5. Diskusjon
5.9. Spesialkost og næringstett kost
Acompanhei Thor fora do instituto em várias reuniões da rede de atendimento às vítimas de violência doméstica e em seminários organizados por instituições do Judiciário ou do
governo estatual que discutiam a implantação da Lei Maria da Penha. Grande parte do seu trabalho, além do atendimento em consultório, era como gestor do projeto, para o qual ele devia estabelecer alianças com funcionários e outras organizações não governamentais. Seu objetivo era captar recursos financeiros, localizar o público beneficiário dos grupos e vincular “voluntários” que quisessem aprender a respeito da facilitação. Este era o “trabalho em rede” que Thor considerava fundamental para desenhar ações de prevenção mais concretas em postos de saúde, feiras de serviços, como as que aconteciam em 8 de março, Dia da Mulher, ou em marchas contra a violência, no dia 25 de novembro.
Thor era reconhecido por seu trabalho com homens, em função do qual ele era convidado a dar palestras para públicos vinculados com a implantação da Lei Maria da Penha ou com a prevenção de violência em serviços de saúde. Ele sempre iniciava suas apresentações justificando a pertinência do “pensamento sistêmico” e do “construcionismo social”, bases epistemológicas que lhe permitiam trabalhar as “situações de violência” como relacionamentos complexos, com uma história, nos quais o papel do agressor mudava dependendo do momento. Thor aprendeu na sua passagem pelo Instituto Noos essa maneira de abordar conflitos, fazendo parte das “formações”, das especializações lato sensu que muitos psicólogos faziam para o aprofundamento em certas áreas do conhecimento e o aprimoraramento de técnicas de atenção. No mesmo instituto, ele fez parte dos grupos iniciais com Fernando Acosta, Alan Bronz e Carlos Zuma, e acompanhou o projeto dos policiais militares que passaram de “cavalos corredores” a “gazelas saltitantes”. Após trabalhar alguns anos nessa organização, Thor fez um mestrado em terapia de família, como tantos outros psicólogos da sua geração, uma formação reichiana com Fernando Acosta, e chegou a ser gestor do projeto SerH da cidade de São Gonçalo, trabalhando intensamente para melhorar o atendimento a homens vinculados a processos de violência.
Nos últimos meses de 2013, ele ingressou no Instituto de Práticas Sistêmicas, uma jovem organização fundada por psicólogos terapeutas de família, educadores populares e sociólogos interessados no trabalho de empoderamento “fora do consultório”. Em parceria com Promundo e uma agência de cooperação do governo da Holanda, ele foi coordenar o projeto atual sobre engajamento de homens na prevenção da violência de gênero e na “criação positiva”. O objetivo do projeto era que, na medida em que os homens se vinculassem “ativamente” à criação e à construção das masculinidades dos seus filhos, sua relação seria “mais igualitária e menos violenta”, tendo como resultado o melhoramento da qualidade de vida individual, familiar e comunitária e, consequentemente, a transformação da cultura patriarcal.
O “encontro com o gênero” de Thor aconteceu quando participava de algumas oficinas e conferências do sociólogo norte-americano Michael Kimmel, que veio ao Rio de Janeiro convidado por Gary Barker. Thor comentava quase fascinado como Kimmel narrava o descobrimento dos seus “privilégios como homem branco”. O sociólogo comentava que nas oficinas com mulheres nos Estados Unidos era usual uma atividade na qual elas se observavam em um espelho e o facilitador solicitava para que descrevessem o que viam: “sou uma mulher, negra, latina, idosa, com x, y, z características...”, parafraseava Thor, mas quando Kimmel pegava o espelho, “só via um homem”. Naquele momento, afirmava Thor, ele compreendeu que era o “centro de referência” a partir do qual todo mundo se pensava. Para Thor, isso foi quase uma revelação, que lhe permitu ver o “lugar de poder dos homens [e] a dificuldade que muitos deles têm para escutar e reconhecer o outro”. O encontro com Kimmel motivou-o para indagar mais sobre “as masculinidades” e trabalhar a favor de “outros exercícios de ser homem”: menos autoritários e, pelo contrário, reconhecedores dos pontos de vista daqueles que não eram centro de referência.
Nas palavras de Thor, o “gênero dos homens” fez com que elaborasse “meu próprio processo pessoal” quanto a uma relação conflitiva com o pai: “um homem autoritário e pouco afetivo”, com quem teve uma relação difícil. Algumas das lembranças da sua infância correspondiam à “sensação de ter medo do meu pai”. Thor assegurou que seu pai nunca batera nele, nem em outro membro da sua família, mas às vezes ficava irritado, rasgava as revistas das crianças e certa vez quebrou coisas, como um instrumento musical, durante uma briga familiar. Thor era um menino “muito certinho [...], muito chorão e sensível”, que não jogava futebol – ele nunca era escolhido pelos colegas para fazer parte de um time – e que se entregava “de forma apaixonada” nas suas relações amorosas. “Meu pai ficava louco com essas coisas todas ... quando eu era criança, adolescente, eu sempre estive em rota de colisão com meu pai”. Thor era o filho mais velho de um “casal judaico tradicional”, que procurava que o primogênito encarnasse o “modelo de ser homem” que seu pai representava. Ele tinha que ser “o cara”, “mais malandro [e] menos entregue a seus relacionamentos”. Para Thor, seu pai representava a “masculinidade hegemônica”, o que “criou um trauma e também uma sensação de disfuncionalidade em relação a outros homens”.
Thor também cresceu durante a redemocratização do Brasil e compartilhava o ideário libertário de alguns movimentos de vanguarda artística e intelectual da Zona Sul do Rio de Janeiro. Em contraste, seu pai era um homem que “vivera o espírito da ditadura”, acreditando na “autoridade” como maneira de organizar a vida pessoal, familiar e social. “O ambiente social de transformação” foi o pano de fundo para o conflito com seu pai. Entre risos, Thor comentava
que esse conflito não era mais uma questão para ele. Os grupos dos quais participou, as referências sobre gênero e outras afirmações de masculinidade o ajudaram a “fazer dessa história parte de mim, mas não o que me define como pessoa”. Em 2015, Thor se descrevia como uma pessoa com um “temperamento muito diferente” daquele de seu pai, interessado pelo budismo, pela medicina ayurveda e recentemente pela psicanálise. Sem se considerar um ativista, ele apoiava causas, organizações e movimentos interessados na equidade de gênero e colaborava com o desenvolvimento de projetos focados na resolução de conflitos familiares.
Figura 18. Thor.
A história pessoal de Thor era em alguma medida pública. Em alguns seminários nos quais ele participou como palestrante, iniciava sua exposição narrando várias passagens da sua relação com o pai, para depois comentar a “experiência transformadora” dos grupos reflexivos de gênero. Com isto, ele criava simpatizantes da proposta, demonstrando que era possível vencer a reprodução do autoritarismo, o machismo e formas de violência relacionadas à masculinidade, elaborando sentimentos e falando de si mesmo. Esta era uma estratégia que o ajudava a colocar para plateias resistentes o tema de trabalho com homens, em que a figura da vítima era valorizada para discutir políticas e formas de intervenção estatal. Falar publicamente da sua experiência também servia para dar testemunho de como a “transmissão da masculinidade hegemônica” podia ser interrompida, permitindo a expressão de “formas alternativas de ser homem”. Ele mesmo era exemplo disto. Uma das mensagens que Thor enfatizava era que “é possível ser outro homem” e que o investimento no trabalho de grupos
reflexivos “[estava] sintonizado com a causa das mulheres. Apesar do ceticismo de algumas delas, “uma masculinidade não violenta e reconhecedora das mulheres é possível”.