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Matens sensoriske kvalitet

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 30-35)

2. Teoretisk referanseramme

2.7. Matens sensoriske kvalitet

Fiquei interessado em conhecer melhor Heitor, pois ele e Josué eram referência para os outros homens dentro do grupo. O argumento colocado por eles era escutado com atenção, seja para concordar, ou para entrar em confrontação. Assim que Heitor abandonou o grupo, uns encontros mais tarde, ele me convidou para conversar na sua casa na vizinha cidade de Maricá, na Região dos Lagos, a leste de Niterói. No quintal e na sala da casa, nós dois conversamos sobre sua vida, focada no processo jurídico. A mãe dele sempre foi amável comigo, depois de oferecer um café, ela saía e nos deixava sozinhos. Na sala da sua casa havia muitas fotos dele com sua “pequena princesa”, várias delas do seu último aniversário, em que a criança aparecia fantasiada de heroína da Disney, acompanhada do seu pai, sempre sorridente e vestido de príncipe. Outras fotos eram do seu segundo casamento e dele com sua mãe. A narrativa de Heitor era bastante precisa em relação às datas e às circunstâncias nas quais aconteciam as agressões. Sua vida estava marcada pela relação com o Judiciário e sua tentativa de sair livre da acusação de infrator.

Heitor era filho único e perdeu seu pai quando ainda era uma criança. Ele o descreveu como um “homem autoritário, grosseiro e desrespeitoso”, que contrastava com a “humildade” e a “generosidade” de sua mãe. Desde pequeno, Heitor trabalhou para ajudá-la e se destacou como um aluno exemplar na escola. Conheceu Joana quando ele tinha 15 anos de idade e ela 13, tendo sido ela sua primeira namorada. Aos 17 anos começaram sua vida sexual, fato que causou problemas com os pais de Joana que, “apesar de [serem] religiosos”, a golpearam em repetidas ocasiões por “ter perdido a castidade”. Os episódios de violência contra a adolescente continuaram durante meses, até que ela decidiu fugir de casa. “Eu me sentia responsável pelo bem-estar de Joana” e chamou-a para morarem juntos em uma comunidade em Niterói. A mãe

dela, uma policial civil, fez um registro de “rapto consensual e aí começou essa história com o Judiciário em 2001”.

Eles viveram juntos “cercados de imaturidade e de medo”. Heitor era estagiário em uma empresa de construção e ela, sem perspectiva profissional, não se mostrava interessada em trabalhar nem estudar. Ele foi perdendo seu interesse por ela. O casal brigava frequentemente; ela era agressiva, mordendo-o e lançando-lhe objetos. Um dia, sua mãe lhe disse que ele também se mostrava agressivo e que se irritava facilmente com ela, a mulher que mais admirava e queria bem. Heitor percebeu que o relacionamento com Joana não era bom para ele:

essa não era uma relação para mim, pela maneira que ela iniciou, por conta de um conflito. Ela, por ter essa história de violência, tentava reproduzir essa violência comigo em casa. Isso vai te modificando, se você não é violento, mas é frequentemente violentado, chega um momento em que você acaba querendo se defender, você acaba agredindo.

Heitor queria se separar, mas ainda se sentia responsável por ela. Heitor não queria que Joana voltasse para a casa dos pais porque sabia que ia ser maltratada. O jovem casal foi morar no quintal da casa da mãe e ao longo de alguns meses eles tiveram curtas separações. Joana voltava arrependida, pedia desculpas e uma segunda chance, que ele sempre concedia, porque acreditava que em algum momento ela mudaria e focaria no relacionamento. Heitor iniciou seus estudos em enfermagem e começou sua carreira, mas “eu não estava feliz” e queria sair desse “ciclo de violência”. Quando decidiu se separar, depois de uma briga no início do ano de 2008, ela comentou com ele que estava grávida da sua filha. Heitor não teve coragem de abandoná- la.

Com o nascimento da sua pequena princesa em julho de 2008, “Joana se tornou outra mulher”. Ele havia passado no concurso para bombeiro militar e tinha plantões de 36 ou 48 horas. Quando ele chegava em casa, não permanecia muito tempo ali, devido às brigas: “ela não era a mãe exemplar que eu esperava que fosse, se tornou um monstro”. Joana não gostava da presença da sua sogra, mas ele não podia fazer nada porque dependiam dela; em última instância, o casal morava no quintal da casa materna. Uma noite, a criança não parava de chorar e a mãe de Heitor foi ajudar Joana, apaziguando a menina, ela a fez dormir e explicou à jovem mãe como fazer para que a criança regulasse o sono. Joana se sentiu ofendida e disse para ela que não precisava da sua ajuda, mandando a sogra embora. Quando Heitor reclamou, Joana disse para ele que sua mãe foi “mulher de muitos homens, para não repetir como ela realmente a chamou”. Heitor não acreditava que ela desrespeitasse a única pessoa que os estava ajudando e a mandou sair de casa. No dia 31 de dezembro, ele estava de plantão por 24 horas e Joana e a

mãe dela pegaram a criança e foram à delegacia. Cinco dias depois Joana desistiu da denúncia, mas “ficou aquela marca, uma pessoa em quem não posso confiar, minha filha tinha seis meses”.

Um ano mais tarde, ele alugou uma casa e o casal foi morar de novo em Niterói, “com a esperança de que ela se tornasse uma pessoa melhor”: menos agressiva, mais atenta e melhor mãe e esposa. Na mesma época o irmão de Joana virou réu de um caso de assassinato de um homem, do qual ele foi beneficiário de um seguro. Joana solicitou a ajuda de Heitor para pagar o advogado, mas ele se recusou: “meu dinheiro vem de trabalho suado e honesto”. Heitor não queria ajudar um “golpista”. Joana “surtou” e o agrediu de novo. Ele voltou para Maricá, mas a filha ficou em Niterói com a mãe. Repetindo “o mesmo padrão de conduta”, ela pediu uma segunda chance. Heitor estava cada vez mais inconformado e solicitou ajuda ao psiquiatra do batalhão. Ele se sentia “irritado” e não conseguia separar os problemas familiares do trabalho. O psiquiatra diagnosticou “transtorno de ansiedade e depressão”, medicou-o e encaminhou-o para terapia. Após o período de terapia decidiu se separar:

Eu comecei a tomar consciência de que eu não era o responsável de todo o drama que ela sofreu na vida dela. Se aquele relacionamento não estava bom, eu tinha que me desfazer daquilo. Eu não tinha que carregar aquilo comigo. Eu precisava não ter mais essa culpa, essa culpa não era minha. Eu me sentia responsável pela vida dela, mas me dei conta que não. A vida é dela.

Com o dinheiro da sua poupança, Heitor comprou uma casa para Joana e sua filha morarem. Em setembro de 2010 ele se separou, mas ela não quis aceitar. Joana e a mãe foram para a delegacia. Ele as encontrou fazendo o registro, conversou com o policial e explicou todo o acontecido com o irmão dela. Passados 15 dias, ela desistiu do processo na promotoria e voltou às tentativas de retorno. “Agora não, agora não vou voltar, a única coisa que eu queria era minha filha perto de mim e que pudesse equilibrar o cuidado dela, mesmo separados”. Durante algum tempo eles compartilharam a guarda da criança, mas “toda essa guerra que me levou ao Judiciário lá em Niterói, onde você me conheceu, foi a partir do momento em que eu conheci a minha atual esposa”.

Em dezembro de 2011, Heitor deveria acompanhar sua mãe ao hospital para uma intervenção ambulatorial. Estando lá, a escola ligou para avisar que a pequena estava com febre alta e teria que pegá-la, já que não conseguiam localizar Joana; ela estava em um churrasco comemorando com colegas de trabalho o fim do ano. Heitor pegou a menina, levou-a para o hospital e depois voltaram para casa. A atual esposa de Heitor, que também era enfermeira e o namorava havia três meses, chegou para auxiliá-lo. Horas mais tarde, Joana foi pegar a menina

e aconteceu o encontro que Heitor estava evitando. Pela experiência de um breve namoro, meses antes, ele sabia que não era conveniente que Joana conhecesse sua namorada, porque não pararia de fazer cenas de ciúmes. A mãe de Heitor insistia para Joana pegar a menina e voltar para casa, mas ela persistia em ficar. Joana empurrou o portão para entrar, ferindo a mãe de Heitor, que se recuperava de uma biópsia.

Joana começou a ofender minha namorada, arranhou ela no rosto, a minha mãe, Marco, aquilo foi me dando uma revolta tão grande que eu, nessa confusão, eu agredi ela, eu peguei ela pelos cabelos e a arrastei até a parte externa da casa e falei assim: “agora você vai levar aquilo que há muito tempo está merecendo levar”, e dei uma surra nela. Dei uma surra nela! Levei até o portão da minha casa, arrastando pelo cabelo, como um animal, como homem das cavernas, arrastando. Ela se jogou na rua, fingiu que estava desmaiada e, quando fui fechar o portão, ela levantou que nem uma louca e entrou novamente para bater na minha namorada. Ela só saiu quando eu falei que ia entrar em casa para pegar um balde de água gelada. Aí ela foi embora e fez um registro na delegacia de que tinha sido agredida. E foi agredida mesmo. No dia seguinte eu fui lá e perguntaram se eu tinha agredido, e eu falei “agredi sim”. “Você bateu?”. “Bati”.

Heitor falava sereno, sem “culpa”. Seu ato não foi premeditado, mas também não foi impulsivo. Após várias tentativas de argumentar com Joana que o relacionamento não funcionava mais, ele não queria escutar a constante queixa e a reclamação sempre insatisfeita de Joana. Qualquer coisa que ele fazia ou deixava de fazer era motivo para uma briga, e ele já estava cansado de não ser escutado. Mas foi no momento em que Joana agrediu sua mãe e sua namorada que ele ficou “revoltado” e partiu para a agressão. Esse era um limite que Joana não podia traspassar. Naquela hora Heitor só queria deter a maneira com que Joana agia e mostrar que ele não era “responsável” pela desgraça dela.

Heitor narrou tudo para o policial, reconheceu a agressão e explicou o acontecido. Ele a acusou de ser a causadora da violência, sendo ele, sua mãe e a namorada as “vítimas nessa história”. Como no grupo, ele colocou a situação hipotética de que, se ele tivesse ido à casa dela por estar inconformado com a separação, ele seria preso sem possibilidade de defesa. Joana abandonou a casa e foi se refugiar na casa dos pais por 45 dias. Após outra briga entre Joana e seus pais, ela pediu para retornar à casa de Niterói que ele havia comprado. Heitor não negou o pedido porque pensava no bem-estar da sua “pequena princesa”. Através do advogado dela, Heitor conseguiu ficar com a criança por um fim de semana, mas “ela não parava de ligar a cada cinco minutos”, a cada vez que lhe correspondia a guarda da menina. Em um desses fins de semana, ele desligou o telefone para ter sossego. Ao não localizá-lo, Joana ligou para o

comandante do batalhão e disse que Heitor havia sequestrado a filha, estabelecendo uma denúncia penal militar. “Isso virou um problema enorme!”.

Quando Heitor foi entregar a criança, Joana gritou que corria perigo, que ele ia bater nela de novo e chamou a polícia militar para conduzi-lo à delegacia. Ele ficou esperando os policiais do lado de fora de casa, mostrando que ela gritava com a criança no colo e que, pelo contrário, ele tentava acalmá-la. “O policial ficou sensibilizado com ela pelo fato de ser mulher”. Na delegacia, Heitor narrou em detalhes as inconsistências desse caso, porque o agente encarregado de elaborar o boletim de ocorrência pegou a narrativa de Joana e a colocou- a como se fosse a do policial. Heitor atribuiu isto ao fato de o policial ser um conhecido da mãe de Joana. O juiz outorgou a medida protetiva, mas ela a usou “para outros fins”: Joana abandonou o imóvel e trocou os cadeados. Heitor teve que ir à delegacia para fazer um “registro de exercício arbitrário” para abrir os portões da sua casa. Joana, acompanhada da sua mãe, iniciou uma ação de esbulho e reintegração de posse em janeiro de 2012. A juíza, com base na medida protetiva anterior, deu a reintegração para ela. Até o momento dos nossos encontros (2015), Heitor estava no processo de recuperação da sua casa.

Sua filha ia ser dama do seu casamento, mas Joana não permitiu, mesmo sendo este o fim de semana de visitação que lhe correspondia . Ele foi à delegacia e fez o “registro de fato atípico”, mas o mesmo policial, “de má vontade”, não o fez porque esta era uma “questão de família” e o direito penal não tutelava esses atos. Heitor argumentou que Joana havia descumprido uma ordem judicial que lhe permitia a visitação nesse fim de semana e isto cabia no direito penal. Ele ficou outros 45 dias sem ver sua filha.

Depois, quando lhe correspondia pegar a criança, ele solicitou à diretora da escola que a mãe se afastasse para não descumprir a medida protetiva. Joana perguntava por que tinha que se afastar, ele insistia que queria fazer cumprir a ordem que ela mesma solicitou. Heitor falou para a diretora que sabia como era ela e que iria à delegacia para fazer um registro. Efetivamente, Joana foi à delegacia e fez o registro de descumprimento e ameaça. O juiz então encaminhou-o para o grupo reflexivo e colocou mais uma medida: ele não podia ter contato com Joana em espécie nenhuma. “Eu vou ficar colecionando medida protetiva que eu mesmo quero, mas que ela vai descumprir”. Heitor teve que documentar cada movimento que fazia, chegando a acumular cinco volumes do processo de guarda e outros tantos dos outros processos ainda vigentes, que me mostrava para dar veracidade à sua história: “a cada confusão eu fazia registro”. Heitor aprendeu a dialogar com o Judiciário para demonstrar sua integridade e se diferenciar dela que, “com a posse do lugar de vítima”, mobilizava a maquinaria burocrática para submetê-lo.

In document MASTEROPPGAVE Samfunnsernæring 2014 (sider 30-35)