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Sensorisk kvalitet utseende

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 69-73)

4. Resultater

4.6. Sensorisk kvalitet utseende

Na semana seguinte, a equipe de facilitadores se reuniu una hora antes do grupo, como era habitual, para revisar o roteiro do encontro. Milena queria mostrar um curta francês “de homens vivendo numa sociedade feminista”, na qual eles agiam segundo os papéis das mulheres. O objetivo era que os homens se colocassem “nos sapatos do outro” e compreendessem o conceito de gênero. Para a segunda parte do encontro, Milena conduziria a atividade de se desenharem como mulher. Carlos se mantinha na expectativa do que derivaria do desenho, porque facilmente esses homens “vão coisificar a mulher” e desenhariam uma “loira gostosa” ou uma “globeleza”. Todos afirmaram que esta seria a oportunidade perfeita para falar de “preconceito e sexismo”. Para Eliana e Milena, o importante era “desconstruir a mulher enquanto objeto de desejo sexual”. Houve um ambiente de afinidade e sorrisos. Thor aprovou a proposta e nos dirigimos à sala, na qual já aguardavam alguns dos participantes.

Entramos na sala de aula sem janelas, com algumas cadeiras, quadro branco, data show e um pequeno notebook. Carlos organizou as cadeiras, deixando só algumas encostadas contra a parede, destinadas à equipe reflexiva. Seu Francisco, que já estava esperando há uns 20 minutos, era um gari de mais de 50 anos, negro, muito alto e visivelmente cansado, morador de uma favela próxima do bairro Catumbi, entre o Centro e a Zona Norte da cidade. Pouco depois chegou Seu José, um serralheiro, também negro e na mesma faixa etária, um pouco mais baixo, calçando chinelos, vestindo um short e com boné, morador do Complexo do Alemão. Eles conversavam entre si. Outros três homens chegaram uns minutos mais tarde e se sentaram em silêncio. Celso, um morador da Tijuca, em torno dos 30 anos, alto, louro, vestindo uma camiseta Polo cor-de-rosa, com um escapulário de ouro (presente da sua mãe), mexendo com seu celular Samsung Galaxy. Agustín, um chileno residente no Brasil há 20 anos, que morava em Botafogo, também alto e forte, entre os 50 e os 60 anos de idade, vestia terno e trazia um pequeno livro de palavras cruzadas. Ele era o único homem por demanda espontânea no grupo, que procurou o instituto para responder a uma pergunta que o inquietava desde uns anos atrás: “o que é a violência?”. Thor considerava importante a participação dele, para dar “outra perspectiva” às narrativas sobre a violência dos homens referenciados pelo juizado. Finalmente, Alberto, um migrante vindo do Ceará que vestia calça jeans e camisa formal, morador de Santa Teresa e em torno dos 40 anos de idade.

Thor, Eliana e eu ocupamos o lugar destinado à equipe reflexiva. Carlos desligou as luzes da sala e Milena ordenou fechar os olhos – o tom de voz dela era sempre diretivo, forte e decidido – e falou para imaginar um lugar de paz, tranquilo e confortável. Após alguns minutos

de silêncio, Carlos ligou abruptamente as luzes da sala. Milena perguntou sobre o lugar que eles imaginaram. Seu José, com voz pausada, descreveu uma praia em Cabo Frio, que ele sempre frequentava para pescar de madrugada, antes do amanhecer. Ele ficava o dia todo lá, bebia “uma cerveja de leve” e almoçava o peixe que ele mesmo pescava. “Eu trabalho, trabalho, trabalho. Não dá para ficar tranquilo”, comentava ele, explicando que só nesses fins de semana, sozinho e pescando, conseguia descansar. Alberto descreveu uma serra perto de Fortaleza, que era mais fria e verde que o litoral, “nem parece o Nordeste”. A sala ficou em silêncio. Milena interpelava os outros integrantes do grupo, o estilo parecia de interrogatório. Cada vez que alguém finalizava sua intervenção, ela perguntava se não tinha mais a acrescentar. Eu via como eles ficavam em silêncio, alguns intimidados, outros desafiantes. Milena queria estimular a conversa, mas sua tentativa parecia infrutífera. Os silêncios eram desconcertantes para ela. Depois de 20 minutos de iniciado o encontro, a tensão no ambiente era palpável.

Figura 17. Carlos e Celso.

Agustín começou falar, comentando que a meditação era “a única maneira de aprender a se isolar” e o ajudava a focar para alcançar seus objetivos. Ele fazia muitas referências à sua vida como “bem-sucedida” e a comparava às “formas erradas de viver” que ele viu quando trabalhou no Nordeste e no norte do Brasil supervisionando a construção de barragens. Agustín assegurava que nesses lugares a “violência” e o “machismo” eram constantes, razão pela qual

eram “lugares com pouco desenvolvimento e com muita injustiça social”. Para ele, o Brasil deveria organizar a sociedade como no Chile, nos Estados Unidos ou na Alemanha, países com “maior equidade e participação das mulheres nas decisões familiares”. Muito seguro do seu depoimento, aconselhava os homens a não bater nas mulheres e a “evoluir como homens”, para o que eles deviam praticar artes marciais, como ele mesmo fazia. Os outros homens só olhavam para ele com desinteresse enquanto os facilitadores sorriam, concordando.

Carlos repartiu folhas brancas e algumas canetas para que eles se desenhassem como mulheres. A proposta gerou risos. Seu José rejeitou a folha, argumentando que ele não sabia desenhar. Milena insistiu na sua participação, porque “[ia] ser bom para o senhor se pensar como mulher”. “Eu tô sem óculos, mal posso ver”, respondia Seu José, e de maneira seca e serena finalmente ele disse que não sabia desenhar nem escrever. A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Mas se ele fosse desenhar, “desenharia um peixe”, disse Seu José sorridente. Já que não era possível o desenho, Milena perguntou como seria se ele fosse uma mulher. “Não é possível, não consigo imaginar, não imagino. É tão bom ser homem. Trabalho para uma mulher não existe não!”, assegurou o idoso. Milena ficou em silêncio, encarando-o. Carlos, tentando mediar, respondeu que “a mulher também trabalha o tempo todo em casa” para que os homens possam sair para a rua. Milena o olhou com igual frieza. Seu José concordou, mas destacou que elas não trabalhavam mais do que o homem. “Realmente o senhor acredita nisso?”, perguntou Milena com estranheza. Seu José, de maneira muito confiante e tranquila, respondeu que sim, “e tem algumas que não fazem nada! Como minha sobrinha, que só fuma maconha”, acrescentou ele. Todos riram nesse momento, menos a equipe de facilitadores.

Nesse momento chegou Rony, um jovem negro de quase 2 metros de altura, também de shorts, com grandes tênis, similares aos que usam os jogadores de basquete, e camiseta do Palmeiras. Ele era vendedor de CD no “camelódromo” do Mercado Popular da Uruguaiana, no centro da cidade. Rony se sentou ao lado de Seu Francisco, a quem cumprimentou de maneira amável, quase carinhosa. Milena explicou a atividade em curso e convidou-o a se desenhar como mulher. Rony respondeu gaguejando que não sabia desenhar. Dava para perceber que ninguém estava interessado pela atividade, excetuando Agustín. Milena comentou que a atividade era para saber como eles se percebiam como mulheres. Rony riu alto e perguntou: é para desenhar “minha alma feminina? ou só fisicamente?”. Ele disse que “talvez [fosse] independente, educado, não feminino”, mas que não sabia como explicar. Milena insistia em saber como era essa mulher, ao que Rony respondeu: “seria como minha mãe”. Milena ficou em silêncio e um pouco desconcertada. Com tom pausado e depois de respirar uns instantes,

ela o convidou para aprofundar a descrição dessa mulher. Sendo irônico e um pouco desafiador, Rony respondeu que “seria vítima demais”.

Milena não dava o braço a torcer e perguntou para Rony se “realmente acreditava nisso”. Rony fazia um grande esforço para responder sem gaguejar e, olhando para o chão, lhe respondeu que ele não sabia como explicar, mas que existiam mulheres que só pediam dinheiro e eram muito dependentes dos maridos. Depois ele disse que nunca se imaginou como uma mulher e que jamais tinha se perguntado como seria se fosse uma. Milena, sempre séria, explicou que naquele momento ele poderia “fazer o que nunca havia feito”, sendo isso bom para ele. “Queria ser uma mulher igual a um homem”, respondeu Rony, diante do que alguém na sala gritou “sapatão!”. Os homens riam enquanto os facilitadores mantinham uma cara séria e de reprovação. Rony, também sério, disse que seria um “bom homem” e, olhando para a facilitadora, afirmou que ele não deveria estar nesse grupo se imaginando como mulher. A discussão entre eles dois era cada vez mais tensa. Finalmente, Rony perguntou para a facilitadora como ela se imaginava sendo um homem. Milena respirou e levou uns segundos para responder: “espero que nenhum de vocês passe por uma situação de violência!”.

Depois de uns instantes de silêncio, Agustín começou descrever o desenho dele.

Eu me vejo como uma pessoa comum que não tem destaques. Ela teria 45 anos. Eu seria como minha mãe, profissional, maduro, independente. Minha mãe foi uma grande guia para mim. Ela queria que eu fizesse meu próprio caminho. Ela respeitou a minha vontade. Meu pai morreu e um ano depois ela morreu. Eram um casal perfeito, um casal unido. Eu não conheço meu lado feminino, sinceramente. É difícil conhecer o lado feminino.

Milena o interrompeu abruptamente e perguntou se ele seria uma mulher que trabalharia fora da casa. Agustín respondeu afirmativamente: “eu seria médico”. Ela insistia em saber os atributos físicos dessa mulher: “ela seria morena, alta, loura?”. Agustín descreveu fisicamente a mãe dele. Por último, Milena perguntou com qual tipo de homem ele estaria casado. Agustín ficou surpreso com a pergunta e respondeu que isso era difícil de pensar. Carlos lhe perguntou “em que lugar ou em qual cultura se imagina?”. Agustín se via nos Estados Unidos, pois “na cultura americana a mulher comanda a família e o homem só respalda suas decisões. Ela é a verdadeira chefe do lar”, acrescentando que “a cultura negra” era diferente porque era “machista”, o que causava “problemas de justiça no Brasil”. Os facilitadores o deixavam falar sem questioná-lo, não pareciam contrariados. Seu José, Seu Francisco e Rony, os três negros do grupo, se olhavam entre si com reprovação.

Milena perguntou para Seu Francisco como se imaginava sendo uma mulher. Ele respondeu que seria uma com casa própria, com condições para educar a família. Agora, com um tom mais amável, ela perguntou se ele achava ruim ser mulher ou quais seriam as vantagens de ser homem. “Liberdade!”, respondeu Seu Francisco, acrescentando que para as mulheres “esse negócio de passar por cima, de não respeitar os homens, agora está foda”. Do lugar de observação da equipe reflexiva podia ver a cara de indignação de Milena. Ela então propôs fazer um intervalo de 10 minutos e depois assistir ao curta francês a fim de sensibilizar quanto ao tema de violência contra as mulheres.

De volta à sala, Milena disse que o vídeo Maiorité opprimé27 tinha a intenção de mostrar o que “experimentam as mulheres todos os dias”. No curta, de uns 11 minutos de duração, da diretora Eleonore Purriat, os homens faziam atividades de mulheres: cozinhar, cuidar do lar, cuidar dos filhos, fazer as compras... E as mulheres faziam o que seria próprio dos homens: trabalhar, beber no bar, molestar... O vídeo apresentava não só os papéis, mas a atitude: eles eram femininos e elas, masculinas (o que não acontecia em Acorda Raimundo acorda). Aos poucos, o vídeo ia desnudando o medo que o protagonista tinha de enfrentar cotidianamente as cantadas e o fato de ser molestado na rua pelas mulheres. Ao final, ele é estuprado por um grupo de mulheres depois de rejeitar a cantada de uma delas. Na sequência, ele é levado à delegacia por sua esposa. Ali, ele é culpabilizado, nas entrelinhas, pelo estupro por andar sozinho à noite. Depois de assistir ao vídeo, a sala ficou em silêncio. Milena ressaltou que o vídeo era para que “se pensassem como mulheres”. Alberto comentou que ele nunca se imaginou como uma mulher e, no caso hipotético de se pensar como uma, seria como a mãe dele. Milena perguntou se ela seria casada e se teria filhos. Ele respondeu “quinze!”, ao que ela, de maneira irônica, acrescentou: “seria sua mãe mesmo”. Carlos expressou sua surpresa ao ver que todos se viam como as mães deles, diante do que Rony observou: “nós somos sortudos de termos boas mães”. Carlos indagou se gostaram do vídeo ou se acharam fraco. Alberto considerou que o vídeo “foi extremo porque não existe um lugar assim”. Seu José disse que no início havia pensado que o protagonista era um veado. Rony não viu “lógica alguma”, achou “sem graça” e argumentou que “os caras que desrespeitam são caras drogados, doidos de classe média alta”. Para ele, os homens não se comportavam como as mulheres do vídeo. Alberto respaldou esta afirmação. Eles dois não atentaram para como o homem personificava uma mulher, mas sim para como elas agiam ou não como homens. Rony afirmou que “não tem como inverter a situação, não tem como trocar!”. Para ele, a atitude de gênero não estava descolada do corpo:

“não [era] possível mudar de gênero”. Carlos questionou com tom irônico: “você acha que é biológico? Que não é cultural?”. Mas Rony insistia que não tinha como trocar de posição.

Voltando ao vídeo, Milena afirmou que as mulheres eram diariamente estupradas ao que Rony contrapôs que só os “psicopatas” ou os “drogados” faziam isso. O incômodo silêncio voltou por uns instantes. Agustín também considerou o vídeo “exagerado” e perguntou para os facilitadores se era verdade que todos os homens terminavam molestando e estuprando as mulheres, porque ele nunca fez isso. Carlos disse que o vídeo queria mostrar a situação das mulheres no cotidiano da vida. Agustín discordou, os outros homens também. Milena assegurou que “esse tipo de situações de violência de gênero acontecem todos os dias a todas as mulheres”:

A gente está numa sociedade machista onde os homens estão acomodados, então o vídeo mostra o inverso, como as mulheres seriam se tivessem o poder. Como as mulheres negras e pobres são estupradas. É uma realidade que não só acontece no Brasil, mas no mundo todo. A sociedade é machista, eu sinto isso quando estou na rua, eu falo porque sinto isso.

A sala de novo ficou em um tenso silêncio, o argumento de Milena não era fácil de refutar. Carlos considerava que as palavras de Milena não eram um elogio para eles. Milena continuou: “sei de amigas que são estupradas. É para a gente refletir melhor sobre o que acontece na nossa sociedade, eu sinto isso, isso acontece”. Agustín discordou de novo. Para ele, a própria mulher é a “causadora do machismo”, porque é a mãe que ensina ao filho a se relacionar com as mulheres, especialmente no Brasil, “uma sociedade não preparada, pouco culta, é uma questão cultural”. Para Rony, “cantar” era uma coisa e “estuprar”, outra. Nesse momento, ele começou a admirar o cabelo longo até a cintura, o piercing no nariz e o corpo de Milena. Para ele, expressar sua “admiração” era um “elogio” e não um “insulto”. Sua fala era “um presente” para Milena. A facilitadora ficou em silêncio e depois disse que ela “não estava ali para gostar”, porque estava trabalhando. Milena reiterou que não gostara do que Rony dissera e lhe perguntou se não achava ruim o assédio. Para ela, esta era uma forma de ser maltratada. Com tom seguro e sério, Agustín e Celso apelaram ao “respeito” por Milena. Eles dois foram respaldados por Carlos, que disse que “a cantada é uma atitude machista”.

O encontro terminou e todo mundo saiu em silêncio. Fora da sala, Rony pediu desculpas para Milena. Ela aceitou. Carlos e Thor estavam contentes, porque finalmente aqueles homens haviam começado a falar. Para os três estagiários, “tudo foi fluido”. No caminho para o metrô, Rony comentou comigo que Milena era muito parecida com Aline Riscado, a modelo do comercial da cerveja Itaipava, e que poucas mulheres eram tão atraentes como ela. Ele tinha planejado convidá-la para um pagode, ele sabia que ela gostaria...

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 69-73)