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97 Para Simmel (1993), a sociabilidade não é apenas um agregado de indivíduos. É preciso que a reunião de pessoas, além de satisfazer a necessidades e interesses, tenha um sentimento de cumplicidade e de solidariedade. Na fala dos interlocutores, trata-se dos espaços nos quais “a família novacruzense se encontrava”, e também das festas como a da padroeira da cidade (08/12), o padroeiro do bairro mais antigo, S. Sebastião (20/01), e o revéillon em frente à matriz, no dia 31/12. Sobre sociabilidade e festa religiosa, consulte-se DEL PRIORE, Mary (1994).

98 Pela resolução 217 de 22/06/1850, foi criada uma cadeira de primeiras letras para meninos. Em 08/01/1912, o governador Alberto Albuquerque Maranhão construiu o primeiro prédio na Praça Dix- Sept Rosado. Em 1919, um prédio maior foi construído na Praça Barão do Rio Branco. Em 1934, o prédio foi demolido e construído o atual, na rua 1º de Maio, hoje Escola Estadual Alberto Maranhão.

Também na locução do discurso, Nova Cruz é possuidora da maior feira livre da região - em extensão (no horário e no espaço que ocupa) e diversidade de produtos. Localizada no Alto do São Sebastião, a feira atrai pessoas (vendedores ambulantes, comerciantes, compradores etc) de toda a circunvizinhança, inclusive do Estado da Paraíba.

Por isso, perguntamos: o que promove essa visibilidade de um lugar em detrimento da invisibilidade99 de um outro lugar? Afinal, o município vizinho, Santo

Antônio, também possui uma feira expressiva, aos sábados100.

Acreditamos ser esses elementos discursivos (“maior feira livre”, “cidade pólo”, “rainha”, “filho ilustres” na política, nas letras e na religião) que dão visibilidade à Nova Cruz. É o que denominamos “traços emblemáticos”, na seção que trataremos a seguir. 4.2 TRAJETOS EM NOVA CRUZ

Pretendemos construir o que convencionamos chamar de mapa imagético da cidade, expressão que denota um agenciamento das narrativas orais, das memórias, imagens e representações que os moradores - por nós entrevistados – constroem do espaço.

Como qualquer outra cidade, Nova Cruz possui um conjunto de traços característicos, mais ou menos emblemáticos, que a identificam, mantendo algumas imagens bem conhecidas, quer pelos moradores ou pelos visitantes: cidade pólo da Região Agreste, às margens do rio Curimataú. A cidade de Nova Cruz é festejada pelas suas vaquejadas101, nos meses de setembro/outubro, no Parque “Marcelo da Cunha Lima” e pelas

99 Cf. SOUSA FILHO, Alípio de. Medos, mitos e castigos: notas sobre a pena de morte. 2.ed. São Paulo: Cortez,. 2001. (Coleção Questões da Nossa Época, v. 46).

100 Veja-se sobre as feiras livres nas cidades pequenas do Agreste Potiguar, na dissertação de Gonçalves, (2005).

101 As vaquejadas aconteciam, nas primeiras décadas do século XX, na Rua Grande. Depois, nos anos 50, onde hoje é o bairro São Sebastião. Já no final do século XX, devido ao crescimento da população na área

novenas102, procissões e festas em homenagem aos santos padroeiros, como Santa Luzia,

que mobiliza o bairro homônimo (antigo Seixo), mesmo sendo mais afastado da área urbana, atraindo uma enorme quantidade de moradores para a novena e para a animada quermesse, igualmente por São Sebastião, cujo nome homenageia o maior e mais popular bairro da cidade.

Aprendi com meus interlocutores que cada lugar103 tem uma história e que “uma

lembrança puxa outra”. Por isso, trago para esta descrição do espaço, as falas dos

moradores mais antigos da cidade, pois em cada entrevista as marcas memoriais são recorrentes: “ali onde era o silo...” ou “aqui próximo à caixa d’água...”. Mesmo quando falam nas pessoas (familiares e amigos que já morreram ou que não moram mais na cidade, ex-prefeitos, missionários e padres, diretores e professores etc), há referências aos espaços que lembram, por um motivo ou outro, aquelas pessoas: o cemitério, as igrejas, as praças, as escolas, a ponte, os rios, os bairros, as ruas e avenidas. A cidade de outrora é sintetizada assim, na memória de “Seu” Baltazar:

Nova Cruz só tinha a Rua Pedro Velho, a Rua do Vintém ao lado da igreja e a Rua do Fogo... o resto era mato. Aqui [o bairro São Sebastião] é de 1937. Pra cá, na treze [Rua 13 de maio]. Na [Rua] Capitão José da Penha, na [Rua]1º de Maio, ali tudo era mato. Aí foram aumentando. A igreja lá de baixo [refere-se à Matriz] não tinha a torre. Em 1922, fizeram a torre de cá. Dali perto da loja de Dona Joanita, na 15 de Novembro, até onde é o cemitério, era uma lagoa.

urbana, é que as vaquejadas vêm acontecendo em espaço privado, nos arredores da cidade, como a Fazenda dos Cunha Lima.

102 No espaço de nove dias há missas, terços, ladainhas, adoração ao Santíssimo Sacramento, dentre outros rituais instituídos pela Igreja Católica.

103 Ao longo do texto, o vocábulo lugar será empregado em relação ao espaço geográfico e até à região. Mas nos interessa, especialmente, pensar o espaço em suas redes sociais. Esta perspectiva aporta-se em Durkheim; Mauss, (1990). Também em conformidade com Santos, (1994). O geógrafo Milton Santos recomenda que é preciso ver o espaço como um sistema de objetos e um sistema de ações.

No imbricar de falas como a de “Seu Balta”104, que mora em Nova Cruz desde

1915,e a de Monsenhor Geraldo105, que chegou com seus pais à cidade em 1929, aos 7 anos

de idade, mas “há tempos não vem à Nova Cruz” e, ainda, dos que não moram mais, mas fazem dela sua “pátria sentimental”, como nos revelou Leonardo Arruda (um dos novacruzenses que saiu da cidade quando jovem, para estudar “na capital”), reconstruímos, na medida do possível, trajetos no perímetro urbano, a partir de cada entrevista - nas fitas K7 em que foram gravadas e repetidamente escutadas. Buscamos captar as imagens que se formavam durante as interlocuções, nos risos, nas ênfases emocionadas, nos gestos apontando o “aqui”, o “ali” e o “lá”, lugares tão perto e tão longe!

Acreditamos que esse “mapeamento mental” possa dar visibilidade aos elementos recorrentes na memória dos novacruzenses e possibilita ao pesquisador pensar o “lá” (o lugar da pesquisa) e o “aqui” (o lugar da minha escrita) 106.

4.2.1 Os bairros da cidade

Devido ao crescimento espacial e populacional dos últimos cinqüenta anos, o núcleo urbano da cidade de Nova Cruz contempla 12 (doze) bairros107. Fato que para os

104 Alcunha carinhosa pela qual “Seu” Baltazar é conhecido na cidade.

105 O vigário Geraldo Ribeiro de Almeida chegou criança, com seus pais, em Nova Cruz, em 1929. Foi coadjutor do Monsenhor Pedro Rebouças de Moura, entre 1951 e 1952.

106 A frase final, o jogo entre o lá e o aqui, inspira-se no título do primeiro capítulo do livro de Geertz, (1997).

El antropólogo como autor. Acrescentamos que o lugar da nossa escrita teve início quando dos registros no

diário de campo.

107 Os bairros são: Alto de Santa Luzia, Alto das Flores, Antônio Peixoto Mariano, Bela Vista, Cidade do Sol, Centro, Conjunto COHAB, Conjunto IPE, Frei Damião, São Sebastião, São Judas Tadeu e Santa Maria Gorete. A partir deste último, três novos loteamentos se formaram: Cidade Nova, Nova Esperança e Planalto. C.f Diagnóstico (SEBRAE/Prefeitura de Nova Cruz, 2000). É importante destacar que, para o IBGE, distritos e bairros são oficializados a partir do Plano Diretor do Município, onde consta a descrição do limite do bairro e do distrito. No Estado do RGN, apenas os municípios de Natal, Parnamirim e Mossoró possuem o Plano Diretor.

moradores simboliza o desenvolvimento de um lugar, como diz com orgulho o Sr. Antônio Matias:

Eu digo e afirmo: existe muita cidade por aí que não é do tamanho do bairro Frei Damião e tem outros bairros novos, lá pra frente: tem bairro Santa Maria Gorete – tem a igrejinha lá, Catolé, tem Planalto, tem Bela Vista, São Judas Tadeu [...] o bairro mais antigo da nossa cidade, depois do Centro, é o bairro São Sebastião [...] aí sobe [...] Alto de São Sebastião.

Foto 2 - Casa de “Seu” Zezito, construída