4. Kapitel – Resultat, kreative aspekter
4.1. Processen
Os capítulos anteriores demonstraram que, no final do século XIX, os arredores da cidade de São Paulo foram circundados por duas faixas concêntricas: o Cinturão de Chácaras (Matos, 1958) e o Cinturão Caipira (Petrone, 1995). A região que compreende o atual município de Osasco não foi mencionada em nenhum desses estudos, mas sua localização geográfica lhe empresta um caráter de transição entre essas duas faixas concêntricas (figura 04). O reconhecimento desta situação geográfica intermediária nos ofereceu um caminho possível para compreendermos porque as lembranças dos antigos moradores locais abrigam imagens intimamente associadas a cada um desses cinturões.
Figura 04: Osasco em relação ao cinturão caipira (vermelho) e ao cinturão das chácaras (amarelo).
Fonte: Google Earth - data: 10/05/2013.
Sabe-se que a expansão urbana de São Paulo ocorreu sobre as terras do cinturão das chácaras, enquanto a expansão suburbana predominou no cinturão caipira (LANGENBUCH, 1968, p.N86). Interessa-nos refletir, entretanto, que ambos processos aviltaram as áreas de várzeas e baixos terraços. Essa perspectiva é essencial para compreendermos como a dinâmica ocupacional se processou no sítio geográfico osasquense, já que tais feições de
relevo se sobressaem na geomorfologia local. O excerto abaixo demonstra essa associação entre as condições geomorfológicas e a ocupação espacial:
Segundo Benedito Lima de Toledo37, os mapas produzidos no final do XIX
sempre dão a impressão de estar inacabados, construídos desse modo porque a área mais próxima ao centro [de São Paulo] já estava loteada e arruada, de onde saíam longos caminhos que deram origem a outros loteamentos, deixando entre si largos espaços vazios. Verificando os mapas desse período, notamos que, as lacunas territoriais mencionadas por Toledo, são compostas por terrenos baixos e alagadiços, chácaras e sítios, alguns dos quais continuaram sendo utilizados para cultivo até os anos 20. (MANZONI, 2007, p.88)
Esse cenário evidentemente se fez presente na região de Osasco, onde os terrenos alagadiços instigavam a presença de descontinuidades ao longo das áreas edificadas. O trecho abaixo descreve essa dinâmica:
Como é fácil compreender (notadamente para os que conhecem o que se passa na cidade de São Paulo), nem todos os elementos topográficos da região em estudo foram igualmente ocupados pelo “habitat”. Mereceram as preferências as áreas enxutas – colinas e terraços fluviais, ao passo que as várzeas aparecem, em largos trechos, inteiramente desabitadas, e os trechos ocupados correspondem à atração exercida pela “E.F.Sorocabana”, notadamente nos primeiros tempos do povoamento original. (PENTEADO & PETRONE, 1958, p.95)
O Rio Tietê constitui o principal corpo hídrico da região e atravessa o município no sentido leste-oeste. A baixa declividade do relevo local favoreceu sua navegabilidade e condicionou o curso original meândrico38 de suas águas nesta região. Se por um lado, o sistema fluvial constituiu um importante canal viário, por outro lado, a travessia por terrenos brejeiros sempre representou uma difícil empreitada. Sabe-se, por exemplo, que os antigos tropeiros cruzavam as várzeas no sentindo perpendicular ao rio, como estratégia para evitar o atolamento dos seus animais (LANGENBUCH, 1968, p.E28). Isso também nos permite compreender porque não existiram estações de pouso nessa área.
37 TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: três cidades em um século. São Paulo: Duas Cidades, p.68, 1983. 38 As obras de retificação do leito seriam realizadas entre as décadas de 1950 e 1960.
Tal particularidade do meio físico imprimiu, portanto, uma acentuada perspectiva de trânsito sobre a área: Osasco participava de uma importante rota de passagem já no século XVII, quando era percorrida por grupos bandeirantes (PRIMEIRA HORA, 27/07/91) e sustentou esse atributo ainda no século XIX, integrando a trajetória das caravanas boiadeiras e imigrantes que rumavam para o oeste (BRITO, 1996).
As periódicas inundações das planícies aluviais dificultavam a ocupação definitiva das terras locais. Os primeiros esforços no sentido de reduzir sua umidade foram empreendidos por um imigrante italiano chamado Antônio Agú que introduziu, no final do século XIX, o cultivo de eucaliptos em sua fazenda. De acordo com a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas39, os eucaliptos utilizam a água disponível na camada superficial do solo, pois suas raízes não ultrapassam 2,5 metros de profundidade. Portanto, se levarmos em consideração as enormes restrições causadas pelo alagamento constante de uma porção da sua fazenda, esta iniciativa mostrava-se bastante promissora.
A senhora Catharina Andrade Benaglia recorda que a extração destes eucaliptos ocorreu em meados da década de 1940, mas novas disposições para extinguir os pontos de alagamento voltariam a ser implantadas nos anos posteriores. De acordo com o senhor Boris Melnik, a indústria local também participou desse processo, assumindo por incumbência alguns procedimentos de aterro.
[Meu pai], seu Domingos, seu João Brás e meu tio João Andrade cortaram os eucaliptos, [eram] cinco pessoas, [mas] eu lembro desses três, foi em 1945 ou 1946, eu não tenho certeza. (entrevista 02 - Catharina Andrade Benaglia)
A [avenida] João Batista, por exemplo, quem endireitou foi a Cobrasma [com] aquela areia refugo de fundição, uma areia preta, parece carvão. A areia para fundição vem limpa, ela passa pela fundição, eles re-circulam aquela areia três ou quatro vezes, depois ela se torna inútil, então a Cobrasma pegava aquela areia e despejava na [avenida] João Batista para aterrar o brejo, toneladas e mais toneladas. [...] Eu acho que essa época começou logo depois da II Guerra Mundial e se estendeu até os anos 1960. (entrevista 06 - Boris Melnik)
Essa dinâmica seria alterada, na década de 1950, com as obras de retificação do Rio Tietê. De acordo com Penteado e Petrone (1958, p.95), “esse quadro natural foi profundamente alterado por influência do homem, o qual, retificando os cursos de água, tornou as várzeas praticamente enxutas e modificou o próprio regime do Tietê e do Pinheiros”.
A distribuição espacial das propriedades instaladas no centro do município, entretanto, ainda guarda a herança destes numerosos pontos de alagamento que orientaram sua ocupação inicial, quando integravam a antiga Fazenda Osasco, de Antônio Agú. O material gráfico (mapa 02), disponibilizado por Penteado e Petrone (1958, p.91), demonstra os vetores dessa expansão. Segundo Osasco (2013), esse bairro conservou um padrão de ocupação bastante irregular, já que a definição dos lotes era calculada a partir das casas edificadas40. Isso aconteceu porque as casas foram erigidas no intervalo entre os pontos de alagamento presentes no bairro, o que resultou numa distribuição assimétrica das propriedades em comparação à regularidade típica dos loteamentos (figura 05).
40
Mapa 02: Vetores de expansão do sítio urbano de Osasco
Fonte: Penteado e Petrone (1958, p.91)
Figura 05. Bairro do Centro (à esquerda) e loteamento no bairro Cidade das Flores (à direita)