Jung defronta-se com uma questão, isto é, uma objeção já feita anteriormente pelo médico, filósofo e psicólogo alemão, Wilhelm Wundt (1832-1920), no que diz respeito aos mesmos fenômenos integrarem tanto à consciência como o inconsciente. Jung (1998, p. 179) descreve a argumentação de Wundt:
[...] não se pode em hipótese alguma falar em ‘sensações’, ‘representações’ e ‘sentimentos’ ou mesmo ‘ato de vontade’ inconscientes, porque estes fenômenos não podem, evidentemente, ser representados sem um sujeito que os experimente.
Nesse sentido, pode-se depreender que aqueles conteúdos instalados sob a forma subliminar ficam confinados, isto é, separados por uma linha demarcatória, o limiar. Para Jung (1988, p. 179), “a idéia de limiar de consciência pressupõe um ponto de vista energético”. Por isso, ele sustenta a idéia de que os conteúdos psíquicos dependem da energia que esse limiar pode fornecer. E supõe:
Da mesma forma que somente um estímulo de certa intensidade é suficientemente forte para ultrapassar o limiar, assim também pode-se supor, com certa razão, que outros conteúdos psíquicos devem possuir um grau superior de energia, para poder transpor o limiar.
“Se eles possuem apenas uma pequena quantidade de energia, permanecem em estado subliminar, como os correspondentes estímulos sensoriais”, considera Jung (1998, p. 179). Neste ponto, a referência que esse autor estabelece está voltada para os conteúdos subliminares que podem ganhar força e virem a fazer parte da consciência. Esta postulação de Jung (1998, p. 181) está embasada na concepção de dissociabilidade da psique, e por isso afirma:
Se é, em tudo e por tudo, correto dizer que os conteúdos conscientes, se tornaram subliminares e, por isso mesmo, inconscientes, em decorrência da perda de energia, e que, inversamente, os processos inconscientes se tornam conscientes devido a um aumento de energia, então para que os atos inconscientes de vontade, por exemplo, sejam possíveis, é necessário que esses processos possuam um potencial de energia capaz de os levar ao
estado de consciência, mas a um estado de consciência secundária que consiste no fato de o processo inconsciente ser “representado” para um sujeito subliminar que escolhe e decide.
A concepção de sujeito a que ele atribui é que se torna difícil, quando se lida com supostos atos de vontade, de “escolha” e de “decisão”, segundo Jung (1998, p. 180), “não se pode deixar de admitir a existência necessária de um sujeito que as controle e para o qual alguma coisa foi ‘representada’”. Jung (1998, p. 181) entende que para esse sujeito subliminar possa ser conduzido para o estado de consciência, faz-se necessária uma grande quantidade de energia para romper o limite que o separa desse nível. Diante disso, Jung lança a questão: “por que o processo inconsciente não cruza realmente o limiar da consciência e não torna perceptível ao eu”. Ele mesmo responde afirmando que, por mero acaso, ocorre a separação entre a consciência secundária e a consciência do eu, ou seja, uma dissociação, no entanto, essa separação se deve a determinados motivos.
Jung (1998, p. 182) explica os dois aspectos distintos. O primeiro, segundo ele, “trata-se de um conteúdo originariamente consciente que se tornou subliminar ao ser reprimido por causa de sua natureza incompatível”. Já no segundo caso, afirma que:
o sujeito secundário consiste em um processo que jamais pode penetrar na consciência, porque nesta não há a mínima possibilidade de que se efetue a apercepção desse processo, isto é, a consciência do eu não pode recebê-lo, por falta de compreensão, e, por conseguinte, permanece essencialmente subliminar, embora do ponto de vista energético, ele seja inteiramente capaz de tornar-se consciente. Ele não deve sua existência à repressão, mas é o resultado de processos subliminares e como tal nunca foi consciente.
O primeiro já havia sido consciente, o segundo não. Esse autor (1998, p. 182) aponta que, em ambos os casos, decorrente da capacidade de energia para conduzi-los ao estado de consciência, o sujeito secundário atua sobre essa consciência de forma indireta. De início os conteúdos que aparecem na consciência são “sintomáticos”, isto é representantes indiretos de processos inconscientes. Na medida em que o sujeito acredita saber ou sabe a que esses conteúdos estão se referindo, Jung afirma que ele são “semióticos”. Muito embora
reconheça que a literatura freudiana emprega o termo “simbólico”, ao fazer referência a algum tipo de representação.
Jung (1988, p. 261) aponta ainda para o fato de que o sonho pode conter vestígios subliminares da memória os quais não detêm energia suficiente para influenciarem a consciência. Jung (1998, p. 382) reforça que:
[...] embora o inconsciente seja um receptáculo de tudo quanto foi esquecido, que passou ou foi reprimido, é também a esfera onde tem lugar todos os processos subliminares, como por ex., as percepções sensoriais que são demasiado fracas para atingirem a consciência, e, por último, também a matriz de onde brota todo futuro psíquico.
Contudo, Jung (1998, p. 383) afirma ser impossível saber de antemão a respeito do estado das coisas que se passam no inconsciente. E esclarece: “o inconsciente parece-nos como um grande x a respeito do qual a única certeza que temos é a de que dele resultam efeitos importantes”. Para ele concluir algo sobre o inconsciente, não passaria de suposição. Nesta passagem, Jung (1998, p. 191) esclarece um aspecto do conceito de inconsciente:
O inconsciente não se identifica simplesmente com o desconhecido; é antes o psíquico desconhecido, ou seja, tudo aquilo que, supostamente não se distinguiria dos conteúdos psíquicos conhecidos, quando se chegasse à consciência. Além disso, é preciso acrescentar aqui o sistema psicóide, a respeito do qual nada sabemos diretamente. Assim definido, o inconsciente retrata um estado de coisas extremamente fluido: tudo o que eu sei, mas em que não estou pensando no momento; tudo aquilo de que um dia eu estava consciente, mas de que atualmente estou esquecido; tudo que meus sentidos percebem, mas minha mente consciente não considera; tudo o que sinto, penso, recordo, desejo e faço involuntariamente e sem prestar atenção; todas as coisas futuras que se formam dentro de mim e somente mais tarde chegarão à consciência; tudo isto são conteúdos do inconsciente. Estes conteúdos são, por assim dizer, mais ou menos capazes de se tornarem conscientes, ou pelo menos foram conscientes e no momento imediato podem tornar-se conscientes de novo. Nesse sentido, o inconsciente é a
fringe of consciouness [uma franja da consciência], como caracterizou, outrora, William James.
James (apud Jung, 1998, p. 191) apresenta o conceito de transmarginal field da consciência identificando-o com consciência subliminar em Frederic W. H. Meyers, um dos fundadores da Sociedade Britânica de Pesquisa em Psicologia Clínica. James assevera:
O importante fato que esta fórmula de campo lembra é a margem. Desatentamente percebida qual é o assunto que a margem contém, está contudo lá, e ajuda ambos a guiar nosso comportamento e determinar o próximo movimento de nossa atenção.
Dentre as diferentes faculdades do homem, Jung (1998, p. 127) destaca quatro delas que sempre estiveram presentes na consciência. Ele concebe a consciência, a priori, como um órgão orientador em um mundo em que interagem fatos exteriores e interiores. A primeira, a que ele denomina por sensação, é a que constata que algo existe e trata-se da percepção em geral. A segunda, pensamento, é a faculdade que interpreta o que foi percebido. Nesta, o objeto de percepção é transformado em conteúdos psíquicos em uma quantidade bem superior em relação à primeira. A terceira, sentimento, constata o valor do objeto. Ele afirma que “O sentimento coloca o sujeito e o objeto em tão estreita relação, que o sujeito deve escolher entre a aceitação e a recusa. E, por fim, a intuição, que ele aponta como uma função da percepção relativa ao subliminar. Ele define como “a relação possível com objetos que não aparecem no campo de visão, e as mudanças possíveis, tanto no passado como no futuro, a respeito das quais o objeto nada tem a dizer” (JUNG, 1998, p. 128). E complementa que “a intuição é uma percepção imediata de certas relações que não pode ser constatada pelas outras três funções”.
Daqui pode-se depreender que intuição ocorre na consciência, porém resultante de percepções que não foram identificadas pelas faculdades da sensação, pensamento e sentimento. Sendo assim, trata-se das percepções subliminares.
Passemos para a concepção de subliminar pelo viés de análise da psicologia. Mensagens construídas intencionalmente para afetar mentes humanas são o que Tiski- Franckowiak (2000a, p. 57) chama de indução subliminar. São estímulos empregados pela mídia para inclinar ao consumo inconsciente ou provocar adesão a idéias, valores e atitudes. A autora chama a atenção para fato de que muitos publicitários usam o termo subliminar para tudo que é dissimulado. Aponta, entretanto, para uma questão que requer conhecimentos mais profundos sobre o funcionamento cerebral, e como as informações cerebrais se processam. Dessa forma é possível distinguir a resposta de um estímulo condicionante e a resposta de um estímulo subliminar. Tiski-Franckowiak (2000a, p. 60) explicita: “Tudo pode ser condicionado pela repetição e reforço positivo, mas nem tudo que é condicionado pode ser subliminar”.
Assim sendo, as projeções taquicoscópicas são postas em xeque se considerado o tempo de exposição (repetição intensa em curto espaço de tempo). Essa técnica equivale a uma prática condicionante e não a um procedimento que produz respostas subliminares, propriamente ditas. Para essa autora, o fator tempo de exposição é o que distingue a natureza do estímulo. Um estímulo é subliminar se seu conteúdo, além de emocional, estiver ligado a uma experiência anterior do sujeito. Considerando essas particularidades subjetivas, Tiski-Franckowiak (2000a) afirma que o estímulo subliminar exige maior tempo de exposição. E, a indução subliminar é, muitas vezes, uma produção sem resultado, implicando na perda de tempo e dinheiro. Em se tratando de condicionamento, a intensa repetição de um estímulo é caracterizado, por ela, como uma arma de massacre mental.
Um exemplo de estímulo subliminar é o de uma pessoa que vai ao supermercado com fome e compra, entre outras coisas, uma abóbora, induzida pela cor subliminar amarelo-vermelhada, que afeta o sistema nervoso autônomo. Explica que no momento, o indivíduo, diante daquele estímulo, tem a sensação de que a abóbora é essencial para ele. Mais tarde, conclui que nada daquilo procede. No entanto, naquele momento, viu-se seduzido por algo capaz de fisgar-lhe o desejo de adquirir o produto (TISKI- FRANCKOWIAK, 2000a, p. 57).
O ponto nevrálgico das concepções de subliminar é o que se refere aos efeitos. Que há efeitos, a maior parte afirma, de fato. No entanto, mensurar, quantificar, apresentar na ordem dos números resultados decorrentes da eficacidade desses efeitos, parece esbarrar em fragilidades as quais ao tentar se aproximar do objeto, mais ele próprio se torna fugidio.