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As Missões Populares, “as santas missões”, tomam dentro do plano de reforma um grande incremento no Segundo Império. Os objetivos das missões populares continuam os mesmos: afervoramento religioso, ocasião de conversões - no sentido de renovação de vida, mas não como outrora, no sentido de opção diante de Cristo e do Evangelho - e regularização de vida, reconciliação de ódios, afastamento dos abusos e superstições, volta aos sacramentos.

Durante uma missão popular, normalmente um período de nove a doze dias, o missionário mobilizava o povo, ao som de hinos e cânticos em procissão, para os trabalhos da igreja, construção de cemitérios, de açudes, de estradas, perfuração de poços, levantando cruzeiros etc. Do itinerário do Frei Serafim de Catania, podemos aferir tais ações, como: a construção do porto em Canguaretama (MELLO, 1871, p.127), construção de cemitérios e capelas e campanhas de desarmamento. Sobre a última, registramos o depoimento de Seu Zezito, que chegou a ver os “restos das armas corroídos pelo tempo [...] para que o povo

de São Bento, que brigava muito, vivesse em paz, ele [Frei Serafim] convenceu todo mundo a jogar nos pés daquele cruzeiro todas as armas”.

Ao nos depararmos com as narrativas orais, interligadas à versão da historiografia dos cronistas das Ordens Religiosas e de documentos como o livro de tombo da Paróquia

de Nova Cruz, por exemplo, verificamos que foi Frei Herculano ou Frei Venâncio que estiveram em São Bento e também em Nova Cruz, no final do século XIX, e não o Frei Serafim, como sugere o relato de “Seu” Zezito.

No terceiro capítulo, em que destacaremos as falas dos moradores referentes às Missões, observaremos que, nos fragmentos de memórias, a presença do Frei que exorcizou a anta e batizou o nome Nova Cruz liga-se à presença de outros missionários, como o Frei Caetano de Messina, fundador da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho (1853), à qual pertence o Colégio Nossa Senhora do Carmo, da rede privada de ensino de Nova Cruz, e Frei Damião, que mobilizou centenas de pessoas em suas vindas a Nova Cruz, em meados do século XX.

Tendo como hipótese que a mudança do nome Anta Esfolada para Nova Cruz se deu pela presença de um frei missionário, assim como o fizeram em Canguaretama (batizada de Penha) e em Santa Rita da Cachoeira (batizada de Santa Cruz), de acordo com Cascudo (1955a,1968), produzimos o itinerário, na página seguinte, com base na documentação histórica do Arquivo do Convento da Penha, em Recife-PE, bem como de fontes bibliográficas (livros da biblioteca do citado convento). Nas referidas fontes impressas e manuscritas, encontramos indícios de que o Frei Serafim de Catania (1812- 1887), “andou em missões” pelas terras potiguares. Como, por exemplo, em Martins (1917, p. 19) que nos informa ser o Frei Serafim “veterano de numerosas missões [...] bem conhecido em Pernambuco, Parahyba, Rio Grande do Norte [...], por onde andou a fincar duradouros marcos”. Embora o itinerário nos ofereça indícios sobre a estada de Frei Serafim em terras potiguares, ainda permanece incógnito o período sugerido por Cascudo (1955a), indicando ser o Frei Serafim o missionário que plantou um cruzeiro, exorcizando a anta esfolada e denominando o local de “Nova Cruz”, em meados do século XIX. Frei

Serafim de Catania chegou a Recife (Convento da Penha) em 1841, aos vinte e nove anos, com o primeiro grupo de capuchinhos italianos que puderam retornar ao país.

Figura 3 – Frei Serafim de Catanea (1812– 1887)

Fonte: MARTINS, 1917.

ANO LOCALIDADE OBRA MISSIONÁRIA

1842 a 1846

Mata Virgem (interior de Pernambuco, a Oeste de Recife);

Paraíba: Santa Rita, Mamanguape e Lucena; Rio Grande do Norte: sem precisão das localidades (N.A).

- pregando

- erguendo cemitérios

- “No Rio Grande do Norte abriu um grande canal que comunicava uma lagoa com o mar” (PRIMERIO, 1937: 230 - 231).

1846

Fortaleza-CE

Interior do Ceará Maranguape, Acarapé, Baturité, Canindé, S. Quitéria, Bairro dos Macacos, Sobral, Araracu, Granja e Viçosa.

- ergueu um cruzeiro - pregou missão; conversões.

1847 De volta à capital do Ceará, mas doente.

Cabedelo-PB (1849). 1852 a 1855

Fortaleza -CE

S. João do Rio do Peixe, Piancó, Misericórdia, Conceição.

- pregando

- erguendo cemitérios, cruzeiros e capelas.

1858 Volta ao RGN: Goianinha, Papari (Nísia

Floresta), Natal, Utinga, São Gonçalo, Boca da Mata.

- erguendo igrejas; transferindo um porto. Inferimos ser este porto em Canguaretama, pois encontramos em Mello (1871:127): “em Urná (Canguaretama) abriu um grande braço de rio e transferiu o porto [...] que foi nomeado Porto S. Seraphim [...] “em Ceará Mirim, em 12-12- 1858, põe a primeira pedra da matriz”

(CASCUDO,1955a: 244-247)

1860

No RGN: Penha (batizada pelo Frei a antiga Uruá); Guamaré; Macau e Mossoró.

Em Pernambuco: S. José de Ingazeira, Pedras de Fogo.

- levantou um cruzeiro - erguendo cemitérios

- fez o aterro da igreja e do cemitério; a capela-mor e sacristia.

1863 Recife (PE) - assumiu a prefeitura

1865 Pernambuco - inaugurou a igreja de Pedras de

Fogo, a N. S da Conceição.

1869 Aracati (CE), Esteve muito doente, não há outras

informações(N.A).

1874 a 1886 Terezina (PI) e também no interior da Província

- construção da famosa igreja de S. Benedito

- cuidou dos doentes de varíola - acudiu as vítimas da seca

1866 Parte para a Itália, onde faleceu em 1887.

Quadro 1- Itinerário missionário do Frei Serafim de Catania.

FONTE: Adaptado pela autora (2005).

Tal itinerário permite-nos pensar os elementos simbólicos ainda recorrentes nas falas dos moradores, imbricados à historiografia potiguar e às crônicas das Ordens Religiosas que atuaram e atuam no Brasil. Não temos a ambição de propor uma interpretação inteiramente nova, pois devemos trilhar, literalmente, por caminhos já

percorridos, ao fazer uso de material bibliográfico, de documentos históricos e dos discursos dos novacruzenses, sobretudo dos moradores mais antigos. Temos a clareza de que, assim como os itinerários indicam o quanto os capuchinhos foram aguerridos, encontramos nas referidas crônicas algo de muito salvacionista.

No tópico seguinte, apresentamos como se operaram os primeiros contornos para a construção do lugar conhecido por “Nova Cruz, a Rainha do Agreste Potiguar”.