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Videre forskning

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 102-114)

6. Konklusjon

6.7. Videre forskning

Na sexta-feira seguinte, só Fabrício chegou para o encontro. Paulo não acordara bem naquela manhã e Pedro estava no médico, preparando sua cirurgia de redução de estômago. Carlos estava preocupado porque o investimento para conformar o grupo era alto e não sabia se era possível fazer um encontro com uma pessoa somente. A programação ficaria atrasada, porque não podiam trabalhar o acordo de convivência. Citando o Talmud, mas em tom de brincadeira, Thor respondeu que “quando se salva uma alma, você está salvando o mundo todo”. “Sei”, respondeu Carlos de maneira irônica. Depois, mais sério, Thor disse que eles também faziam parte do grupo e que, mesmo com uma pessoa só, eles podiam treinar.

Já na sala, após uns minutos respirando em silêncio, meditação guiada por Carlos, Thor perguntou para Fabrício como fora sua semana. “O que faz uma pessoa da sua geração quando reage a uma violência moral?”, respondeu ele com voz calma, sem gritar nem se mostrar furioso, parecendo resignado. Dois dias antes, Fabricio havia recebido um mandado de prisão pelo processo de pensão que sua ex-esposa havia colocado por um mês não pago uns anos atrás. Mostrando o documento e os recibos do banco, que demonstravam todos os depósitos de dinheiro na conta bancária da sua ex-esposa, Fabrício assegurava que ele nunca deixara de pagar e se perguntava qual era a razão para ela querê-lo na cadeia, “que tipo de direito” ela tinha sobre ele e sobre suas filhas para que o Judiciário só a beneficiasse, mas sobretudo para “sujar meu nome, minha honra”. “Essa vagabunda, essa mau caráter!” mencionava Fabrício de maneira clara, “como você consegue ter sanidade com uma pessoa dessa? Tranquilidade é tudo o que não tenho, bicho!”.

Como com outros homens que conheci no juizado de Niterói e no primeiro grupo dentro do instituto, ele opôs “o mau caráter” da mulher às suas próprias qualidades morais. Fabrício narrou que começou trabalhar a partir dos 13 anos e que nunca teve dívidas com ninguém: “cada real eu ganhei de maneira honesta, bicho!”. Só uma pessoa que “premeditou tudo com antecedência” seria capaz de “fazer tanto mal a um pai de família exemplar”, que por 21 anos contribuiu com a manutenção da sua família. Mas “tudo tem que ter um limite”, concluiu Fabrício – a mão dele tremia, apesar de a sua voz continuar modulada.

Carlos ficou “impactado” com a situação de Fabrício, compreendendo que a “raiva” que ele experimentava era acompanhada de um “desejo de vingança”, razão pela qual ele deveria “estar atento a como vai expressar essa emoção no futuro”, pois isto poderia trazer consequências ruins para seu relacionamento com suas filhas. Depois, Carlos convidou Fabrício para falar mais, de modo tal que colocasse seu “sentimento para fora” e pudesse “analisar tudo

friamente”. Carlos também lhe recomendou “manter a calma [e] não perder nem a cabeça, nem a razão”. “Eu me senti angustiada quando te ouvi”, comentou Eliana, porque “no mundo real e no jurídico” as situações não eram ideais para as pessoas. Ela compreendia a dificuldade pela qual ele estava passando e convidou-o a “interromper o ciclo de violência e pensar um outro caminho”, de modo tal que Fabrício pudesse resolver as dificuldades com sua ex-esposa. Thor explicou que no instituto eles dois poderiam “estabelecer o diálogo e tirar a justiça do meio”, explicando que, apesar de o “casal conjugal” não existir mais, eles dois tinham que “resgatar o casal parental, porque vocês dois são responsáveis pelas suas filhas”. Para Thor, a “honra” que Fabrício manifestava tinha a ver com “uma educação segundo a qual os homens têm que reagir”. Ele propôs para Fabrício “ver outro caminho para transformar a raiva em palavra [porque] você está tremendo, está com muita raiva!”.

Mas o problema para Fabrício era outro: “eu não consigo reagir, bicho, eu fico quieto e calado!”. Ele manifestava um dilema em relção ao que ele supostamente deveria fazer como homem, expressando suas palavras sempre de maneira pausada, olhando para cada um dos facilitadores e para mim.

Eu não fui criado para ser vítima não. Minha criação é para ser o atacante e não defensor. Me angustia que ela faça coisa e eu não reaja. O cobarde age pela sombra, age pela mentira. Quem tem honra, age na luz. Eu tô sofrendo por dano moral. Essa pessoa mexendo seus títeres, vai me prejudicar o dia a dia profissional. Que porra é essa? Tô tentando achar uma solução. O problema é: tem quatro pessoas em formação e essa filha da puta achando que o errado é certo! Eu tive que me acostumar ir no fórum e toda vez mexe aqui com angustia ele aponta para o centro do peito, no coração.

Mas eu não vou me colocar no papel de vítima. Vai virar contra mim? Vai virar uma bola de neve? A forma como fui educado seria para pedir satisfação, mas eu não posso, eu não sou assim. Se tem alguém querendo me prender, eu vou ficar inquieto. Ela foi casada comigo 15 anos. Desde esse acontecimento minha vida profissional foi um lastre mesmo. O que me faz muito mal no processo ter que descer no nível dela. Comecei engordar. Pego fotos de antes e começo a chorar. Agora tudo é uma merda. Ela conseguiu me transformar. Eu vou agir, não vou ficar parado. O que me fez analisar o que vale a pena. Eu não quero contato com ela, eu não vejo ela nas audiências, para mim ela morreu.

Fabrício também se descrevia como um “homem responsável”, em oposição a seu pai, que o abandonara há 20 anos atrás. Sua mãe o aconselhava para esquecer à ex-esposa, como ela fez com seu pai. “É o melhor para mim”, afirmava Fabricio respirando fundo. Ele queria “matá- la simbólicamente” de alguma forma porque não aguentava mais viver essa situação. Fabrício estava lendo o terceiro livro de Getúlio de Lira Neto (Getúlio 3 1945-1954. Da volta pela

consagração popular ao suicídio), e se comparando com o ex presidente, disse que não queria

ter essa “mentalidade covarde”, que não o deixava reagir. “Me sinto impotente, não consigo resolver tudo sozinho”, por isso procurou à instituição. “Tem quatro sendo criadas com o mal e isso me preocupa!” e tudo o que ele fazia no juizado era “com muito cuidado, para não afetar minhas filhas”, afirmava Fabrício. Nesse momento ele começou chorar. Fabrício queria seu antigo lar de volta no qual tinha “uma família estruturada”e a presença das suas filhas. Ele não queria ser amado porque “estou pagando [dinheiro]”, mas porque “o cara é foda!”, disse Fabrício se referendo a si mesmo.

Thor entendeu que ele devia “reagir” e o convidou para continuar falando no seguinte encontro. Os facilitadores estavam cansados. Eu também estava, após várias semanas acompanhando de maneira simultânea vários grupos e recebendo toda essa “descarga emocional”, que me deixava muitas vezes com “tédio” e que pretendia “entender” com Aline e Thor e posteriormente “elaborar” nas minhas sessões de analise. Todo mundo saiu em silêncio da sala, se despedindo cortesmente. De caminho para o metrô, Carlos me comentava de maneira irônica que “classe média sofre, né?” e não entendia o “mimimí” de Fabrício, que “[estava] acostumado a ter tudo na vida”. Eliana era mais compreensiva da situação jurídica dele, pois para ela “muitas mulheres de classe alta, que nunca trabalharam só querem o dinheiro do marido”, mas suspeitava que Fabrício fosse “a vítima dessa história”.

“O que acharam do relato de Fabrício?”, perguntou Thor para os estagiários no início da reunião de intervisão da semana seguinte. Para Carlos, Fabrício e Paulo “se sentem fora de qualquer esquema cidadão, não se veem como os vilãos da história e se vitimizam”. Ele considerava que não estavam assumindo a responsabilidade das suas violências e se perguntava também de maneira cáustica, “o que sobrou para o homem de classe média nesse mundo de cotas?”. Thor contou a história de Michael Kimmel, quando o sociólogo percebeu “seu lugar neutro, a partir do qual pensam os homens” e reconheceu que “seu rosto no espelho não era mais do que um ser sem gênero, raça ou classe social”. Thor explicou que “os homens são os seres historicamente beneficiados”, enquanto “as mulheres estavam historicamente oprimidas”. Esta era a razão pela qual elas podiam “enxergar o lugar de poder desde longe e desde baixo”. Os homens não podiam “ver seu próprio foco de poder”. A pertinência do grupo reflexivo consistia em que os homens pudessem “se deslocar do centro de referência [e] enxergar seu próprio poder por meio da reflexão sobre as suas relações com as mulheres”. “E se colocando no lugar delas...”, completou Eliana.

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