que fez todos repensarem seus objetivos. Descobrimos nesse evento uma energia inimaginável. Formado inicialmente por amigos e familiares, agregou outras diversas pessoas, muitas como eu, recebiam o grupo em sua casa e passou a integrar o grupo. (Célia Aranha, informação pessoal68)
Na intercessão entre os propósitos culturais e religiosos, Mariano (2009, p.10-11), afirma não ser rara a participação destes grupos em lugares e tempos que não correspondem aos pressupostos sagrados da atividade. Ainda segundo a autora, nestes casos “não há espontaneidade, mas uma apresentação para o de fora, talvez, para o turista que não o entende, apenas o considera muito bonito e interessante”. O depoimento dos idealizadores da folia
demonstra, entretanto, que essa espetacularização da festa não atingiu o grupo, que se recusa a fazer apresentações fora de época e/ou em espaços que não condizem com o compromisso da manifestação religiosa.
Não é um grupo de teatro que representa uma folia, tanto é que nós, por exemplo, já fomos convidados várias vezes para apresentar a folia de reis num evento, [mas] eu falei assim: “a folia de reis não se apresenta, não é um
show, a gente vai visitar uma casa, porque o dono da casa é devoto [e] ele vai reverenciar sagradamente a bandeira”. A nossa folia já foi convidada para ir naquele movimento grande que tem na Água Funda, Revelando São Paulo, mas a gente não vai, porque não temos essa característica, nós não somos um grupo de teatro ou um grupo de pesquisa cultural que pesquisa e reproduz aquilo para mostrar como é. Já recebemos diversos convites aqui em Osasco mesmo, [mas] eu sinto muito, a gente não vai. [Dizem] “poxa
mas é tão importante”, eu sei que é importante, mas a nossa folia não é um show, não é um espetáculo. Ela só acontece no ciclo natalino. (entrevista 16 - Alberto José Pereira Camargo)
É evidente que a manutenção das proposições religiosas não implica numa completa imutabilidade nas atividades dos foliões e violeiros. O público interessado é quase sempre constituído por uma população migrante que experimenta a vida em um cotidiano urbano- industrial muito diferente daquele onde eles estabeleceram o contato original com estas tradições. O excerto abaixo reforça essa perspectiva:
Os grupos que se organizam, ou acredita-se que na maioria das vezes, herdam de seus antepassados a “missão” da continuidade e de sua existência, sobrevivem submersos na grande metrópole. São compostos por pessoas trabalhadoras, pais e mães de família, adolescentes e jovens como quaisquer outros, com todos os problemas cotidianos de uma vida urbana. (MARIANO, 2009, p.10-11)
Neste sentido, Alberto José Pereira de Camargo e Regina Márcia Tavares Vasques descrevem inúmeras adaptações aplicadas aos rituais, buscando promover o enlace entre o que eles denominam ‘cultura rural’ e ‘costumes urbanos’. Dentre os elementos mencionados, temos a utilização de veículos automotivos, a iniciativa de substituir a mesa de alimentos oferecida pelos devotos por doações de alimento para instituições de caridade, o ritmo mais alegre da música que incentiva a participação dos mais jovens, a substituição da figura
assustadora do bastião por um palhaço tradicional de circo, a predominância do elemento feminino e presença marcante de jovens e crianças.
Dentre todas estas adaptações, a predominância do elemento feminino é a mais interessante, pois é compreendida por Regina Márcia Tavares Vasques como um traço agregador que favorece a continuidade da tradição ao longo das gerações. Essa continuidade foi relatada como um verdadeiro desafio para os grupos que os precederam na região, de forma que duas folias extinguiram-se pela ausência de integrantes que assegurassem sua continuidade, sendo mencionado um grupo em Carapicuíba e outro grupo vinculado à Casa do Violeiro do Brasil.
Os esforços para continuidade da própria Orquestra dos Violeiros demonstram como esse processo pode ser conflituoso, na medida em que a permanência da tradição, muitas vezes implica uma necessária renovação dos hábitos e costumes. Sabemos que a prefeitura oferece, desde 2013, um professor de música que utiliza o espaço da Casa dos Violeiros do Brasil para lecionar aulas de viola e violão às novas gerações. Quando observamos o grupo oficial, entretanto, notamos que todos os membros são adultos e que parte significativa deles pertence à terceira idade. O objetivo dessa iniciativa seria formar novos violeiros para integrar o grupo, assegurando sua continuidade. A maneira como esse corpus69 de conhecimento é
transmitido, entretanto, gera uma significativa ruptura entre os dois grupos, o que dificulta a sua integração.
Em conversa com alguns membros da Casa do Violeiro do Brasil, recebemos a informação de que os jovens violeiros estão sendo formados a partir da notação musical, enquanto o grupo tradicional desconhece o uso de notas ou pautas, já que herdaram o conhecimento de familiares e amigos ou estão habituados a “tocar de ouvido”.
Estes exemplos demonstram que as tradições não são fixas, elas se transformam muitas vezes como condição essencial para manterem-se atuantes. “Tradições são assim mesmo, frequentemente inventadas e reinventadas, como mostraram Hobsbawn e Ranger70, pois visam consolidar determinadas continuidades em relação ao passado, frente às constantes transformações do mundo moderno” (ABREU e SOIHET, 2003, p. 100).
Se considerarmos os apontamentos de Martins (2008, p.27), notaremos que a própria música caipira passa a assumir novos contornos no meio urbano, inspirando uma modalidade denominada música sertaneja.
Martins (1975, p.105-111) afirma que é necessário irmos além da música para descortinar a distinção entre sua modalidade caipira e sertaneja, já que elas expressam experiências de mundo e referenciais de elaboração muito distintos. De acordo o autor, uma característica marcante na música caipira é que ela está sempre contextualizada dentro de um ritual vinculado à religião, trabalho ou lazer, de forma que ela integra o cotidiano caipira e mantém-se fora de um esquema comercial. Em relação à música sertaneja, o autor afirma:
A música sertaneja, um gênero musical aparentemente de origem rural, mas de fato urbana, inspirada nas tradições musicais caipira, que surgiu em São Paulo no final dos anos vinte, às vésperas da Revolução de 1930, uma revolução modernizante, foi desde o início uma ácida crítica dos elementos mais expressivos da modernidade na cidade e ao mesmo tempo um meio de compreendê-la.(MARTINS, 2008, p.27)
Em conformidade com esta ideia, observamos uma notória participação de sujeitos migrantes nos grupos visitados, sejam como membros ativos ou como público alvo. Quando descreve os freqüentadores da Casa do Violeiro do Brasil, Souza (1982, p.55) afirma serem:
[...] operários de fábrica ou construções, que passam uma jornada inteira, de oito horas, quando não dez, cuidando de um progresso que não os beneficia e sendo massacrados por uma cultura feita de valores estranhos aos da sua terra. Portanto, as poucas horas semanais que estes violeiros passam reunidos já são o bastante para que ele falem e vivam as coisas reais de sua tradição sertaneja.
Esta constatação nos faz refletir sobre a expressão ‘cultura rústica’, utilizada por Antônio Candido. De acordo com este autor, o termo rural expressa uma idéia de localização, enquanto o termo rústico “pretende exprimir um tipo social e cultural, indicando o que é, no Brasil, o universo das culturas tradicionais do homem do campo.” (CANDIDO, 2010, p.25).
Se considerarmos, portanto, que o rústico abriga uma concepção cultural, ele não se restringe à localização rural, de forma que pode ser encontrado nos ambientes urbanos. Neste sentido, Martins (1975, p.114) afirma ser “[...] inevitável a confusão entre rural e rústico, como é inevitável que o rústico se circunscreva a uma esfera da realidade, a da cultura rústica, com vigência tanto no campo quanto na cidade”.
Essa reprodução acentuada das tradições do homem do campo no município de Osasco, realizada por sujeitos que vivenciaram ou não um passado agrícola e desenvolvida sobre um território onde tais atividades também nunca foram expressivas, poderia ser compreendida, portanto, como cultura rústica.