Aprender a mentir adequadamente é uma característica importante do processo de socialização humana, razão pela qual temos um grande número de relatos de adultos, em um amplo contexto social e cultural, exercitando esse sua destreza social em contar mentiras certas na hora certa, e para as pessoas certas. Por “certas” quero dizer ser bem-sucedido em enganar. (BARNES, 1996, p.26)
Tratemos agora sobre as mentiras com a intenção de enganar, mesmo que o objetivo de obter vantagem, de alguma espécie, seja psicológica (obter algum tipo de reconhecimento), tática (como se livrar de uma enrascada), pecuniária etc. Então, entraremos no terreno do tipo de mentira que escapa da mera gentileza, pois enquanto que a insinceridade social é mais uma manifestação e ação do aspecto pós-reflexivo da mente socializada, a mentira que trataremos nessa seção é mais um ardil estratégico, reflexivo, como já dissemos, pois exige uma elaboração mais sofisticada, pois não se trata mais de “omissões gentis”, mas de construção de estórias e de desculpas, a fim de evitar obter alguma vantagem mais vislumbrada (posteriormente, iremos distinguir o que difere a mentira maliciosa que estamos tratando aqui e os crimes através de mentiras – as fraudes. Por hora, basta saber que a mentira é um tipo diferenciado de insinceridade social, pois não é mais algo socialmente bem distribuído, como um habitus genérico, mas algo que é especializado e cultivado de maneira mais individualizada).
Como já indicamos, tal como a insinceridade, a mentira também tem seu gérmen em idade bem precoce, indicando que tal como ocorre no restante do reino natural, a aptidão para a realização de procedimentos fraudulentos antes de ser um dado de cultura cultivada é algo que nasce com o indivíduo. Porém, na cultura, com o potencial incalculável da linguagem, tal propensão ganha ares radicais.
Piaget: a tendência à mentira é uma tendência natural, cuja espontaneidade e generalidade mostram quanto ela faz parte do pensamento egocêntrico da
161 criança [...] ainda aos seis anos ela não sente realmente nenhum obstáculo interior à prática da mentira [...] mente mais ou menos como inventa ou brinca. (FONSECA, 1997, p. 40)
Portanto, as estratégicas ardilosas dos mentirosos e dos vigaristas não é algo que seja exclusivo do habitus de um perito na arte da mentira. Na verdade, a capacidade de inventar histórias faz parte do próprio desenvolvimento infantil: as crianças contam histórias e inventam enredos para seus brinquedos, além dos amigos imaginários. Ou seja, o mentiroso não dispõe de uma habilidade particular que não seria partilhada pelo resto da humanidade. Pelo contrário, todos – excluídos os casos clínicos específicos – são capazes de mentir e serem desonestos. Muito provavelmente, o que impede que as pessoas sejam cronicamente mentirosos do tipo egoísta (o tipo que causa danos às outras pessoas) é o senso de moralidade que oblitera o egoísmo inerente ao agente.
A linguagem – que é a via por onde se assenta as mentiras de todas as espécies – possui algumas características que produzem o efeito do fazer-acreditar, resultando na mentira bem-sucedida. Saindo do entendimento generalista sobre a insinceridade social, vejamos agora quais seriam os elementos cognitivos que nos ajudam a entender preliminarmente as mentiras como uma especialidade derivada da percepção de que é possível obter ganhos – para si ou para outrem – por meios fraudulentos. Há uma condição: para fins analíticos, é preciso definir que enquanto a insinceridade social é uma manifestação do
habitus socializador (no seu sentido de um habitus que proporcionou a sociabilidade), as
mentiras são “invenções”: é a produção ativa do falso, no qual a ação é orientada para obter alguma vantagem pessoal, como já tivemos a oportunidade de delimitá-lo na discussão sobre a origem ontogenética diferencial da insinceridade e da mentira, que também proporciona a sociabilidade, mas de outra maneira.
É certo que os dois tipos – mentiras pró-sociais e egoístas – se beneficiam da teoria da mente, pois a mentira pró-social, mesmo sendo algo forçado e treinado pelos pais, adquire um status próprio quando o indivíduo se integra socialmente e sai de seu núcleo familiar. Cumprimenta-se pessoas das quais se nutre pouco ou nenhum afeto e omitir-se os juízos que se faz de todos ao seu redor para se “ser bem educado”, pois as pessoas se ressentiriam se assim não se procedesse, penalizando aqueles que assim procedessem por meio da interdição de acesso a certos bens simbólicos, como o acesso a espaços e informações que muitas vezes não estão disponíveis para aqueles que possuem algum vínculo de proximidade pessoal com alguém. A falta de um habitus empático capaz de cumprimentar as pessoas mesmo quando não se tem o desejo entusiástico para tal impede que certos laços de camaradagem surjam e se
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desenvolvam. É por isso que aqui se defende a ideia de que o habitus da insinceridade torna- se um comportamento quase que obrigatório: aquele que não tem essa habilidade terá sua imagem social construída sob o entendimento de que se trata de alguém antissocial e, por isso mesmo, não merecedor de atenção, mas, ao contrário, de desprezo.
Mais estratégico, o mentiroso terá como premissa básica o senso de preservação de seus interesses, tendo que produzir um discurso que interfira na maneira convencional de como seu interlocutor reagiria a certos conhecimentos. Já que a mentira pressupõe criar discursos falsos na intenção de esconder fatos e crenças que fariam desmascarar a intenção deliberada de ludibriar o seu interlocutor, há, visivelmente, no caso da mentira mais puramente egoísta, a pertinência mais acentuada da noção de sanção, que era ausente ou deficitária no caso da mentira pró-social, como já tivemos a oportunidade de analisar. Ou seja, há uma recriminação social quando alguém tenta implantar uma crença falsa em alguém com o intuito de tirar alguma vantagem pessoal que não seja por um estado de necessidade. Os casos de mentiras com fins puramente egoístas são os mais corriqueiros, nos quais podem ser observadas as sanções contra o mentiroso.
Essa sanção, perceba-se, não se estende a todos os tipos de falsidade – não seria válido para a mentira pró-social e as mentiras com fins altruístas (ajudar um amigo) – sendo mais aplicado aos casos mais graves nas quais as pessoas atingidas pelas mentiras se sentem
manipuladas, usadas como se fossem objetos inanimados; pois se cria a representação de
como se o mentiroso tivesse tirado o senso de dignidade e equidade da vítima. Como as mentiras criam realidades alternativas na mente das vítimas, na medida em que a linguagem é performativa, descobrir que foi enganado por alguém, principalmente em assuntos simbolicamente relevantes para a vítima, é uma experiência semelhante a sentir a realidade simplesmente desabar35, causando, potencialmente, imenso sofrimento. Se há uma sanção contra o indivíduo que mente egoisticamente, então o ato de mentir (e ser pego mentindo) possui implicações morais e, portanto, sociais.
Em todo caso, a principal reação que uma mentira egoísta causa é a sensação de manipulação que provoca na vítima. Por isso que, mesmo que uma mentira seja de pouco grau ofensivo, tal postura, no entanto, não pode deixar de implicar em questões morais correlatas,
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Lembro-me de um professor que contava nas suas aulas de História que quando o Japão se rendeu perante os Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial, o imperador japonês, que era considerado um deus, declarou publicamente que, “na verdade”, não era deus algum, mas um homem comum. Isso causou uma onda de suicídios nos compatriotas que sentiram que tal verdade era insuportável. Se entre escolher saber a verdade ou permanecer na ignorância qual seria o melhor? O mais importante dessa lição é que revelações que desestruturam a psique das pessoas, cuja justificação de sua existência dependem de certas crenças,saber a verdade dói, e pode doer muito.
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ocasionando censura ao mentiroso. As mentiras com fins egoístas e que implicam em violar regras estabelecidas entre as partes (como ocorre nas “quebras de confiança”) sugerem que há uma relação de oposição entre o indivíduo e a sociedade, na qual se rompe os laços sociais de convivência em favor da satisfação do objeto fruto da transgressão, e a percepção do poder de como por meio de meras palavras se consegue manter a aparente estabilidade social ou criar e modificar relações sociais, ou nem isso, como no caso das omissões silenciosas. Sobre esta última observação, para que fique claro, imaginemos os casos de pessoas que por meios de ardis reconduzem o comportamento alheio, gerando com isso uma cadeia incontrolável de consequências. A invasão do Iraque em 2002 perpetrado pelos Estados Unidos é um exemplo radical disso.
A teoria da mente aqui é usada para selecionar o que pode ser crível ou incrível à pessoa com quem se fala, o que pressupõe que públicos diferentes possuem níveis também diferentes do que eles considerarão verossímeis (isso é outra forma de dizer que hipoteticamente há formas mais superficiais e mais sofisticadas de mentiras, cuja aplicação dependerá das exigências de públicos com visões de mundo e expectativas diferentes).
Ou seja, a mentira egoísta, diferentemente da insinceridade, confere a percepção de exercer um poder sobre os outros; sua capacidade de obter ganhos que só se tornaram possíveis porque houve a relativização ou elisão dos limites morais na sociedade, ocasionando a quebra do pacto social – indicando que tal comportamento possui também uma implicação sobre a forma como o mentiroso põe em questão o lugar moral do outro. Se alguém que mente em benefício próprio e que não sofre do que comumente se denomina de “peso na consciência”36, agindo como se sua ações fossem absolutamente legítimas, alguém poderá se perguntar: “é possível e justo tomar esse ato de desonestidade como um traço indelével de seu caráter?”. Dar uma resposta conclusiva para isso está além das possibilidades do presente texto, pois seria necessário saber se a partir do momento em que o sujeito se vale de mentiras egoístas qual seria a probabilidade de que tal ato inaugural que marca seu egoísmo lhe levaria a fazer no futuro. Ou seja, a hipótese de que a descoberta de possibilidades “imorais” lhe abrissem definitivamente as portas para uma vida de trapaças. No entanto, o simples fato de um mentiroso egoísta ter vislumbrado a possibilidade de satisfazer seus desejos e inclinações a expensas dos outros lhe põe em suspeição, na medida em que o custo simbólico que terá de assumir será baixo ou nulo, caso não seja descoberto e punido. Isso lhe proverá muitas
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O que seria o peso na consciência? O seu significado social denota que há um conflito da mente do indivíduo, pós-fato, o qual experimenta uma tensão entre dois horizontes morais possíveis: um que o faz lamentar o dano causado a outrem e um que o fez agir de maneira mais egoísta ou irresponsável.
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oportunidades de experimentar o gozo e deboche advindo da infração de certas regras que limitam o comportamento social.
Afora essas considerações de cunho mais especulativo, o ponto principal aqui é que, comparativamente à insinceridade, o praticante da mentira precisa ter em foco o que ele está ocultando, e a partir disso gerar as histórias (no caso da mentira ativa) que servirão como o engodo para reconduzir o comportamento e percepções alheios. Seu esquema mental se organiza em torno de como convencer as pessoas da veracidade de suas alegações. O mesmo não ocorre no caso da insinceridade, pois os princípios que geram sua prática se orientam mais para o interesse mútuo ou neutro das partes.
Também é preciso deixar claro que a insinceridade social cotidiana se enquadra perfeitamente na possibilidade de haver um mesmo indivíduo com formas diferentes de se apropriar do recurso da insinceridade/mentira em múltiplos cenários. Aquele que é costumeiramente insincero para o chefe e no ambiente de trabalho não será necessariamente com os amigos – pelo menos não tão intensamente. A crítica de Lahire à unicidade do habitus diz respeito à especialização que ocorre quando se assimila determinados esquemas de adaptação a determinado contexto social, que não vale para outros contextos. Neste caso, é perfeitamente possível que uma pessoa produza mentiras direcionadas para fins altruístas e também egoístas. Isso quer dizer que seu talento pode ser usado para “fins pacíficos”, não causando dano a ninguém, como é o caso de pessoas com habilidades ficcionais (para escrever histórias) ou as que mentem altruisticamente, como também pode agir de maneira egoísta, manipulando pessoas para obter o que deseja. Em todo caso, o fato de ser um mentiroso egoísta não quer dizer que todo o seu ser social esteja regido por isso, que todas as suas relações pessoais sejam regidas por artifícios fraudulentos (se costuma mentir em determinados contextos, mentira em todos os contextos que lhe fosse conveniente). É perfeitamente constatável que uma mesma pessoa possua vários esquemas mentais para situações e necessidades diversas.
Tudo vai depender dos jogos de linguagem que o indivíduo participou ou que foi exposto durante sua vida – observando e atuando. Assim, ele se torna capaz de perceber como a mentira poderia ser aplicada em ambientes e circunstâncias diversa. Neste sentido, serão infinitos os jogos de linguagem e os destinatários das mentiras; e serão diversos também os grau de “imoralidade” ou escrúpulos com que se mente. Ou seja, haveria diversas moralidades e pudores em mentir para diferentes públicos. Não se é mentiroso de maneira tão confortável como em um ambiente de tensão, diferentemente de quanto se mente para uma pessoa pela
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qual se nutre a mais alta estima. Ou seja, não é apenas o aspecto técnico – habilidade de mentir talentosamente – que conta quando se tratar de mentir. Quem mente, não sendo de maneira compulsiva, escolhe os alvos de tais mentiras, o que implica níveis diferenciados de escrúpulos.
Se os usos sociais da mentira comportam graus variados de moralidade, o praticante dela estabelecerá formas diferenciadas de mentir para cada um de seus interlocutores em seus múltiplos contextos sociais. Na prática, cada contexto teria um nível de escrúpulos próprio, que não necessariamente se estenderia para os demais. É provável que mesmo o estelionatário que age inescrupulosamente contra suas vítimas possua um quantum de deferência pelos seus amigos e parentes. Assim, tudo dependerá da forma como as pessoas se apropriam diversamente da mentira para seus fins particulares. Seria reducionista e incorreto supor que quem mente seria um mitomaníaco em tempo integral, pois como uma fonte de recurso simbólico, a mentira seria, na maior parte do tempo, dirigida para fins bem coerentes – do ponto de vista estratégico. Nas condições normais, nas quais não há alguma coisa material ou simbólica em questão (reputação, status, reconhecimento de alguém em particular etc.,) não haveria razão aparente para que se minta indiscriminadamente (só quando se trata de uma compulsão patológica), uma vez que, como todo recurso, seu uso prolongado não se sustentaria por muito tempo, seja no cotidiano (ao se adquirir a fama de mentiroso), seja no mundo do crime, pois estelionatários que perdem o senso de perigo são pegos mais cedo ou mais tarde.
Mas quando há poucos escrúpulos, e levando em consideração as observações sobre o loop do hábito, é possível que a mentira possa se tornar algo compulsivo pelo prazer que oferece ao seu praticante. Se é o poder e o prazer que em geral move as pessoas, não seria improvável – muito pelo contrário – que houvesse um prazer inerente ao ato de mentir, como um hobby. Eu mesmo já observei pessoas que mentiam compulsivamente apenas pelo prazer de mentir, pois tiravam satisfação ao manipular a percepção alheia, e estar sempre um passo à frente do enganado. É como um tipo de jogo que se busca satisfação ao se testar qual seria a nova forma de ludibriar, que funcionaria mais adequadamente em um momento particular; é como testar sua habilidade de inventar histórias e ter essa habilidade sempre bem desenvolvida.
A partir dessas observações, é possível montar um quadro sinóptico dos principais aspectos de como o habitus da insinceridade social difere do da mentira egoísta. É certo que há mentiras altruístas e as mentiras insinceras, mas os dois tipos servem de modelos que
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empregam mais nitidez a suas implicações sociais, simbolizando espaços sociocognitivos especiais que, muitas vezes, para os estudiosos das mentiras, são postos no mesmo bojo.
MENTIRA PRÓ-SOCIAL MENTIRAEGOÍSTA
Pouca inventividade. Predomínio do uso de fórmulas convencionais.
Muita inventividade (no seu modo ativo). Uso de formas convencionais e inventadas.
Busca ocultar informações que magoem os sentimentos alheios.
Buscar-se ocultar informações importantes para manipular as pessoas.
Teoria da Mente usada para não ferir os sentimentos do interlocutor.
Teoria da Mente usada para manipular o interlocutor em suas crenças, percepções e ações. Prática voltada para preservar as
relações sociais. Prática voltada para garantir o sucesso da ação do mentiroso. Se descoberto, em geral não será
punido. Se descoberto, será punido caso não se trate de um ato de defesa legítima.
Quadro 01 – Características distintivas dos dois tipos básicos de mentiras Fonte: produção do autor
Por essas razões, apesar de os dois compartilharem a noção que ambos emitem declarações falsas (pois seu conteúdo emocional difere do seu conteúdo expresso), há mais elementos que mostram que há origens e usos sociais distintos.
É essencial que se perceba que uma coisa é a reprodução contínua de uma prática quase que despercebida, que é o caso da insinceridade ou mentira pró-sociais; outra coisa é a mentira com fins mais egoísticos do que coletivos. É certo que quem treina em mentir se tornará, a cada dia, melhor mentiroso. Porém, para ser consequente com a teoria do habitus, salvo os campeonatos de contadores de mentira, seria preciso associar o habitus a um campo de atuação, o que implicaria em delinear empiricamente quais as atividades as quais uma grande habilidade em mentir seria um diferencial competitivo. Como não existe tal campo simbólico de maneira institucionalizada, há que se considerar que, no entanto, existem atividades profissionais, cujos membros se tornam bem-sucedidos se, além da capacidade técnica, forem bons contadores de histórias (há uma relação direta entre criatividade e mentira).
Assim, imaginemos as seguintes situações: um advogado que quer convencer o júri da inocência de seu cliente, apesar de todas as provas em contrário (ter uma convicção cega na inocência do cliente e fingir que essa convicção é a mesma coisa aos olhos e ouvidos de sua audiência); um político que faz promessas vazias, modelando seu discurso de acordo com as conveniências; um vendedor de carros que esconde os eventuais defeitos do produto; um publicitário que anuncia as virtuais qualidades de um produto que ele mesmo não consumiria
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etc. Certas categorias profissionais se beneficiam da habilidade de “relativizar” o que se tem por certo, como estratégia de luta em um determinado campo de disputa por bens escassos.
É possível questionar que tal distinção entre um habitus para a insinceridade ou altruísmo cotidiano e um habitus para as mentiras egoístas seja algo especiosa, uma vez que uma mesma pessoa pode omitir informações valiosas e ser ao mesmo tempo simpática; pode ser uma forma de estratégia. Porém, a especificidade no caso do habitus ser mais afeito à noção de insinceridade social diz respeito à desnecessidade de planejamento ou
improvisação, pois se omite de maneira quase automática, exigindo muita pouca elaboração.
Inversamente, mentir é um ato criativo, que existe não apenas para inventar estórias e álibis, como também não há uma forma padrão de se aprender a mentir, como uma instituição social formal.
Contrariamente a isso, ser educado, insincero é algo que se aprende pela orientação direta dos outros, como uma instituição social, válida para muitas pessoas, pois a criança é instruída – ou se leva a perceber a partir dos outros – que para obter a simpatia alheia é preciso que elas evitem tecer comentários que se consideram “contrários à boa educação”, pois quando se é sincero, inconveniente, automaticamente se é repreendido e desprezado. Deste modo, o mentir egoísta se individualiza bem mais do que a simples insinceridade social, pois neste último caso são mentiras convencionais (amplamente conhecidas e usadas), sendo produzidas, mas com um reflexo oriundo do sentido de tato social, como descrevemos no caso