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Ao lado direito, no sentido Norte de quem está de frente à igreja, moram o Sr. Zezito e a esposa, D. Dezilda; D. Lúcia Cunha e D. Terezinha. Ali, trabalha o Sr. Reinaldo Oliveira, cuja família tem uma loja comercial, “O Globo”, desde 1930, quando a antiga mercearia se chamava “O Tupi” e pertencia ao patriarca da família, o Sr. Fenelon de Oliveira, já falecido, a quem muitos atribuem ter ficado sob sua guarda, no quintal da própria casa, a cruz de pau-brasil, “marco original” da cidade de Nova Cruz. Ao lado esquerdo, descendo à Rua Dr. Pedro Velho, fica a casa paroquial, onde entrevistei Pe. Adelson. Um pouco mais adiante, mora D. Euzébia Bahia Vasconcelos, na secular casa de seus pais, na rua Diógenes da Cunha Lima117, outrora rua do Vintém118, decerto um

topônimo referente ao movimento do comércio no referido espaço, principalmente no início do século XX.

Em se tratando de urbanismo, a cidade de Nova Cruz, depois da capital, “foi a primeira que teve ruas calçadas a paralelepípedos, na administração do prefeito Antônio Arruda Câmara, de fins de 1933 a 1935. Empreendimento que continuou a ser realizado na gestão de Mário Manso.” (CÂMARA, 1943, p. 257). Esse evento traz para o campo do discurso referente à Nova Cruz mais elementos que compõem sua visibilidade no contexto sócio-espacial da região e nos permite a reflexão acerca das relações políticas locais, levando-nos a inferir que Nova Cruz estava articulada ao cenário político nacional119.

117 Logradouro em homenagem à tradicional família Cunha Lima: o Sr. Diógenes da Cunha Lima, paraibano, proprietário de uma loja de tecidos, “A Nova Paulista”, na rua Dr. Pedro Velho. Nas palavras do filho Diógenes, “a família fixou residência próxima à estação, na década de 40 [século XX], na próspera cidade de Nova Cruz.” (Entrevistado em seu escritório de advocacia, em Natal, dias 17/01/2002 e 30/08/2004).

118 Vintém é a antiga moeda de cobre, de Portugal e do Brasil, equivalente a 20 réis.

119 Na tentativa de contextualização, descrevemos, resumidamente, o cenário mundial/nacional/local: Na década de 30, houve a grande crise do capitalismo (pós-29, quebra da Bolsa de Nova York); a eleição de Júlio Prestes para a presidência do Brasil; o assassinato de João Pessoa, governador da Paraíba. Em outubro de 1930, no cenário político nacional, iniciou-se um largo período em que Getúlio Vargas foi a figura predominante. No mesmo ano, aconteceu em Natal, no mês de fevereiro, o Comício da “Caravana Democrática” (Aliança Liberal, partido de Antônio Arruda Câmara). Em 1935; Junta Governativa entrega o poder a Getúlio Vargas. No mês de novembro de 1935,a Intentona Comunista (MONTEIRO, 2002, p. 299).

No jornal A República120, do ano de 1935, lemos às atas das sessões na Assembléia

Legislativa, em referência à Intentona, dentre elas os discursos do novacruzense, o Deputado Djalma Aranha Marinho (Aliança Social) que, mesmo sendo adversário político do então prefeito Antônio Arruda (Partido Popular), enfaticamente reitera que “neste momento não é a Aliança Social nem o Partido Popular, é o Rio Grande do Norte que está de pé na defesa de sua honra e de sua integridade.”

Há que se lembrar que o campo da história política evidencia, mais do que qualquer outro, os laços intrincados entre essa forma de conhecimento e o poder, “os laços entre uma história política vivida e uma história política escrita por memorialistas e historiadores.” (BORGES, 2003, p.160).Vejamos o relato oral do prefeito de Nova Cruz, Cid Arruda, neto do ex-prefeito Antônio Arruda Câmara:

O primeiro calçamento de frente da igreja foi feito pelo meu avô, que foi interventor e depois prefeito. Na época existia uma grande polêmica em relação ao calçamento, que era sinal do progresso, mas existia também uma grande resistência em relação ao calçamento. Na época, muita gente achava que o calçamento era coisa pra gente rica, elitista, e os adversários, quando ele tinha preparado a terraplenagem para fazer o calçamento, os adversários escreveram no piso que os Arruda eram fascistas, comunistas [...]

Em 2005, a família Arruda Câmara comemora 90 anos da chegada em Nova Cruz, antes mesmo da oficialização desta à categoria de cidade. A despeito de representarem, de certa forma, uma “oligarquia contemporânea”121, o período de ascensão sócio - política dos

120 A República. Natal: Typ. d’A República Ano XLVII, p. 6, quarta-feira, 4 de dezembro de 1935.

121 Os entrevistados de oposição político-partidária utilizam essa expressão sem parcimônia. O termo oligarquia tem sido tradicionalmente usado em sentido negativo, devido à influência da classificação aristotélica, para a qual a Oligarquia é uma das formas viciadas de constituição. Contudo, por influência da teoria das elites, ele foi adquirindo cada vez mais um significado axiologicamente neutro à medida que se foi constatando que todos os regimes, mesmo os que se proclamam democráticos, são regidos por oligarquias (BOBBIO, 1986, p. 837).

Arruda coincide justamente com o período de intenso progresso do município, qual seja, as décadas de trinta, quarenta e cinqüenta. Esclarecemos que o termo oligarquia se aplica quando há uma certa perenidade de um grupo na gestão de poder em um espaço geopolítico. Um pequeno grupo, sendo o mais comum deles o familiar.

Para além disso, esses discursos continuam a gerar valores simbólicos. O trem, por exemplo, é freqüentemente lembrado nas propostas de reerguimento econômico do município, cada vez mais estimuladas pelas recentes produções escritas por autores novacruzenses referenciados nesta dissertação. A linha do trem, por ser outro ponto de orientação, bem como marco da memória dos moradores, tornou-se em nossa pesquisa um elemento empírico bastante significativo. Assim, passamos a apresentá-la como local de passagem hoje, mas que evoca dos novacruzenses representações sobre o passado da cidade.

4.2.3 Seguindo os trilhos

Foto 10- Fórum Municipal Djalma Marinho,