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Sensorisk kvalitet utseende

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 91-94)

5. Diskusjon

5.12. Sensorisk kvalitet utseende

Na semana seguinte acompanhei a entrevista preliminar de Pedro, que aguardava na sala de espera da instituição lendo um livro de Proust. Ele era um homem em torno dos 60 anos, baixo e obeso, com roupas sujas, unhas grandes, tanto dos pés como das mãos, pele seca, cabelo seboso e óculos de lentes grossas e arranhadas. Ele não era muito agradável à vista. Conversamos um pouco na sala de espera. Pedro havia chegado ao instituto porque se sentia “muito mal” consigo mesmo, ele queria “mudar sua situação” para “ser feliz” com sua mulher. Nesse momento, Carlos nos convidou para entrar na sala onde aconteceria a entrevista. Pedro solicitou uma cadeira metálica, pois tinha medo de romper as de plástico, coisa que já havia acontecido, deixando-o muitas vezes constrangido em público. Carlos e Eliana sentaram-se em frente a ele e começaram a ler o questionário inicial, elaborado pela área de pesquisa do instituto para haver uma primeira aproximação com os futuros participantes dos grupos reflexivos, caracterizar a situação de violência e apresentar a proposta de grupo30. Eu acompanharia a entrevista sem intervir.

Eliana iniciou a leitura do documento, ressaltando que todas as perguntas eram para ser respondidas voluntariamente e que os dados ali registrados seriam usados com fins de pesquisa, garantindo a confidencialidade da informação. Ela perguntou o nome e o lugar de residência. Pedro respondeu e começou a falar da sua história, sem parar. Ele falava e respirava de maneira agitada. Apesar de Carlos e Eliana interrompê-lo às vezes para voltar às perguntas do

30 O “questionário inicial para participantes dos grupos reflexivos de homens” incluía dados básicos cadastrais e

socioeconômicos, como nome, endereço, ano de nascimento, telefone, ocupação, cor de pele, religião, posição na família, estado conjugal, número de filhos, escolaridade, situação laboral, rendimentos financeiros, entre outros. Outra parte do questionário dizia respeito à chegada no instituto e ao andamento do processo por violência no juizado. A quarta seção abordava a “situação familiar” em relação à composição da família, estado civil do casal e a “reação emocional” do pedido de separação. A quinta parte, referente a “Atitudes em face de conflitos e da violência intrafamiliar e de gênero”, relacionava comportamentos frequentes em situações de desentendimento na família, reações no estado de “raiva”, exemplo recebido durante a infância para lidar com conflitos, familiares em relação às que o homem está vivendo no momento presente, fatores que detonaram a “situação de violência”, tipos de violências físicas, sexuais e psicológicas recebidas ou praticadas e as instituições de referência nas quais acudiu a vítima de violência. Outras partes do questionário faziam alusão a casos de “negligência” (violência contra crianças ou idosos), ao estado de saúde do informante, o que incluía o uso de álcool e drogas, e outras informações de contato.

questionário, ele continuava sua narração. Pedro se apresentou como um jornalista nascido no Rio de Janeiro que foi morar em Brasília por questões de trabalho. Ele era pai de “duas belas filhas” – quando ele se referia a elas e à sua atual companheira ao longo da entrevista, falava com ternura, de maneira doce e calma. Cinco anos atrás ele começou a procurar “ajuda”, após ter tido um “episódio de violência” contra sua esposa, uma mulher 19 anos mais nova que ele, estudante de psicologia na Universidade de Brasília. Pedro gritou em uma briga, coisa que nunca antes havia acontecido. Sentindo “muita culpa”, ele resolveu “fugir de Brasília, horrorizado consigo mesmo por ser agressor”. Ela o perdoou, mas “eu não consigo me perdoar”.

Carlos perguntou quais eram os motivos para procurar o instituto. Pedro queria se tornar uma “pessoa melhor”. Ele teve notícias de um programa de saúde com palestras direcionadas ao homem agressor e decidiu ligar para o instituto. No início, ele não estava muito seguro, porque não tinha um processo por violência no juizado, mas ao saber que podia fazer parte de um grupo por demanda espontânea, decidiu aceitar a entrevista inicial e, desse modo, “exorcizar seus fantasmas [e] sair da minha zona de conforto”. Pedro continuou seu relato, “eu fiz tudo para ver minha esposa feliz”, para o que ele se candidatara a uma cirurgia de redução de estômago e estava se “sacrificando” para poder ter uma vida sexual. Ele acreditava que sendo magro iria se tornar uma “pessoa diferente”. Pedro disse que havia sido “uma criança muito ensimesmada”, e acrescentou, “sempre me virei sozinho”. Por se julgar também muito inteligente e amante dos livros, Pedro se considerava um “intelectual”, o que fazia com que não tivesse “paciência para pessoas comuns”. Ele sabia que era “arrogante” com sua família e vizinhos na comunidade de pescadores onde cresceu, perto da Barra da Tijuca. Ele deixou de ter contato com seus irmãos por considerá-los “comuns demais” e “medíocres”. Agora, aos 62 anos de idade, Pedro queria aprender a “partilhar”, ter contato com seus familiares e finalmente ter algum amigo.

Eliana ficou interessada no seu desejo de partilhar, convidando-o a explorar melhor esta ideia. Pedro disse que, depois de gritar com sua mulher, entendeu que devia “partilhar [seus] problemas com outras pessoas, para não explodir nunca mais desse modo”. Nos últimos dois anos, ele frequentara um psiquiatra e um psicólogo, conseguindo “se abrir” e ter mais “autoconhecimento”. Pedro repetia de maneira insistente que quase perdeu o casamento e que era um esposo ruim, porque “essa mulher maravilhosa” salvou sua vida em duas oportunidades: primeiro, tirando-o da bebida, segundo, dando-lhe suas filhas. “Meu Deus, que ser humano horroroso que eu era”, dizia Pedro para os estagiários. Carlos e Eliana não falavam, de quando em quando davam uma olhada nas folhas do questionário e tentavam prosseguir na ordem das perguntas, mas sem sucesso. Pedro continuava narrando, quase chorando: “eu não me perdoo

pelo que fiz”. Ele tinha “esperança de mudar” porque sabia que era um “pai ótimo”. As cartas das suas filhas e da sua esposa davam testemunho disso. Ser um bom um pai para suas filhas lhe dava o impulso para “se transformar em uma pessoa melhor”.

Figura 19. Pedro.

A decisão de Pedro de voltar para o Rio Janeiro também foi motivada pelo estado de saúde do seu pai. Sendo o “único filho bem-sucedido”, ele ficou encarregado dos cuidados do idoso. Pedro acreditava que cuidando do seu pai deixaria de ser uma pessoa “difícil, marrenta e egoísta”, que considerava todo mundo abaixo do seu nível intelectual. Após a morte do pai, ele percebeu que estava “realmente sozinho”, que seu casamento estava “acabando” e que não tinha “companhia para [sua] velhice”. Ele não sentia “orgulho” do seu passado e durante toda a sua vida quis negar ter sido “criado numa casa de palafita, com porcos”. Pedro propositalmente se afastou da sua família de origem e foi enfático ao afirmar que a razão era que ele queria “melhorar [sua] condição cultural”, sendo seletivo com suas amizades. Sua mãe era uma lavadeira negra e seu pai um pescador branco. Ele, por ser “o filho mais branco”, com

“cabelo bom” (um pouco mais liso) e o único interessado pelos estudos, recebeu toda a atenção dos pais. Todo o dinheiro da mãe estava destinado à educação de Pedro, produzindo a “inveja” dos irmãos.

Mas por ser uma criança gorda e inteligente, Pedro era constantemente objeto de

bullying, e ele teve que “bater para [se] defender”. Ele achava que “bater era bom” porque a

mãe sempre gritava com ele, que assumia “essa violência psicológica” como parte da sua formação. Carlos e Eliana o escutavam atentamente. Pedro falava usando as mesmas categorias dos estagiários e dava sentido negativo ao ato de bater, por exemplo, como decorrente do passado.

Minha mãe queria me ver chorar, minha mãe não considerava isso violência, mas hoje eu sei que isso é violência. Durante 60 anos acreditei que isso não era violência; 60 anos é uma vida e eu achava que ela estava certa. Só há cinco anos sei que não, é pouco tempo.

Pedro repetia várias vezes que sentia medo de morrer sozinho, medo este que se intensificou quando viu seu pai morrer no seu colo. “Será que eu vou ter alguém para fechar meus olhos quando estiver morrendo? Será que vou morrer sozinho?”, se perguntava, provocando a piedade dos estagiários. Eliana só desejava o melhor para ele. Pedro percebeu que tinha que “ser humilde” e, para isto, virou voluntário em programas humanitários e começou a se aproximar dos seus irmãos. Ser humilde era o primeiro passo para mudar. Ele se descrevia como “muito arrogante”, que sua vida era um “melodrama”, com “altos e baixos muito rápidos e constantes”. Pedro não aguentava mais esse estilo de vida, queria uma forma mais sossegada de viver; por isso, procurou o psiquiatra, o psicólogo e agora o grupo reflexivo. Antes de chegar ao instituto, ele foi parar em um juizado, sabendo que ali aconteciam os grupos, mas não conseguiu entrar porque ele não tinha sido “condenado por violência”. Por meio do grupo, ele queria “exorcizar o horror da minha alma [e] me curar da violência”.

Carlos explicou que os grupos dos juizados eram diferentes porque estavam conformados por homens processados pelo delito de violência doméstica contra a mulher. Pedro, quase sem deixar terminar a frase, colocou: “Não! Eu quero me impor essa pena!”. Carlos ficou assustado e continuou lendo o questionário, repetindo a cláusula de confidencialidade. Pedro aceitou os termos e permitiu a leitura das perguntas e das opções de resposta. Ele não se limitava a escolher uma resposta, sempre descrevia mais e mais porque as opções não contemplavam tudo o que ele queria dizer. De todo modo, a leitura do questionário de 11 páginas foi relativamente rápida, se comparada com o depoimento inicial do entrevistado.

Finalizada a entrevista, Pedro perguntou para os estagiários se havia respondido bem, se achavam que era um candidato para o grupo. É verdade que ele não fora denunciado, mas se considerava um “torturador mental, um intolerante”. Antes de se despedir, Pedro disse para mim, “eu sou bonito, eu não sou esse corpo gordo!”.

Uns minutos mais tarde Thor perguntou sobre o decorrer da entrevista. Para Carlos e Eliana, foi difícil diligenciar o questionário porque Pedro não respondia à sequência de perguntas. Eles caracterizaram Pedro como uma pessoa “autocentrada”, que gostava de “inventar histórias [e] sentia muita culpa”. Destacaram que para Pedro a mudança partia de fora para dentro: mudar de cidade, mudar de corpo para depois mudar a mente. Para Thor, o caminho era na direção oposta, de dentro para fora: “o conteúdo modifica a percepção da forma”.

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