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Utvalg av sykehjem

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 40-45)

3. Metode

3.5. Utvalg av sykehjem

No sexto encontro do grupo reflexivo, Antônio, o jovem DJ, havia saído do grupo. Sua namorada tinha desistido do processo em uma audiência e eles voltaram a morar juntos. Heitor também deixara o grupo, pois conseguira demonstrar para o juiz que Joana estava descumprindo a medida protetiva, argumentando que, se ela o procurava e o assediava, ele não significava perigo nenhum para ela. Heitor gravou todas as ligações que Joana fazia para ele, guardou as mensagens de texto e se assegurou de ter testemunhas cada vez que ela ia até sua casa para procurá-lo. A literatura citada no fim do primeiro capítulo mostra que o processo judicial retira da narrativa a natureza dos conflitos, traduzindo-o em lide processual. Nisso, instaura-se uma nova gramática para guiar a “resolução” do conflito, em que não interessam mais as redes de relações e motivações originais, mas sim a capacidade das partes (e seus advogados) de manipularem as regras do sistema legal a seu favor. Heitor logo notou isso, aprendeu as regras e produziu as “provas” de que ele não constituía uma ameaça. A estratégia foi eficaz e ele ganhou o que queria. Em contraste, a lógica “psicossocial”, que orienta uma política de grupo reflexivo, operava de forma oposta. No grupo, Aline queria que os homens refletissem sobre a natureza do conflito, buscar sua responsabilização para que houvesse transformação de atitudes e nova percepção de si e do outro. Ora, nesse sentido, a lógica judicial trabalha contra a lógica psicossocial e, quando Heitor descobriu como ganhar na Justiça, parou de “perder tempo” no grupo reflexivo. A saída de Heitor é emblemática disso.

Naquele dia, todo mundo se cumprimentou e entrou direto para a sala de maneira tranquila. “Eles estavam conformando vínculos”, mencionou Aline, assegurando que era normal que alguns homens ficassem como amigos após terem passado pela experiência do grupo. Para essa semana era mais fácil desenvolver temas sem pautar a expressão de injustiça. Aline colocou um desenho que, visto de um dos lados mostrava uma mulher feia, como uma bruxa, e do outro, uma moça bonita, como uma princesa. Ela explicou que essa dinâmica era usada na psicologia para falar de como as coisas podiam mudar segundo “o ponto de vista e a percepção de cada pessoa”. Em relação ao tema da violência, a ideia não era “desfazer as compreensões, mas juntar, para ter perspectivas diferentes sobre o mesmo assunto e ter melhores recursos para avaliar situações”. Aline, amante dos desafios, incitou-os a “expressar o que vocês estão sentindo ... o que estão vendo”, para que compreendessem a posição diferente de cada um deles.

Maykson voltou ao recorrente tema da provocação das mulheres, que produzia o efeito de eles não poderem falar. Ele não devia responder à sua mulher, uma vez que na rua ela fez

um escândalo, chamando-o “daquilo”, mandando-o “para aquele lugar”. Ele teve que abaixar a cabeça e aguentar os comentários de outros homens na rua. Aline parabenizou-o por não ter entrado na confrontação e reconheceu como eram dolorosos os xingamentos e as humilhações que às vezes eles tinham que suportar. “Essas violências mexem com cada um de nós e nos afetam profundamente”, afirmava Aline, trazendo posteriormente comentários feitos por Heitor e Herbert sobre o tratamento humilhante de suas ex-companheiras. Eles se sentiram compreendidos, houve um leve momento de satisfação e harmonia na sala. Imediatamente, ela lembrou que no início dos encontros eles diziam que nunca foram violentos, que só xingaram, e perguntou qual era a diferença dos xingamentos delas em relação aos feitos por eles. Os homens ficaram desorientados, não sabiam o que responder. Aline narrou algumas queixas de homens e mulheres quando eram entrevistados nos seus atendimentos; elas lembravam o desenho do quadro branco e ambas as perspectivas eram verdadeiras. “Como negociar ambas as verdades?”, perguntou Aline, convidando para um “movimento de abertura” para pensar o sofrimento da mulher e valorizar a voz dela.

Josué deu razão a Aline. Diferentemente de todos os dias anteriores, de maneira calma, ele disse que Maykson era um covarde porque, se a mulher dele o xingou na rua, era porque ela já havia aguentado muita traição, sendo esta uma maneira de se defender, já que “a fragilidade da mulher faz com que o palavrão saia com força”. Josué afirmou que nenhum ali podia ser chamado de santo. Maykson olhou-o desafiante e ficou em silêncio pelo resto do encontro. Aline não podia estar mais feliz e disse que homens e mulheres tinham formas diferentes de poder e em intensidades distintas. Reconheceu que o xingamento da mulher era uma violência e qualificou como desproporcional a resposta do homem que batia nela.

Henrique concordou com Aline, mas lembrou que as mulheres “sabiam cutucar” até que “a caixa d’água transborde”. Ele comentou que efetivamente a força era diferente porque “a mulher [era] premeditada e muito racional na hora de agir pro mal. Ela arquiteta porque já sabe o que vai acontecer”. Aline perguntou se essa violência era aprendida ou natural. Ele respondeu que era aprendida, porque na medida em que a mulher conhecia o homem, reconhecia seus pontos fracos. Outro sorriso no rosto de Aline. Henrique disse que as mulheres aprenderam como gerenciar “o negócio do tráfico [de drogas na favela]” e, sendo mais inteligentes que os homens, elas aproveitavam a sua “condição feminina”, como ficar grávidas, para se colocarem no lugar da “vítima” e saírem bem. Contra-argumentando, Aline disse que os homens estavam envolvidos em mais casos de violência que as mulheres, dentro de uma “cadeia de mando” que, chefiada pelo governo, passava pelo lugar de trabalho e a competição entre homens na rua e chegava finalmente ao lar, indo de oprimido para opressor. Os homens se identificaram com

essa descrição. Henrique e Herbert concordaram que os homens ficavam irritados pelos abusos dos chefes e terminavam desabafando em casa sobre os mais frágeis.

Aline retomou o tema da “diferença do poder entre homens e mulheres” e argumentou que isto também era “gênero”. Ela relacionou as “violências do casal” com as “urbanas” e “políticas”, mostrando como todas faziam parte da “mesma estrutura nessa cadeia de mando”, e estimulou-os a “se conscientizarem do lugar” que eles tinham nesse tecido de relações para “agir e sair do ciclo da violência”. Cabia a eles mudar a sociedade começando por eles mesmos. Parecia que estava ficando mais claro para eles o significado da categoria gênero e, aproveitando esse aprendizado, Aline perguntou quais eram as diferenças de gênero em relação ao termo “vagabundo”. Eles demoraram a responder. Henrique falou que, para um homem, tinha a ver com a “falta de responsabilidade no trabalho”, ou por ser um “bandido”. Em relação à mulher, todos rapidamente responderam: “piranha”, “mulher da vida”, “traiçoeira”... Aline mostrou que essa diferença tinha a ver com o atributo da “responsabilidade dos homens” e com a “sexualidade das mulheres” e que essa diferença era fundamental para entender o “valor relativo dos dois xingamentos”.

Essa foi a tarde das inflexões morais, de recolher os frutos do trabalho de Aline. Ela estava contente porque eles estavam entendendo o fundamento da Lei Maria da Penha. Aline lembrava alguns comentários de Heitor, como, que a violência não tinha gênero, mas a partir desse momento eles podiam ver como “as violências são diferentes para homens e mulheres” e que elas tinham uma relação muito estreita com “a visão mais machista, tradicional de que o homem é o provedor e a mulher tem que cuidar dos filhos”. Aline estava satisfeita nessa tarde.

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