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131 Em Ferreira (1986, p. 462, grifo nosso) narrar é descrito tanto como “expor minuciosamente, contar, relatar, referir” como “pôr em memória, registrar, historiar”.

Conforme a maioria dos entrevistados, o incêndio aconteceu numa fábrica de fogos de artifício, no fim da mesma rua do cinema, “no dia 17 de maio de 1955, conhecida como a Oficina de Passinho” (DELGADO, 2005, p. 273). Provavelmente, esta versão fantasiosa de “Seu” Baltazar deve-se ao temor dos apregoados “castigos” de Frei Damião - de quem ele diz ser muito devoto - para com os desobedientes à Lei de Deus. Em um relato publicado na Revista Manchete, de 1974, autoria de Ricardo Noblat, com o sugestivo título “O exorcista” 132, encontramos a reificação desse temor/ respeito a um jovem de 38 anos de

idade (quando da primeira missão em Nova Cruz) que:

quando prega, exige o mais absoluto silêncio e invoca, com freqüência, o demônio contra aqueles que conversam ou não prestam atenção no que diz. ‘Olha o capeta, comadre, cale a boca, olhe o capeta’ - esbraveja numa voz muito rouca onde o tempo não apagou o sotaque italiano.

Há ainda, no entorno da estação, na rua Presidente Getúlio Vargas, o prédio - aguardando espólio - do Hotel Cosmopolita, o Banco do Brasil (BB), a Central do Cidadão, onde era a antiga Pensão de D. Joaninha, sogra do político fundador da União Democrática Nacional (UDN), em Nova Cruz, nos idos de 1946, o Sr. Adauto de Carvalho e, mais adiante, no alto e em destaque pela forte cor azul, o edifício sede da Prefeitura Municipal de Nova Cruz, construído nos anos 1930 pelo prefeito Antônio Arruda Câmara, ampliado nos 1990 pelo prefeito Targino Pereira. A observação desse espaço nos possibilitou flagrar elementos interessantes da política local: o nome do palácio sede é uma homenagem ao seu fundador, Antônio Arruda Câmara; o busto em frente é do ex-prefeito Luiz Moreira, ainda vivo e morando em Nova Cruz. Ambos os “monumentos” ficam na praça Dix-sept

Rosado133, outrora praça João Pessoa134. Pensar esses logradouros e tantos outros em Nova

Cruz é pensar o nome das coisas, o nome do domínio. Para Macêdo (2005, p. 124), “o ato de delimitar é um ato de poder e de otimização desse poder. E é movido pelo interesse de domínio que se procede à nomeação dos espaços”. As falas predominantes nesse esforço de nomeação são daqueles que legitimados pelo discurso do poder, necessitam desenhar seu espaço de performance política, social e econômica.

A cidade de Nova Cruz, nas décadas de 20 e 30, crescia economicamente - notemos a proximidade com a Paraíba, o fato de ser o primeiro ponto de parada, no Estado, da linha férrea vinda de Pernambuco e o comércio de compra e venda de gado impulsionado pela expressiva feira semanal – e atraía muitos comerciantes, fazendeiros e viajantes. Daí a importância de se ter locais para hospedagem e refeições, como a Pensão de D. Joaninha e a Pensão de D. Leonor. Na opinião de Leonardo Arruda :

O hotel tradicional de Nova Cruz não é esse daí não [referindo-se ao Cosmopolita]. Era o Nova Cruz Hotel, vizinho lá de casa [o belo casarão dos Arruda Câmara, no Centro, próximo à sede da Prefeitura e a linha férrea] que foi de “seu” Luiz Maciel[..]. Onde hoje é a Central do Cidadão, antigamente era a pensão de D. Joaninha, mãe de Alice de Carvalho135. O Nova Cruz hotel, quando eu conheci, era de dona Maria

Leonor.

Para tecer as narrativas sobre a cidade, o desafio é o agenciamento de diversas informações. Muitos nomes são trazidos à baila pelos interlocutores que indicam e cobram

133 Homenagem ao primeiro mossoroense a chegar ao governo do Rio Grande do Norte pelo voto direto, morto em 12 de julho de 1951, pela madrugada, depois de decolar do aeroporto de Parnamirim, rumo ao Rio de Janeiro. Dix-sept Rosado, assessores de imprensa e outros funcionários ligados ao seu governo foram vítimas de turbulência na asa do avião DC3 da Linha Aérea Paulista. Disponível em: <http://www.icone.inf.br/govdsrosado/menuhtm> Acesso em : 29 jul. 2005.

134 João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque nasceu na cidade de Umbuzeiro, Estado da Paraíba, em 24 de janeiro de 1878. Era sobrinho de Epitácio Pessoa, que chegou à Presidência da República, na década de 1920. Eleito a 22 de junho de 1928, governador do Estado da Paraíba, foi empossado quatro meses depois. Era chefe do Partido Republicano local. Sobrevindo a sucessão presidencial do Presidente da República, Washington Luiz, foi o seu nome indicado pela Aliança Liberal, candidato à Vice-Presidência da República, quando foi assassinado na cidade do Recife.

do pesquisador ir à busca de certas pessoas, sob o argumento de que essas (as indicadas) são testemunhas desse tempo de abastança da cidade. Assim chegamos a D. Maria Leonor Felipe, viúva do Sr. Manoel Felipe Neto, o “Seu” Nezinho, dono da Pensão Sertaneja, na Rua Dr. Pedro Velho, onde começaram com serviço de mercearia e restaurante e alguns poucos quartos. Trajetória que coincide, resguardadas as devidas especificidades, com a do Sr. Dioclécio Nunes e D. Bita. A Pensão de D. Leonor, como é lembrada, passou , digamos assim, a ter uma filial. Sinal de crescimento nos negócios, arrendaram de Luiz Maciel a casa que foi o Nova Cruz Hotel até os anos 1960. Onde hoje é a Central do Cidadão, era a dependência (o anexo) do hotel. Hóspedes como Djalma Marinho ou o fazendeiro José Paulino, da Paraíba, “faziam as refeições no prédio principal e desciam para a dependência, onde ficavam os dormitórios.”136

Em referência ao Cosmopolita Hotel, há algumas particularidades recorrentes nas entrevistas: lá - quando era casa - moraram os dois irmãos que viriam a ser reitores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN): Daladier e Diógenes da Cunha Lima. Assim, nos descreveu , com precisão de detalhes, D. Bita:

tinha só dois vãos e um corredor no meio [...] em um ensaiava a banda municipal, no outro era depósito de madeiras [...] lá pelos anos 60, Lauro Arruda Câmara [prefeito, proprietário do prédio e quem deu o nome ao hotel] alugou ao meu marido, Dioclécio Nunes...morei lá 46 anos, até o ano 2000, após a morte de Dioclécio [...]137.

Próximo à agência da Caixa Econômica Federal, descendo uma ruela, chega-se à Rua Campo Santo. Uma alusão ao cemitério existente no local, “destruído pela cheia de

136 Meus sinceros agradecimentos aos filhos de D. Leonor, Gilson e Gessy Felipe, que foram o “eco” das lembranças da matriarca, hoje aos 98 anos de idade.

137 Este é um trecho da conversa informal no dia 21/09/04, com Severina Naide Nunes- D. Bita, 69 anos, viúva do ex- proprietário do Hotel Cosmopolita , sito à rua Getúlio Vargas, nº 52, Centro. As informações foram complementadas pela nora, com quem ela mora, Maria Evilene dos Santos Lima, diretora da E. M. Nestor Marinho. Em entrevista gravada, dia 14/03/05, tais informações foram ratificadas e pormenorizadas, por D. Bita.

1924”. Um topônimo paradoxal para o lugar que foi palco do meretrício da cidade, da tão citada Rua do Sapo, que recentemente ganhou até praça alusiva ao nome sugestivo. A propósito, o topônimo está ligado às cheias do Curimataú. Afinal, dizem os novacruzenses, “só sapo ficaria por lá, tamanha invasão das águas”!

Foto 16- Praça alusiva à Rua do Sapo