Para contextualização mais clara do SG65 de Mier, convém sumariar os pontos marcantes do
culto e da tradição de Nossa Senhora de Guadalupe, bem como do mito de Quetzacoátl, sem os quais não se poderia apreender de modo pertinente as hipóteses tratadas no sermão de frei Servando.
Desde muito cedo, com a chegada dos conquistadores, a imagem do deus Quetzacoátl foi vinculada às figuras de Jesus e São Tomé em razão dos indícios revelados no estudo da religiosidade indígena feitos pelos primeiros missionários franciscanos no período da conquista do território mexicano. Nossa Senhora, como já referido anteriormente, foi associada à figura da deusa asteca Tonantzin. Essas idéias, à época já não tão recentes, são o mote da pregação guadalupana de Mier, que, ao trazer de volta à arena de debate, essas substituições primordiais, as expõe pela primeira vez com a ênfase de uma tônica política, reivindicando para a Nova Espanha um cristianismo anterior à conquista espanhola, colocando por terra a missão evangelizadora, tida como principal objetivo da conquista das terras americanas. A originalidade do texto servandino surge como destaque no ideário político criollo da pré-revolução de independência.
Quetzacoátl, a serpente emplumada que trouxe sabedoria, justiça e indústria aos homens e que desapareceu voando em direção ao sol, era o mito mais presente e recorrente da religiosidade das antigas crenças pagãs no México. Sua lenda possui características comuns com a de outras populações indígenas americanas – como a de Viracocha no Peru e mesmo no Brasil, com a presença entre os Tupinambás do Maranhão de um certo Pay Zumé ou Zomé66. Em diferentes
64Ver FELICIANO VELÁZQUEZ, Primo. La aparición de Santa Maria de Guadalupe. México: Jus, 1981.
65 A partir deste momento, é conveniente utilizar a sigla SG para designar o Sermão Guadalupano, seguindo-se o índice
de abreviaturas das obras de frei Servando, localizado na página xiv.
regiões do Novo Mundo os conquistadores foram considerados Filhos do Sol. Segundo Lafaye, homem, herói, deus ou xamã, Quetzacoátl era a única figura responsável por servir de ponte entre Velho e Novo Mundo como pertencentes a uma mesma historicidade67. Para os índios, seu exílio
como deus foi compensado pela profecia sempre presente de que um dia retornaria. Para os espanhóis, ele seria o instrumento por meio do qual se reivindicaria o domínio da região. Las Casas trasmite a profecia: “Cuando vieron los cristianos los llamaron luego dioses, hijos, y hermanos de Quetzacoátl, aunque después que conocieron y experimentaron sus obras no los tuvieron por celestiales”68.
Com a conquista, colonizadores e evangelizadores acreditavam ver nos templos astecas signos cuja origem somente poderia advir do cristianismo ou do judaísmo. A cruz de Quetzacoátl era um forte indício de um cristianismo precedente. Tal interpretação satisfazia uma explicação providencial para a chegada dos espanhóis, porém seu significado real era impenetrável para a mentalidade judaico-cristã dos conquistadores. A multiplicação dos resquícios de uma pré- evangelização requeria apoio entre as tradições cristãs, visto que pela conclusão chegada pelos colonizadores, por meio dos relatos indígenas, Quetzacoátl surgia como um deus nascido de uma virgem, era casto e asceta, iniciador da mortificação e promotor da crença em um deus único. Além disso, surgiam reflexos da sua presença nos rituais pagãos de circuncisão, confissão oral e abstinência supostamente encontrados entre os índios. A crença no dilúvio e na torre de Babel garantiam explicações bíblicas plausíveis para coincidências que não se podiam ignorar. Quetzacoátl que significava em sentido figurado “gêmeo valioso”, apareceu como sinônimo grego
Thomé, que significava também “gêmeo”. Disso decorre a rápida tradução de Quetzacoátl como
São Tomé.
A forma que os colonizadores encontraram para explicar o universo desconhecido provinha de associações com os códigos mentais oriundos do mundo que conheciam, por isso davam ao exterior representações hábeis de serem compreendidas pelos seus semelhantes na Europa. Dessa forma, o mito reunia em si uma grande quantidade de signos que não podiam passar despercebidos aos olhos dos evangelizadores. Uma prova disso seria a profecia de um retorno mágico do deus Quetzacoátl, que indicava marcas de um inquietante messianismo, sendo óbvias as semelhanças entre a entidade indígena e Jesus Cristo ressuscitado. Lafaye conta que a idéia que preponderou foi a de ser Quetzacoátl o apóstolo São Tomé, fundamentada sobre a Acta Thomae, uma série de escritos teológicos logo reconhecidos como apócrifos, segundo a qual o enviado de Cristo havia evangelizado a Índias Orientais para além do Ganges e na China69. O descobrimento por
missionários franciscanos e dominicanos de cristãos de São Tomé nas Índias Orientais
67 Ibidem, p.222.
68 BRADING, David. Op. cit., p.109. 69 LAFAYE, Jacques. Op. cit., p.255.
proporcionou vários argumentos para essa hipótese que passava a ser cabível de aplicação no Ocidente. Mesmo o exílio misterioso do deus, que partiu em direção ao Oriente pelo oceano, pôde ser interpretado como um novo Moisés a abrir o mar e sua transformação na estrela Vênus, foi vinculada à estrela de Davi.
O frei franciscano Toríbio de Motolinia (? - 1586) evangelizador ativo no México e na península de Yucatán, responsável pela fundação de Puebla e dos conventos desta cidade, além das localidades de Cholula e Tlaxcala – locais de forte culto a Quetzacoátl – foi o primeiro a recorrer fontes e informações sobre o deus em sua obra Historia de los indios de la Nueva España, associando-o a figuras demoníacas e cultos cruéis. Contudo, o mais ilustre historiador do passado primitivo mexicano seria o já citado franciscano Bernardino de Sahagún, historiador e etnólogo, primeiro a estabelecer em seu próprio trabalho de pesquisa a diferenciação entre rigor analítico e a fé por ele professada. Sahagún foi responsável pela Historia general de las cosas de la Nueva
España, cujo objetivo era fazer conhecer aos sacerdotes espanhóis as crenças e superstições dos
índios, para melhor acabar com a idolatria. Em sua obra, Quetzacoátl é mostrado tanto como um grande sacerdote da cidade de Tula, e como deus da classe dirigente, origem da dinastia asteca, responsável por originar os cultos de auto-sacrifício. Sahagún foi o primeiro historiador a apresentar Quetzacoátl como uma divindade de rosto largo e barbudo, dando espaço para futuros historiadores verem em seus relatos o deus como um apóstolo de Cristo. Tanto para este historiador quanto para o frei Juan de Torquemada e os demais franciscanos evangelizadores, Quetzacoátl foi instrumento utilizado pelo demônio para confundir as criaturas do Novo Mundo a não crerem no deus cristão.
Sahagún faz um estudo pormenorizado da deusa Tonantzin, cuja tradução seria “nossa mãe” para os indígenas, que também a conheciam pelo nome de Cihuacoátl, que queria dizer “mulher da cobra”, cujas vestimentas eram brancas e a quem se ofertavam grandes sacrifícios. Era a divindade maior e seu principal santuário se encontrava no monte Tepeyac, a pouca distância do norte da cidade do México. Informações que são confirmadas por Torquemada e também por Clavijero. Logo, a transposição de imaginários far-se-ia uma prática constante. Nossa Senhora seria a “nossa mãe”, a deusa-mãe dos antigos mexicanos e também a mãe de Cristo, mãe da humanidade. A Virgem Maria seria ainda associada como a nova Eva pelos pensadores católicos do México, e como tal, as cobras encontradas nos santuários mexicanos apenas teriam a função de recordar o pecado original e o símbolo do demônio, de acordo com a interpretação bíblica realizada pelos conquistadores. É claro que essas idéias não forma concebidas de forma plenamente consciente, faziam parte do processo de transculturação e sincretismo que a Nova Espanha sofreria ao longo dos séculos.
A origem do nome Guadalupe é outra fonte de polêmicas, estando mais acertado sua raiz árabe, guad al lupe, cuja tradução seria algo como “rio oculto”, “corrente estreita”. A tradição da
Virgem de Guadalupe mexicana é em grande parte semelhante a Nossa Senhora de Guadalupe da Estremadura, protetora da cristandade ibérica e que empresta seu nome ao milagre mexicano. A aparição misteriosa da Virgem da Estremadura – posterior à descoberta de uma imagem numa gruta nas montanhas por um pastor pobre –, a realização de um milagre de cura e a construção de um templo são atributos semelhantes nas tradições piedosas da península Ibérica e do México. Como a mexicana, a figura de Guadalupe da Estremadura era morena e bastante jovem, cuja lenda asseverava que sua imagem teria sido talhada por São Lucas. A imagem foi protegida e cultuada pelos grandes homens da Espanha e seu mosteiro foi um dos mais ricos da Europa, daí a razão da historiografia considerar a questão da transposição de imaginários de um culto há muito valorizado na península.
Não é intuito do presente trabalho versar sobre a expansão do culto mariano no Novo Mundo. É sabido que os chefes das expedições de conquista originários da Estremadura são abertamente devotos à Virgem, como os irmãos Pizarro e Hernán Cortez, e cada um dos países surgidos das antigas possessões ibéricas se coloca sob proteção de uma imagem nacional de Nossa Senhora. Além disso, a Virgem, única a não ter sido maculada pelo pecado original, trazia esperança aos índios e mestiços que sentiam pesar sobre si séculos de idolatria pagã. Os criollos não poderiam ser insensíveis aos milagres que indicavam ter Maria eleito sua terra. A incredulidade dos
gachupines diante das aparições, não fez senão reforçar a unidade entre criollos, índios, negros e
mulatos, unindo sob o mesmo fervor religioso e nacional contra a dominação peninsular.
Uma nova visão do Apocalipse de João foi responsável por reconsiderar não só o passado indígena como a historiografia da conquista, e por que não dizer a história da cristandade até então: “Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher, vestida de sol, com a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre sua cabeça. Deu-se à mulher as duas asas da águia grande para voar ao deserto, a seu lugar, longe da serpente”70. A imagem do milagre guadalupano, saída do
manto de Juan Diego é a de uma mulher rodeada de sol e com a lua debaixo dos pés, e o simbolismo da águia para os mexicanos é evidente. A Virgem Maria, em sua imagem de Guadalupe, aparecida aos mexicanos, representados em Juan Diego, legava a este povo um carisma especial dentre os demais pela semelhança da mulher descrita no Apocalipse de João. Do mesmo modo que Deus havia eleito aos judeus para seu filho Jesus fazer-se homem entre os homens, Maria, a redentora do final dos tempos, a mulher do Apocalipse, elegia os mexicanos como povo sagrado diante do fim da cristandade.
A devoção à Guadalupe foi capaz de eclipsar a adoração de Jesus no México e tal arrebatamento atingiu tão grandes proporções que muitos escritos da época afirmavam que a Igreja
70 BÍBLIA, Novo Testamento. Apocalipse. Português. Bíblia Sagrada. Tradução: João Ferreira de Almeida. Rio de
viria buscar asilo e refúgio em Tepeyac para fugir das perseguições do anticristo. A nova Roma da nova Igreja teria que ser no México, a nova Igreja seria de Maria, por haver eleito o México como residência. Ao abrigo da devoção, os sonhos nacionalistas puderam desenvolver-se nesses anos decisivos. O descobrimento de novos filões de ouro em San Luis arrastou o rápido desenvolvimento das cidades e, sobretudo do México, além disso o descobrimento tardio das riquezas foi fruto da providência, diante da guerra mercantil contra os ingleses. Esse impulso urbano e modernizador alimentava os encantos dos mexicanos por si mesmos. Fé religiosa e fé nacional se confundem no México, a religião oficial não poderia se firmar antes de ser mexicanizada. Para Luis Villoro, assim se expressa o milagre guadalupano: na união do passado remoto com um futuro de provisão largamente esperado, onde o americano despertaria para uma nova era de inusitada glória e riqueza, em que esqueceria toda a humilhação humana vivida71. A tradição de Guadalupe carregava consigo
um sentido escatológico em que a predileção divina pela América garantiria a libertação de uma ordem social opressora.