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Convém observar que, no caso das mentiras de baixo risco, a avaliação das crenças do interlocutor é um processo imediato, evidente e, de certo modo, automático, estritamente dependente dos padrões culturais. Mais que raciocínio metódico e lógico, entre em jogo um raciocínio oportunista, com base no qual o indivíduo escolhe o percurso comunicativo mais eficaz e oportuno no plano relacional entre diferentes soluções parciais. O resultado desse processo é conseguir um ótimo social, ou seja, a solução que maximiza as oportunidades e minimiza os riscos. (ANOLLI, 2004, p. 72-3)

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Podemos dizer que quanto mais alguém mente para o bom convívio social, tanto mais

socializado o indivíduo é. Um estudo indica que pessoas muito populares são também grandes

mentirosas30. Apesar do pesquisador não concluir se é a compulsão por mentir que as fizeram populares ou se ao se tornarem populares elas sentiram a necessidade de mentir cada vez mais, é certo que isso é um indício de que quem partilha meios sociais com muitos integrantes sente a necessidade de recorrer mais frequentemente às insinceridades, devido, muito provavelmente, às diferenças de gostos e opiniões que dividem as pessoas. Então, para não se indispor com quem não gosta da música que apreciamos ou para evitar emitir nosso juízo íntimo sobre questões polêmicas, fingimos que não nos importamos com as opiniões alheias e omitimos o que pensamos a respeito.

Diante do exposto, o que devemos considerar para os objetivos deste estudo é aquela insinceridade que começa o dia com um cumprimento-padrão sobre o qual alguém fala reflexamente (“Como vai?”; “vou bem, e você?”), até as omissões e pequenas mentiras que se conta – ou se bloqueia tal ímpeto interior – para não ferir suscetibilidades, ou mesmo pela percepção do senso de inadequação do comentário – no sentido de Goffman. Não se trata então de uma produção ostensiva e consequente de falsidades com o intuito de obter alguma vantagem, mas apenas para deixar a vida fluir mais pacificamente. Isso quer dizer que a postura de falsidade que se desempenha perante as pessoas próximas (mas que não são íntimas) e também superiores, pelos quais não se tem nenhum apreço, sejam simples “falas reflexas” desprovidas de um conteúdo estratégico. Não seria o caso, pois se sabe exatamente porque se age falsamente nesses casos, e nenhum desses motivos seria suficiente para evitar ferir os sentimentos dele. É-se insincero estrategicamente; para não se declarar um confronto aberto e preservar a harmonia social.

Se a insinceridade social é fruto da necessidade de ocultar as verdadeiras percepções e juízos que as pessoas têm umas das outras a fim de tornar a vida em comum possível, há de se concluir que tais atos insinceros não podem ser proferidos – em sua maior parte – como algo

calculado, já que, se fosse o caso, deixaria de ser algo “prático”, “econômico”, e resultaria na possibilidade de não gerar o efeito de aparente naturalidade e espontaneidade, que é o que promove a harmonia social. Para ser prático, seria necessário que a insinceridade não fosse algo penoso de se fazer, que não se precisasse de uma reflexão contínua sobre o assunto, mas apenas que fosse a manifestação de um padrão comportamental que soasse espontâneo.

30 (FELDMAN, 2009, p. 62-63)

150 Esta antecipação, que não tem nada a ver com um cálculo consciente, é o resultado do habitus lingüístico que, sendo o produto de uma relação primordial e prolongada com as leis de um certo mercado, tende a funcionar como um sentido da aceitabilidade e do valor prováveis de suas próprias produções lingüísticas e das dos outros em seus diferentes mercados. (BOURDIEU, p.64, 1998)

Então, tomando como base o conceito de habitus, é possível entendermos como a insinceridade social se reproduz no indivíduo ao nível quase-inconsciente para atender certa demanda de um mercado simbólico. Digo “quase” porque pela teoria do automonitoramento, já mencionada, não se trata de algo involuntário como o funcionamento autônomo dos órgãos internos do corpo, mas um padrão cognitivo de se dirigir ao outro, que “ocorre” ao indivíduo como o mais adequado para as situações sociais vividas. Ou seja, para que a insinceridade – principalmente no mundo adulto – possa ser mantida na maior parte do tempo, é preciso uma base sociocognitiva que lhe dê sustentação: uma percepção e valoração das práticas sociais que o indivíduo tenha adquirido e acumulado ao longo da vida. É certo que isso varia de pessoa para pessoa, classe social, faixa etária, gênero, período histórico, história familiar etc. Porém, é inegável o fato de que haja algo transversal a todos os espaços sociais, no que toca ao modo como as pessoas se relacionam para evitar o conflito ou desconforto (quando não interessa a nenhuma das partes). No entanto, como as pessoas fazem isso na maior parte do tempo, a hipótese básica é a de que há um grau razoável de estabilidade dessa base sociocognitiva que promove a insinceridade das pessoas.

Para podermos prosseguir sobre a insinceridade (mentiras pró-sociais), é preciso tecer mais algumas considerações sobre a “sinceridade”, pois há alguns entendimentos cotidianos que pode criar algumas dificuldades conceituais quando se está delimitando conceitualmente a insinceridade.

Em um episódio do seriado Dr. House31, há um paciente que está em um estado clínico que o faz falar compulsivamente o que pensa (a verbalizar tudo o que a mente julga continuamente sobre o mundo ao seu redor). Ou seja, a falta de moderação, a tagarelice, é algo que pouco é provocado pelo ambiente que participa (ninguém lhe pede opiniões sobre o que acha das pessoas em termo morais, estéticos etc.), mas uma característica autopropulsora, até então inibida, ganha a plena liberdade de expressão ao menor estímulo do ambiente social. O conteúdo de sua fala tem o ímpeto de procurar expor em público suas preferências sexuais e as características físicas e intelectuais das pessoas ao seu redor. Isso se coaduna com o que

31Episódio 17º da 5ª temporada. Warner

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Lahire fala sobre a desnecessidade de motivações infinitesimais para que certos habitus se realizem. Tal noção de sinceridade é até mesmo intuitiva, pois se alguém fala exatamente o que pensa, sem mediações de filtros morais ou de qualquer outra ordem, então ele está sendo “sincero” nas suas observações e comentários. A sinceridade comumente é equivalente à verbalização literal do que o “hobby de julgar” da mente produz – que possui uma boa carga de agressividade e de conteúdos sexuais reprimidos pela sociedade.

Porém, há um detalhe que essa fórmula não percebe: a mente está mais automaticamente programada para julgar negativamente e agressivamente os seus co- presentes. Ser sincero, por conseguinte, levaria a ser consequentemente também sinônimo de falar palavrões e expor todos os seus impulsos mais primitivos a todo o momento. Se a sinceridade é apenas a exposição de conteúdos reprimidos – o que não deixa de ser, afinal – ela teria que ser necessariamente um ato de agressividade.

Porém, há algo de divergência semântica importante que diferencia os dois casos nos usos cotidianos da linguagem para separar o que seria sinceridade de agressividade:

 Ele foi sincero.  Ele foi rude.

Se for possível ser sincero sem ser rude, a sinceridade não precisa coincidir plenamente com a rudeza das declarações; a sinceridade não precisa ser “antissocial” ou avessa ao social por definição. Portanto, a busca que nos leva à constituição de um “habitus da insinceridade” nos leva também a conceber que para a construção de tal conceito será necessário afirmar que ele possui uma grande carga de inibição expressiva. Se se busca ou não ferir os sentimentos alheios ou não declarar guerra às pessoas com as quais se é obrigado a conviver, então o que um habitus insincero realiza na maior parte do tempo é frear os impulsos antissociais que todos carregam em algum grau. Um conceito de habitus insincero seria apenas um esquema metal de inibição sociolinguística?

Quanto mais se eleva o grau de censura, tanto maior e mais permanente a exigência de um grau mais elevado de eufeminização, um esforço mais constante para formular (ou colocar formas). Associa-se a isso o fato de que o domínio prático dos instrumentos de eufemização objetivamente exigidos nos mercados mais tensos, como os mercados escolar ou mundano, tende a se ampliar à medida que se alcançam as posições mais elevadas na estrutura social, ou seja, à media que se amplia a freqüência das ocasiões sociais em que se é submetido (desde a infância) a tais exigências e, portanto, quando se está em condições de adquirir praticamente os meios de satisfazê-las. (BOURDIEU, p.72-3, 1998)

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Isso criaria um problema para a construção do conceito em análise, o habitus da insinceridade. Criaria. A questão é que se formos atentos às nossas ações insinceras e a dos outros, e lembrando também que foi essa a dificuldade inicial de Jürgen Schmieder, que imaginou que ser agressivo seria ser sincero, não é preciso reduzir a sinceridade à rudeza, a insinceridade à mentira pura e simples. Então, falar o que se pensa, ou seja, declarar todas as percepções e devaneios oriundos do automatismo mental seria mais próximo da agressividade a ser evitada do que ser sincero. Então, o personagem do seriado televisivo mencionado está apenas sendo agressivo, pois não lhe foi solicitado saber suas opiniões sexuais. Tudo isso levar a concluir que ser sincero não é o contrário exato – intuitivo, talvez – de ser insincero.

Ser sincero é apenas declarar sua opinião franca quando lhe for solicitado ou materialmente implicado em uma dada situação (a sopa oferecida está demasiada apimentada ou salgada e em razão disso se declara simplesmente não ter gostado da sopa). O contrário disso, ser insincero, se for o caso, seria, no máximo, minimizar quaisquer comentários negativos sobre a má qualidade da sopa, por exemplo, caso isso implique um mal estar social desnecessário. Como sugere Bourdieu, a estruturação cognitiva de falas eufemísticas é construída para evitar que a produção inconsciente da fala do agente escolha vocabulários e construções linguísticas que soem como uma afronta ao seu interlocutor. O habitus linguístico em sua modalidade insincera é um esforço inconsciente de mediar o que se quer dizer evocando emoldurações cognitivas que ou omitam certos pensamentos ou produzam enunciados modalizados, a fim de resguardar o agente de quaisquer problemas derivados da rejeição pública ao discurso.

Portanto, seguindo as indicações de Bourdieu, o habitus linguístico do tipo insincero trabalha por meio da visão antecipada do que seu público considerará como adequada. Neste sentido, quando a insinceridade se encontra com o eufemismo, observa-se que as operações mentais que subjazem tal desempenho linguístico resultam em falas que estão ancoradas nas consequências e efeitos futuros. Sua especificidade conceitual se constrói lhe dando sustentação empírica quando se constata que há forças sociais que inibem a livre produção de linguagem. Como esquema de ação que se baseia na acumulação da percepção de efeitos simbólicos que a linguagem provoca no mundo social, a atuação de um habitus insincero pressupõe que há uma extensa percepção e reverência ao mundo social. Como já discutido sobre o caráter incompleto e sempre passível de correção e aperfeiçoamento do habitus, haverá sempre indivíduos mais habilidosos que outros na propensão à construção de fórmulas eufemísticas e falas insinceras.

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Na medida em que é preciso afastar quaisquer apreciações justas e subjetivamente sinceras sobre fenômenos sociais ou pessoas específicas, alguém que cultive de maneira intensiva a produção da insinceridade como mercadoria simbólica para satisfazer públicos variados terá um bom domínio sobre a capacidade de inibir em si mesmo a porção individual que renega parcialmente o caráter empático de seu comportamento social visível. Como mecanismo de ajuste e neutralização dos impulsos antissociais que habitam no interior de cada um dos indivíduos, a produção de falas insinceras possui um perfil conservador ou resignado, uma vez que seu princípio norteador e modalizador do comportamento linguístico não usa questionar ou condenar diretamente certas posturas políticas ou escolhas alheias, pois já é um conhecimento tácito que as escolhas de alguém não é algo que se lhe destaca abstratamente, mas que forma a identidade do sujeito, ao ponto de encarar quaisquer críticas aos seus gostos e inclinações estéticas, como se fosse um atentado ou condenação à sua própria pessoa.

Portanto, o habitus da insinceridade que concentra os esquemas mentais incorporados paulatinamente no mundo social é o inverso da atividade crítica da mente, que age automaticamente ao menor sinal da presença de outro, produzindo muitos juízos sobre seu co- presente. Repetindo: isso não significa dizer que não falar tudo que vem à mente seja insinceridade ou que falar tudo seja mostrar de sinceridade. Por exemplo, no seriado Engana-

me se Puder32 um dos personagens costuma dizer quais são suas opiniões – realmente de cunho sexual – sobre as personagens femininas ou o que pensa sobre a conduta de alguém, que em geral é negativa. Isso é ser sincero? E o contrário, não falar sobre seus desejos para com as presenças femininas e julgar a conduta alheia seria ser insincero? Tal equiparação contrária é sedutora, mas como discutimos no decorrer do texto, isso não é toda história. Portanto, a noção de sinceridade que é associada à agressividade e juízos negativos diz respeito ao hábito de como os as pessoas nos interessam e como as julgamos particularmente a um nível superficial, não sendo formulações que se busca ser criteriosamente imparcial sobre como a conduta de alguém soa ou o que ela pode implicar.

Como o conjunto de disposições incorporadas de alguém se revela ao pesquisador através de seus atos, é pertinente que minimamente se tenha uma ideia de como a modalidade de habitus insincero se manifesta no cotidiano – apesar de intuitivamente ser algo relativamente fácil de fazer como uma lista de “falas insinceras”. Vejamos uma maneira de

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ilustrar tal fenômeno na sua forma material, tal como os indivíduos as produzem e as experimenta.

 Não, amor, você não está gorda!  Olá, bom dia, tudo bem? - Tudo bem!  Logo logo você consegue algo melhor!  Calma! Tudo vai ficar bem!

 Sua comida está ótima!  Como está a família?  Bom trabalho!

Há inúmeras falas eufemísticas que são usadas para disfarçar fatos de um mundo violento ou falas que expressam uma amostra do apreço que se sente pelo seu interlocutor. Muitas vezes não se vai até o fim com as observações e críticas que se gostaria de fazer a pessoas queridas, pois, como não custa ressaltar, não se quer magoá-las com o que se julga serem seus juízos mais autênticos. A sinceridade autêntica é a ausência de emotividade que arma a mente de recursos que buscam o máximo de objetividade analítica que o sujeito é capaz de realizar. Pedir para alguém que especialmente em um momento crítico seja sincero é, portanto, pedir concomitantemente que suspenda a nuvem de emotividade e parcialidade que lhe impedia de fazer críticas que poderiam ser duras e normalmente execradas.

Quando ocorrem oportunidades para a sinceridade vingar, o destinatário de um discurso sincero poderá ter uma noção do véu de Maya que encobre comumente as relações humanas, pois, em uma situação extraordinária de sinceridade, a apresentação de fatos cuja franqueza e argúcia não são costumeiras pode impor uma revisão de vários aspectos que nutria sobre si e sobre os outros. É possível que haja mesmo um breve momento de epifania sobre seus juízos e relações pessoais, pois é possível se defrontar com noções que pelo menos momentaneamente têm o potencial de reestruturar sua vida.

É preciso fazer uma observação importante sobre os cumprimentos gentis do cotidiano. Quando aqui se fala que as pessoas contam mentiras pró-sociais entre si, isso não quer dizer que as suas saudações sempre sejam falsas, mas apenas que são fórmulas linguísticas que simplesmente podem não simbolizar mais estados de espírito genuínos. Como os cumprimentos cotidianos têm a natureza de um fato social, algo externo e anterior ao indivíduo, eles soam mais como um hábito social sobre o qual se perdeu a espontaneidade criativa de se dirigir ao próximo para cumprimentá-lo genuinamente. As palavras rituais dos cumprimentos acabam sendo mais uma força social que uma iniciativa individual, servindo para desencarregarem seus usuários a terem que pensar, a cada novo dia, sobre suas relações

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pessoais e a autenticidade de sua disposição emocional interna para travar esses encontros. As fórmulas padronizadas se misturam às idiossincrasias do falante, pois inúmeras intenções se juntam e se separam para compor os infinitesimais aspectos ilocucionários da linguagem. É mesmo um hábito social: é um ato reflexo de que às vezes mal se tem consciência e controle sobre ele.

Retomando a perspectiva da performatividade da linguagem, para o habitus insincero prevalecerá o ilocucionário oculto que tem como intenção contemporanizar com seu interlocutor. Pensando como um conceito ideal, seria o puro contato social sem maiores consequências e intenções ulteriores. Além disso, como já anunciado, o habitus insincero inibirá as fórmulas linguísticas potencialmente desagradáveis para o ego alheio e selecionará as fórmulas que tem como base a empatia social (mais à frente se tratará das consequências causadas no desempenho do agente quando o habitus gira em falso, o que guarda paralelo com as “crises de sinceridade” que ocorrem em muitos momentos na vida de alguém).

Como dimensão pós-reflexiva da cognição social, a insinceridade é uma forma de amoldamento social, cujos aprendizados foram incorporados há muito tempo como forma de socialização promovida pelos pais. Por isso que não cabe afirmar que se trata simplesmente de uma impostura, uma vez que o seu oposto – a franqueza ou sinceridade – seria considerada a declaração de um conflito aberto e de “má educação”. Ou seja, a intuição comum é a de que o indivíduo pouco ou mal socializado não respeita certos parâmetros necessários para o bom convívio social, comportando-se de maneira autocentrada, direta e desconsiderando a presença das pessoas ao redor. Ser educado é, portanto, filtrar as impressões imediatas que a mente continuamente produz, além de ter interiorizado a mínima deferência e atenção para com as pessoas que estão presentes no ambiente, não se podendo agir como se elas lá simplesmente não estivessem. Se tal interiorização for satisfatoriamente realizada, pelo princípio da eficiência energética do cérebro, é correto supor que o acionamento do “modo sociável” entra em ação na mente de alguém tanto quando se encontra algum conhecido, como também com aqueles que não se possui intimidade (de modo similar, é comum que quando em um ambiente onde apenas homens estão presentes, entrando de repente uma mulher no recinto, toda a dinâmica conversacional masculina muda, evitando abordar determinados assuntos sob determinados enfoques estritamente masculinos, para não causar desconforto na presença feminina).

A insinceridade é como uma necessidade de adequação social que se aprende continuamente, e nem nos damos conta de como agimos de maneira imprecisa, fabricada,

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como resultado da forma que aprendemos a nos entrosar com os demais. Se esse esquema cognitivo não nos é mais consciente significa que ele, na maior parte do tempo, produz comportamentos e respostas adequadas para os contextos sociais; significa também que uma parte da experiência social é composta de uma ritualização ostensiva habitual. Ou seja, cada vez que se evita falar sinceramente o real juízo que se faz sobre alguém, é mobilizada uma forma mais ou menos coreografada de se dirigir aos outros, principalmente em ambientes mais hierarquicamente marcados.

As omissões e gentilezas cotidianas são realizadas sem se julgar que se age de maneira ditada pelo meio social: ninguém emite juízos – constrangedores – mas agem respeitosamente na maior parte do tempo, por meio de fórmulas ritualísticas. Por isso é crível que haja um

habitus circulante que advirta as pessoas de que ser sincero é uma forma de impropriedade,

inconveniência e mesmo de desajuste social (não raro, as pessoas que são francas sobre seu desconforto ou discordância para como seus interlocutores em determinadas situações sociais podem sofrer – e muitas vezes são – consideradas emocionalmente desequilibradas). Se as pessoas conseguem construir elocuções que não desagradam o próximo na maior parte do