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Utvalgets vurderinger om voksnes rett til videregående opplæring

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Voksne i videregående opplæring

8.2 Rett til videregående opplæring

8.2.3 Utvalgets vurderinger om voksnes rett til videregående opplæring

Durante o aprendizado dos pontos básicos da renda pude aprender sobre alguns elementos valorizados pelas rendeiras e que constitui, nas suas palavras, uma renda boa. Cabe notar que, a qualidade da renda está vinculada não somente aos gestos e movimentos, mas às referidas escolhas quanto ao uso dos moldes. As principais características mencionadas por Alda foram a presença do trocado inteiro, a firmeza e o peso da peça. Além disso, a limpeza, o bom acabamento e a boa definição da forma criada pelos pontos são atributos indispensáveis de uma boa renda. É interessante observar que tais aspectos estão intimamente relacionados aos processos técnicos de produção da renda. Não é a toa que as rendeiras também chamam esse tipo de renda de mais trabalhada, ou renda bem feita. É justamente porque a renda boa resulta de um processo mais demorado e laborioso de feitura, que ela pode ser descrita como uma renda bem feita.

Na opinião das rendeiras mais criteriosas e exigentes, existe uma diferença grande entre as rendas executadas com trocado inteiro e aquelas feitas com o meio- trocado, tanto no que diz respeito à sua qualidade, quanto à aparência estética. Alda descreveu o modo ideal como a renda deve ser feita: Tem que ser toda no trocado inteiro, bem fechadinho, pra ficar bem durinha. Quando tira da almofada, chega fica em pé! O fato de fechar o ponto com um trocado inteiro faz com que as linhas fiquem mais unidas e próximas ao espinho. Dessa maneira, a trama fica mais firme. A torção da linha e os estalos que as rendeiras dão entre os bilros a cada ponto são essenciais para garantir que a renda fique bem feita e os trocados, bonitos. São tais batidas entre os bilros que tensionam as linhas, de modo que o ponto fique firme e bem preso junto ao espinho. Jeane, rendeira que é vizinha e parente de Alda, destacou a importância de bater os bilros: Sem estalar os bilros, a renda fica mole. Quanto mais puxar e acochar — apertar, com os estalos, mais durinha e esticada a renda fica. Tem gente que faz os trocados e deixa de lado, aí a renda não fica acochegada!

Um aspecto estético ao qual as rendeiras estão sempre muito atentas é o espaçamento da trama, isto é, ao espaço vazado que se cria entre as linhas. Na perspectiva delas, quanto melhor definido e menor esse “vazio”, melhor. As rendeiras julgam que as rendas mais preenchidas e fechadas são, também, mais bonitas. Considerando o processo produtivo, tais rendas são sempre mais trabalhadas do que às rendas cujas tramas são abertas, ou rangarelas. Nesse quesito, a aparência do pano

é central na renda, principalmente, o pano de trocado inteiro. Esse ponto, conforme vimos, constitui uma espécie de tecido, no qual as linhas ficam dispostas horizontal e verticalmente. Justamente por possibilitar a criação de um espaço mais compacto de linhas, costuma ser utilizado para compor formas e desenhos. Nesse sentido, é importante para as rendeiras, que tal espaço esteja devidamente preenchido. Assim, quanto mais fechado for o pano, melhor. É interessante notar que é mantido um senso de proporção de tais “vazios”, independente da espessura da linha utilizada, conforme se pode destacar da seguinte avaliação: Essa renda aqui tá muito rangarela para ser com a linha fina. Tinha que ser mais miudinha, tá parecendo uma tarrafa2. Vale notar, ainda, que a constância da batida entre os bilros também é importante nesse caso. É o estalo entre os bilros a cada trocado realizado que garante que as linhas fiquem distribuídas de maneira uniforme ao longo do pano, conforme destaca Maria das Dores: Se não puxar os bilro, o pano não fica igual. Fica mais concentrado em algumas partes e mais ralo em outras.

1.8.1 O valor da torção

Conforme vimos, na descrição do trocado, a torção é o primeiro movimento a ser executado para realizar o ponto. A importância desse gesto, porém, vai muito além da participação em alguns pontos, pois é essencial para garantir uma renda mais firme e com padrões bem definidos. Ao torcer as linhas de cada par de bilros antes de efetuar a troca dos mesmos, as rendeiras também ajudam a tensionar a trama. No entanto, apenas a primeira torção da sequência do trocado não é suficiente para garantir a tensão entre as linhas e, assim, a firmeza necessária para a renda. Em uma carreira de trocados como aquela que estava executando, por exemplo, existe uma distância entre cada ponto. Esta distância é percorrida por um par de bilros que, apesar de constituído por dois fios de algodão, constituem como que uma mesma linha (ver Fotografia 6, na página 67). Nesse sentido, é importante torcer os fios algumas vezes para que eles permaneçam unidos entre um trocado e outro. Em tais situações, fui orientada por Alda a torcer cada par algumas vezes (e não apenas uma) antes de executar o movimento de troca. Nesses momentos, a sequência mental que guiava meu trabalho nos primeiros dias era torce, torce, torce, troca (não mais apenas torce, troca).

A importância da torção não se restringe apenas à situação mencionada no caso do trocado, de unir dois fios e torná-los mais tensos. Durante a execução de toda a peça, as rendeiras mais caprichosas estão sempre torcendo as linhas presas a cada bilro em torno do seu próprio eixo. A linha utilizada por elas é de algodão e, dependendo da sua qualidade e fabricante, suas fibras são mais ou menos torcidas. Com o manuseio e a movimentação dos bilros, as linhas tendem a perder a sua torção natural, tornando-se mais frágeis e suscetíveis a se romperem. Além disso, a torção 2 Rede de pesca circular utilizada por pescadores locais.

Fotografia 6 – Nesta renda, cujo centro é composto inteiramente por trocados, é possível verificar a importância dos espinhos na manutenção da tensão da trama, auxiliada pelas torções e pelos estalos entre os bilros. Os orifícios criados pelos espinhos, que podem ser observados na junção de cada ponto, indica que a renda foi toda confeccionada com trocados inteiros.

constante das linhas faz com que elas fiquem mais finas e lisas, de modo a deslizar mais facilmente quando friccionadas umas contra as outras.

A percepção acerca da quantidade de vezes que deveria torcer as linhas, tanto antes de fazer o trocado, como ao longo da produção da renda, precisou ser treinada e afinada. Nos primeiros momentos após Alda ter me dito que é a torcida que faz ficar duro, eu me empenhei em torcer bastante as linhas, para que a minha renda ficasse bem feita. Porém, logo percebi que precisava calibrar tais torções. Quando torcia os bilros envolvidos no trocado muitas vezes antes da execução do ponto, ao finalizá-lo as linhas torcidas não se ajustavam ao espinho que precisava inserir no molde, pois ficavam muito rígidas e perdiam a flexibilidade que permite o encaixe do espinho. De maneira semelhante, ao girar o bilro muitas vezes sobre o seu próprio eixo, na intenção de tensionar a linha e torná-la mais resistente aos estalos, a mesma se retorcia e dificultava a execução dos pontos. Foi necessário encontrar, portanto, um ajuste para que a renda ficasse rígida o suficiente e mantivesse sua flexibilidade, mantendo a forma plana dos pontos, que seria afetada caso as linhas estivessem muito tensionadas, de modo a se repuxarem quando a peça fosse finalizada e retirada

da almofada.

1.8.2 Acabamento e nós

Assim como a trama resulta da interelação dos gestos e de forças entre rendeiras e linhas, um bom acabamento também depende de uma série de escolhas ao longo do processo de confecção. Conforme vimos, esse é um dos critérios de uma renda boa. A definição de tal aspecto se dá a partir da quantidade de nós visíveis na trama. A presença de nós ao longo da renda é inevitável, uma vez que as linhas presentes nos bilros acabam e podem quebrar. Quando a linha de um dos bilros termina, ela precisa ser reposta e as linhas, emendadas. O mesmo acontece quando uma linha se rompe durante o trabalho.

Na maior parte das vezes, as rendeiras se esforçam para minimizar a quanti- dade e disfarçar os nós ao longo da renda, buscando, sempre que possível, embuti-los. No entanto, isso nem sempre é possível, conforme atesta a seguinte fala de Maria Mole: A gente faz de tudo para esconder os nós, mas tem canto que não tem como. Quer dizer que, se a linha quebrar, não vou poder emendar e continuar a renda? Um grande número de nós afeta a peça de duas maneiras distintas. O primeiro impacto é visual, uma vez que a presença de nós pode alterar a definição da forma dos pontos, assim como sobressair por entre os desenhos e padrões da trama. O outro impacto negativo dos nós é sobre a própria superfície da renda, que deve ser plana e esticada.

Em estudo sobre o nó na imaginação dos povos do Pacífico, Susanne Küchler (2003), diferencia o nó e o laço. Para tal, ela recorre à matemática, que define o nó enquanto uma curva fechada no espaço, que não se auto-intersecta. O nó, nessa perspectiva se apresenta com uma superfície que, quando alinhada em série, assemelha-se a um plano impenetrável. O laço, por sua vez, constitui uma trama aberta. Nesse sentido, nos interessa aqui a relação que a autora estabelece entre o nó e a superfície: “( . . . ) essential for understanding and distinguishing knots, is the surface or the space around the knot, that which is everything but the knot, with the knot lying within or beneath the surface” (KÜCHLER, 2003, p. 208). A renda estaria, dessa maneira, mais próxima do laço, uma vez que sua trama é vazada. O nó, aqui, também cria um volume compacto que se distingue daquilo que está ao seu redor, podendo estar acima ou dentro da trama. O seguinte conselho de uma rendeira para outra, cuja produção estava sendo observada, reforça tal possibilidade: Bote o nó pra dentro, Maria, pra que ele não fique pra cima. Nesse sentido, considerando a renda enquanto uma superfície, o nó pode estar embutido na trama ou visível, sobre a mesma e facilmente identificável.

Existem algumas maneiras de tentar esconder os nós, de modo que fiquem embutidos, isto é, no meio da trama, de maneira discreta. Alguns pontos permitem que a rendeira esconda o nó com mais facilidade e outros, invariavelmente, deixam

o nó visível, como o trocado. Por ser um ponto cuja dimensão é pequena, o nó que estiver ali ficará mais evidente. O mesmo não acontece no pano de trocado inteiro, que costuma ocupar um espaço maior de maneira compacta, graças à proximidade entre as linhas. O fato de constituir uma trama mais fechada permite que os nós presentes nesses panos sejam, inclusive, cortados após a conclusão da renda, sem que isso afete ou desfaça a peça. No caso da traça, a presença de nós na “teia” atrapalham a subida e o ajuste entre as linhas. Dessa maneira, caso alguma linha tenha um nó próximo ao espinho, ela será a escolhida para tecer o ponto. Devido ao seu formato, que também apresenta uma área compacta de linhas, os nós do tecedor podem ser disfarçados e embutidos na traça.

É interessante notar que a presença de um nó sempre significa uma interrupção, tanto da linha, quanto do trabalho da rendeira. Nesse sentido, sempre que tiver a necessidade de emendar, inserir ou retirar uma linha da trama, a rendeira precisa parar o trabalho que estava fazendo e ajustar o que for preciso antes de prosseguir. A opção por tentar reduzir a quantidade de nós da renda tem, portanto, outra implicação relevante, a continuidade da atividade. Ao reduzir a quantidade de nós necessários, a rendeira obtém não apenas uma renda com um melhor acabamento, mas garante um “estado de fluxo” (CSIKSZENTMIHALYI,1990;CSIKSZENTMIHALYI, 1997), uma imersão na atividade sem qualquer interrupção pelo maior espaço de tempo possível.

Considerando a presença dos nós e seu impacto no acabamento das rendas, duas etapas da produção são cruciais para garantir uma renda bem feita e merecem destaque: o momento de assentar e de tirar a peça da almofada. O cuidado da rendeira em tais momentos, irá se refletir na qualidade do acabamento de, pelo menos, duas extremidades da renda, aquelas nas quais a trama é iniciada e finalizada. Ao começar uma peça, por exemplo, o nó que liga os fusos em pares deve ser embutido em um dos bilros, de modo que não fique no centro da linha que os une. Assim, quando os bilros forem assentados, o volume do nó não ficará no limite da trama, mas no seu interior. Uma rendeira me orientou nesse sentido: Quando for assentar uma renda, qualquer renda, nunca deixe os nós aparecendo. Embora a presença dos nós nas extremidades da peça possa ser reduzida por meio de algumas ações, é importante notar que nem sempre isso ocorre. Nesse sentido, a escolha da rendeira por fazer uma renda melhor acabada, ou não, depende de diversos fatores, conforme veremos no Capítulo 3. O que interessa destacar, agora, é que a renda resulta do engajamento corporal e dos gestos das rendeiras, com seus instrumentos e com a linha.

Um último aspecto, relacionado ao nó e a manutenção das formas criadas durante a execução da renda, merece destaque. São essas amarrações entre as linhas que mantêm o entrelaçamento e a configuração da trama após a finalização da peça e a retirada dos espinhos que prendem a renda à almofada. Sem os nós, a renda

resultaria em um agregado disforme de linhas entrecruzadas. Nesse sentido, são os nós que mantêm as formas definidas unidas e no lugar (INGOLD, 2015a, p. 14). Sobre a importância dos nós para a geração e manutenção das formas, Ingold aponta o seguinte: “ ( . . . ) knotting is about how contrary forces of tension and friction, as in pulling tight, are generative of new forms. And it is about how forms are held in place within such a force-field or, in short, about ‘making things stick’” (INGOLD, 2015b, p. 18).

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