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Track C Biodiversity & ecosystem services Abstract session 4 – Vegetation studies

Como se pode perceber, decorridos os anos mais ativos da guerra de independência, cujos principais líderes já haviam sido derrotados, como foi o caso de Hidalgo e Morelos, as batalhas de insurgência tomaram novos rumos que pouco se vinculavam à causa de origem. Ainda que se reclamasse a soberania do Estado, os motivos que ensejaram as revoltas já pareciam mais diluídos no tempo. A Espanha vivia o seu momento de adequação política devido ao retorno de Fernando VII e a invasão napoleônica era fato já superado. O movimento de independência das colônias tornava real a construção de um estado nacional em boa parte das Américas.

190 Idem. 191 Idem.

O México, contudo, permanecia preso pelas forças realistas, quando outras nações já haviam exterminado a influência peninsular, Mier só poderia expressar seu real lamento diante da realidade ainda existente na conservadora Nova Espanha: em busca de alternativas dentro das inúmeras correntes espirituais e humanísticas que havia entrado em contato e profundamente convencido de que a voz da vontade geral, que clamava por soberania, a solução só poderia ser representada por meio do Congresso. Uma vez eleito esse corpo civil, essa seria a fonte única de qual todo poder dependeria.

Esse despotismo do Congresso, assim entendido por Villoro, era conjurado pelo dominicano para que nenhum caudilho predominasse sobre os outros e onde a participação popular dar-se-ia somente no momento de eleger seus deputados dentro do conjunto de homens detentores do mais vasto e profundo saber, reconhecidos por suas ações honrosas192. A classe criolla, pouco afeita às guerras e massacres

violentos presentes nas manifestações populares, encontrava nesse órgão político o instrumento ideal para a garantia de seus interesses. A transposição do poder do caudilho popular, em contato direto com o povo, para uma assembléia deliberante demonstrava o interesse criollo em retirar do povo as rédeas da direção política no movimento de afirmação dos estados nacionais.

Faz-se necessária, para uma melhor compreensão da súplica de Mier por um Congresso, uma breve digressão sobre fracasso da expedição de Mina à Nova Espanha, onde talvez possam se encontrar razões dentro do próprio mote ideológico proposto pelo expedicionário. Na opinião do espanhol, a revolução da Nova Espanha não diferia essencialmente da luta do liberalismo espanhol contra o absolutismo e fazia parte de um mesmo movimento histórico de rebelião dos oprimidos contra do despotismo. Mina não teve sensibilidade política para perceber o caráter distinto de ambos os movimentos, haja vista que na Nova Espanha eram considerados insurgentes os europeus que aderiam à Constituição liberal de Cádiz de 1812, somando-se o fato de que aqueles que apoiariam a expedição seria o grupo de comerciantes europeus interessados numa maior participação nos lucros do Estado. A população pouco se identificou com suas idéias, pois não defendia os valores que tinha em comum com a camada criolla, como a proteção contra a invasão das idéias francesas e das inovações liberais.

A expedição de Mina não foi hábil em ganhar o apoio das massas populares, após a queda de Morelos em 1815 e de Hidalgo em 1818. O auge da revolução popular encontrava sua decadência. Era preciso encarar o fim das grandes idéias comuns que moviam a turba revolucionária, o sentimento comunitário foi se esvaindo pelo não cumprimento das promessas que o animavam, apenas restando destruição e perdas. Se por um lado, a carência de satisfação levou a alinhamentos com grupos locais que não mais lutavam por uma causa coletiva, como foi o caso do fenômeno do caudilhismo, por outro, um novo espaço também surgiu para que as idéias francesas e liberais passassem a se impor com grande força.

Ainda que frei Servando jamais tenha afirmado ter lido as obras dos ilustrados franceses e se refira a eles em tom de crítica acerba, se tornava insustentável a tentativa de camuflagem de tais influências, pois, diante das suas inúmeras viagens e intercâmbios culturais, pode-se notar a transformação discursiva do mexicano. Mier expressa nesta carta a importância de que cada cidadão cedesse parte de seus direitos para assegurar os demais restantes, por isso a sujeição a uma autoridade eleita pelos indivíduos, como manifestação de seu desejo, encontraria no Congresso a expressão máxima da vontade geral. Nesse sentido, pode-se entender que a idéia de Congresso surge como meio termo entre as aspirações oligárquicas e a necessidade de dar um paliativo que acalmasse as demandas populares.

O Congressismo radical exibe-se como fim representado em si mesmo e torna-se a obsessão dos pedagogos da pátria que vêem na reunião da assembléia constituinte a vontade geral encarnada. Em vista disso, Mier justifica sua existência com o discurso bíblico ao afirmar que Jesus pregou que a divisão gerava desolação e chega ao cúmulo de suas proposições ao expor que bastaria a existência de um Congresso para que até mesmo os macacos pudessem se autogovernar. Depreende-se da leitura que frei Servando não enxerga no fracasso da expedição de Soto la Marina a falta de coerência ideológica entre espanhóis e os habitantes da Nova Espanha, mas sim no fato do grave erro político de Mina em não invocar a formação de um Congresso que representasse a soberania nacional.

Para o mexicano, bastava seguir a fórmula infalível (um Congresso, um exército que obedeça e um ministro em Londres) para a fragmentação da Nova Espanha ser extinta e os diferentes povos integrantes da nação se unirem. Nessa carta, o frei retomou o desejo de união regional, sem observar as discrepâncias políticas presentes em cada região, assim como quando invocou um ideal de integração pan-americana na SCUAE. É necessário deixar visível uma dificuldade constantemente presente nos textos dos hombres de

la pluma que é o esforço sobre-humano de tentar adaptar a realidade social ao projeto emancipacionista, e

não o contrário, ou seja, de que o processo revolucionário deveria levar em conta o universo humano a que se dirigia.

No período em que escreveu esse texto Mier estava encarcerado e não podia contribuir mais ativamente para a concretização da independência mexicana. Esta angústia intelectual poder se sentida pelo seu entusiasmo utópico em acreditar que a química política por ele formulada era o suficiente para concluir o processo de autonomia político-administrativa do México. Acaso, quando entre nos anos de maturidade política, Mier se torna mais sensível ao cenário mexicano que surge a seus olhos e pode traçar um amplo conjunto de previsões políticas que consideravam o potencial humano e social que tinha diante de si.

Por não haver na Nova Espanha, todavia, a união de esforços diante de um ideal comum é que a ajuda do exterior se fazia necessária e nenhum apoio seria melhor que o dos Estados Unidos, que traziam consigo um modelo congressista exemplar capaz de influenciar sua pátria em formação. Proposições que entram em choque com a tese defendida na HRNE de se evitar a cópia pura e simples das instituições

políticas norte-americanas. Causa interesse o fato de ser perceptível o deslumbramento de frei Servando expresso nessa fonte primária diante da portentosa nação vizinha. Isso pode ser explicado, talvez, no fato de ter sido a última nação em que Mier esteve antes de ser preso e pela ajuda recebida dos estadunidenses quando esteve em Baltimore para a expedição de Mina. Nesse sentido, pode-se entender como decorrência natural de suas indagações políticas a questão do envio de dinheiro ao Banco Central dos Estados Unidos para o fornecimento de arsenal de guerra e aparato bélicos, o que considerava serem gastos irrelevantes diante das riquezas da nação mexicana. Contudo, esse encantamento não se perpetua em seus escritos. No terceiro capítulo é clara a posição mais contida do frei no que concerne ao apoio dos Estados Unidos e as influências políticas por eles emanadas.

O estudo desse documento finaliza com o admirável reconhecimento de frei Servando acerca de si mesmo como figura essencial para o processo de independência da Nova Espanha. Em busca de reconhecimento internacional era necessário um Ministro Plenipotenciário capaz de resolver qualquer tipo de demanda política no exterior, cujas atribuições variavam entre assinar tratados de fronteiras a alianças de comércio, e que isso fosse custeado pela nação. O mexicano traça um breve relato dos inúmeros países que percorreu e de como custeou a si mesmo e seu raciocínio culmina no ponto, onde é por razões óbvias ele chegaria, da sua indicação para tal cargo. É difícil não associar tal manifestação a uma espécie de vaidade intelectual e também política. Frei Servando em 1820 era um homem profundamente transformado pela peculiar experiência de vida que teve na Europa e nos Estados Unidos, desde quando saiu da Nova Espanha em 1795. Entretanto, pode-se perceber nisso talvez uma preocupação diante da ausência de líderes que reivindicassem para o México a defesa de pressupostos coletivos e não apenas locais, como faziam os caudilhos, os quais Mier temia que assumissem de vez o comando diretivo da administração do Estado. Ele próprio reconhecia em si mesmo as características que propugnava para aqueles que deveriam ser os representantes do povo e por isso, nada mais justo, que indicar a si mesmo para assumir tal função ministerial.

Frei Servando surge como um raro exemplo de pensador que cogitou o abandono da pena para uma atitude menos passiva diante da revolução. Sua participação na expedição de Mina, ainda que não tivesse usado armas, exibe-o como letrado que desejava agir mais diretamente na causa independentista, ainda que em suas Memorias faça questão de se eximir de qualquer participação revolucionária, por escrevê-las ainda dentro das prisões inquisitoriais. A pressa em estabelecer a tão sonhada pátria mexicana, fazia com que suas divagações superassem o plano das letras para iniciar a formalização real da república que almejava. Encarcerado e aflito, frei Servando se prontificava a sonhar com símbolos e instituições que pudessem trazer à vida os projetos que conjecturava em sua cela. Por esses fatores expostos, aliados à dedicação em orientar a Nova Espanha para sua autonomia efetiva, o dominicano não poderia deixar de ser visto como um dos verdadeiros ideólogos da pátria que surgia.

6. Carta de Despedida a los mexicanos escrita desde el castillo de San Juan Ulúa por el doctor don