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Ao final do século XVIII, o Sermão foi visto como um exemplo inaceitável de espírito crítico que caracterizava a Ilustração que despontava no horizonte mexicano. De acordo com Héctor Perea, o que a Igreja menos buscava era o questionamento das tradições piedosas, cimentos da fé católica que sustentavam também a monarquia espanhola. Por detrás de tamanho criticismo histórico por parte de frei Servando, se escondia a auto-afirmação do criollo frente ao espanhol84. A imediata reação contra o

discurso deveu-se à ordem do arcebispo Nuñez de Haro para que se pregasse nominalmente contra o dominicano em todas as igrejas da capital mexicana, com base na acusação de ele haver negado a tradição

84 PEREA, Héctor. “Estudo preliminar”. In: TERESA DE MIER, Servando. Fray Servando Teresa de Mier. México: Cal y

Arena, 1997. In: Revista Nexos. Disponível em: www.nexos.com.mx/cya/fray_servando/fray_servando2.asp. Último acesso em 13 de dezembro de 2003. (Coleção Los imprescindibles).

de Nossa Senhora de Guadalupe e com vistas a manter intacta a tradição. Pode-se imaginar a rapidez com que se alastrou tal comando por se tratar do período em que se celebra grande número de festas em homenagem a Nossa Senhora e ao milagre de 1531. Os ataques foram simultâneos e acalorados, o que ensejou um escândalo de grandes proporções. Se frei Servando não pereceu vítima da indignação popular foi pela prudência de se manter recluso em seu convento.

Um édito contra o dominicano foi publicado na arquidiocese pelo arcebispo Nuñez de Haro sem consulta prévia da Colegiata de Guadalupe, principal interessada no ocorrido. O caso manifestava uma irregularidade legal, pois a parte agravada não havia levantado nenhuma querela. Pouco tempo teria durado essa situação, pois o influente e erudito padre Patrício Fernandez de Uribe (1742 - 1796) da Catedral Metropolitana, dirigiu-se à Colegiata no intuito de convencê-la do mal pregado pelo dominicano. Uribe passa a defender o guadalupanismo mais tradicional e se torna o censor oficial do Sermão. Nos dias seguintes, foi aberto um processo inquisitorial e um processo ordinário contra Mier. Segundo ele revela na Apología, havia entregado ingenuamente o rascunho da pregação ao seu confrade superior, sem se atentar para a maldade que se operava contra ele, pois a partir daquele instante, foi lhe imposta a suspensão para pregar.

Frei Servando conta que teve o apoio dos confrades, que afirmavam que era notória a antipatia nutrida pelo arcebispo Haro contra os criollos e suas glórias. Tal indício era suficiente para demonstrar que os eclesiásticos não acreditavam que se houvesse negado a tradição e nem que o sermão possuísse coisa digna de censura ou nota teológica. Como ele conta:

“Es verdad que añadí una u otra especie, para exaltar, como ya dije, la patria y la imagen, y suprimí algunas circunstancias, tampoco admitidas por la Congregación de Ritos, no esencial a la tradición, y necesaria en mi juicio de omitir, para salvar la tradición de dificultades insuperables […] Está claro que mi intento era sólo excitar una discusión literaria para afianzar mejor la tradición, y que mientras, presentaba yo el medio que me parecía conducente”85.

O prior do convento em que vivia pediu a chave da sua cela, o que caracterizava sua prisão oficial. Contudo, segundo as constituições e o direito canônico, a nenhum religioso se poderia prender sem ter sido ouvido e sem prévio processo na ordem de origem, que tenha resultado plena ou semiplena a prova, e muito menos encarcerar um religioso de distinção sobre o qual não recaía suspeita de fuga. A primeira atitude do dominicano foi a de escrever ao provincial, com base em bulas pontifícias que versavam sobre os privilégios dos membros da ordem dominicana, das quais constavam que nem mesmo os delitos cometidos fora do claustro os sujeitavam a uma jurisdição ordinária. Foi proibida ainda qualquer

comunicação com ele, assim como foram lhe retirados livros, papéis e tinteiros, bem como lhe era proibido andar sem sentinelas.

Mier é, então, aconselhado a pedir uma submissão – pedido de desculpas formal dentro de um organismo religioso–, pois, somente nesse caso, teria proteção da ordem. Ele teria feito duas submissões que não agradaram às autoridades, pois era aconselhado a expor onde havia errado e pedir humildemente perdão, ao que frei Servando teria dito que faria somente por não agüentar mais os vinte dias que passou na prisão, sem contar os quinze dias anteriores de reclusão voluntária. Essa informação adicional foi responsável por anular a retratação e ensejar uma reação governamental mais enérgica. Como resultado do ditame, obteve-se a absolvição de Ignácio Borunda, que sabiamente havia transferido toda a responsabilidade do sermão para Mier, e a devida condenação deste.

Traído pelo advogado e personificando em si mesmo a vida de um homem santo, um apóstolo da independência, Frei Servando expõe as datas dos eventos mais importantes da sua vida de acordo com o calendário dos dias santos. Pois, por exemplo, foi na sexta-feira da Paixão do ano de 1795, que o dominicano é condenado a dez anos de desterro na península e reclusão no convento de Las Caldas. Foi- lhe ainda aplicada a perpétua inabilitação para todo ensino público em cátedra, púlpito ou confessionário, sendo suprimido o título de doutor que tinha por autoridade pontifícia e régia, em virtude da sentença. Mier teria saído do México no domingo de Ramos, quando soldados vieram buscá-lo à meia-noite e enviado a Veracruz, para o castelo de San Juan Ulúa, forte que funcionava como prisão para aqueles prisioneiros que seriam encaminhados para a Europa86. Lá, permaneceria durante dois meses até ser

enviado para Madri, 08 dias antes da festa litúrgica do Corpus Christi.