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Moderator: Fritz Balkau, International Advisor, Sustainable Solutions, Paris

A segunda carta ao El Español pode ser entendida como um texto mais irônico, onde se vê a expressão mais cáustica de um Mier irritado pelas posturas européias em enxergarem a América como inculta e despreparada para assumir o comando da soberania. Frei Servando se indigna com a proposição de uma conciliação entre Espanha e as Américas, como se seu interlocutor fosse extremamente ingênuo em acreditar na boa vontade espanhola e por isso desconstrói todas as hipóteses alegadas pelo jornalista para que a aliança entre os povos litigantes permanecesse. Embora elogie a imparcialidade de Blanco White, é bastante perceptível o sarcasmo com que o dominicano ridiculariza as proposições do jornalista

140 Ibidem, p.214. 141 Ibidem, p. 230.

espanhol, colocando-se na posição privilegiada de americano letrado que conhece a fundo a realidade vivida pelo continente de origem – embora na verdade só conheça o México –, enquanto White estaria sentado em seu gabinete vendo passar pela janela a turba da revolução.

Como primeiro elemento de estudo, que se mostra bastante evidente no texto, tem-se a emergência do povo como protagonista voluntário da independência de Caracas. Povo esse que se pôs a trabalhar pelos seus mandatários, sendo que a constituição representaria o convencimento espontâneo da nação que manifestava sua vontade. É importante empreender um breve estudo sobre a noção de “povo” que há no ideário insurgente, pois a invasão da modernidade sobre as estruturas da tradição exigia a criação de novos elementos de cognição, surgindo não apenas a construção da idéia de “indivíduo”, como também a necessária compreensão de uma nova noção de sociedade, concebida como uma justaposição de indivíduos iguais, homogêneos e intercambiáveis.

As teorias pactistas pregavam a compreensão de classes divididas em estamentos, cada uma com sua função dentro da idéia corporativa de governo, bem como os atores sociais de tipo antigo eram caracterizados por vínculos que não dependiam da vontade atual dos homens que os compunham, elos que não surgiam da eleição pessoal, mas senão do nascimento num grupo determinado, seja numa família, povoado ou grupo étnico em que os papéis já estavam definidos antes mesmo da pessoa vir ao mundo. A palavra nação e sentimento nacional eram invocados como clara conotação ao reino ou Coroa, expressando a permanência dos vínculos da comunidade política antiga, remetendo-se à idéia de única nação espanhola, o conjunto da monarquia, sendo ela formada tanto por americanos como peninsulares. Embora se invocasse uma monarquia unitária, o que existia era a pluralidade na realidade social.

A irrupção da modernidade no lugar dos vínculos descritos exigiu o remodelamento dos laços associativos embasados na vontade dos associados, onde a própria sociedade passou a ser pensada como uma vasta associação de indivíduos unidos voluntariamente cujo conjunto constituiria a nação ou o povo142. Com a ausência do rei, a nação recobrava sua potestade legislativa. Contudo, essa nação evocada,

assim como o povo, não poderia ser entendida como o conjunto de cidadãos, mas sim como os organismos políticos já constituídos.

O povo de que falam os letrados é o que se supõe representado no Ajuntamento, que na verdade está formado de homens honrados, de educação e posição social, vindos de todas cidades, sendo, na realidade, a classe alta criolla que dominava os cabildos de toda nação a quem se abria uma oportunidade de participar ativamente da vida política do país143. O Congresso seria concebido como uma ampliação

em plano nacional da representação popular ostentada nas antigas instituições que formavam a estrutura política colonial.

142 GUERRA, François-Xavier. Op. cit., p.91. 143VILLORO, Luis. Op. cit., p. 54-56.

Ainda que frei Servando evoque o ideal de protagonismo popular, e sem dúvida nenhuma o povo ocupa papel importante nos seus escritos representando as mutações ideológicas e sociais, é importante observar que o dominicano não se refere à massa anônima, à camada popular dos habitantes da Venezuela, mas sim aos seus representantes mais ilustres que se aliaram para proclamar a independência da província. Além disso, a adoção de um sistema representativo implicava na soberania nacional exercida pelo Congresso; uma vez eleito dele dependia todo o poder da nação. Essa defesa do congressismo é parte importante da retórica servandina nos seus escritos de caráter revolucionário. A simples menção da existência desse corpo civil seria apta a modificar o rumo dos estados nacionais que surgiam, visto que as enquadrariam no rol de nações desenvolvidas.

Essa análise contribui para a questão a ser por hora estudada no que se refere à flutuação dos termos empregados na literatura insurgente. Embora não declarado abertamente pelos criollos ilustrados, é notório que os livros de Rousseau, Montesquieu e Voltaire e ainda os enciclopedistas circulavam amplamente e eram discutidos nos grupos seletos. Contudo, a difusão dessas obras somente teria verdadeira significação se os principais teóricos da independência pudessem fazer claras adaptações ao pensamento criollo, conforme demonstrado na primeira carta, cuja atitude foi a de assimilar expressões dos ideólogos franceses que coincidiam formalmente com a linha de pensamento mais tradicional. No caso de Mier, é difícil não perceber o acentuado caráter das influências ideológicas francesas, que se imporiam em seu texto cada vez com maior força, como se verá na HRNE. Ao afirmar que os termos eram empregados tanto por jacobinos quanto por liberais, o dominicano revela o caráter fluido da terminologia revolucionária. Esse hibridismo entre modernidade e tradição, onde os termos mais radicais recebem interpretação que não choque os leitores e onde os termos antigos recebem nova conotação, expressam a impossibilidade de se conter as transformações ideológicas que as reformas sócio-políticas impunham.

Embora renegue em vários textos a influência rousseauanas, a vontade geral proclamada pelo dominicano é aquela em que os indivíduos cedem parte de seus direitos para adquirir em sociedade a garantia dos demais restantes sujeitando-se a uma autoridade eleita por eles mesmos, que seria o Congresso. Apesar de não se manifestar acerca de Montesquieu, frei Servando demonstra conhecimento das idéias do pensador francês ao falar em poder concentrado nas mãos do rei e na busca do equilíbrio de poderes, com base na divisão e nos contrapesos como elementos da engenharia política do estado moderno que surgia com o movimento de independência das nações americanas.

Uma proposição que coloca o pensamento de Mier na vanguarda entre os ideólogos da insurgência se dá na invocação da união americana, o que expressa certo grau de evolução do seu ideário. Obviamente, no SG, frei Servando se ocupa acerca de indagações vinculadas à realidade político-cultural de seu país de origem. Entretanto, após vivenciar inúmeras aventuras e encontros intelectuais marcantes

na Europa, o dominicano não poderia permanecer cego sobre o grande potencial que a América obteria caso se unisse em um possível império continental.

Não é possível afirmar com toda exatidão se essa idéia de uma América una foi pura e simplesmente absorvida da convivência do mexicano com o pedagogo Simón Rodríguez ou Andrés Bello, ou se expressa uma conclusão natural das teorias pactistas, que entendiam a monarquia como um conjunto de reinos. Brading informa que o próprio Simón Bolivar, cujo sonho de união americana é tese marcante de seu ideário, apoiou-se em Montesquieu e sua república confederada entendendo-a como o estado mais apto a dominar e sobreviver aos conflitos que seriam inevitáveis nas províncias isoladas, argumentos que James Madison também havia desenvolvido com largo proveito em The Federalist, de 1787144.

É possível perceber, todavia, que o arcabouço ideológico de Mier foi construído por intensos e constantes intercâmbios na esfera do pensamento, onde o papel da sua vivência pessoal teria reflexos inquestionáveis na sua produção literária e que encontrariam reverberação em seus contemporâneos, como Bolívar. Há fortes indícios de que o libertador das Américas tenha lido a HRNE, como se verá na análise desse documento. O mesmo, todavia, não se pode afirmar com exatidão acerca de sua provável leitura da SCUAE de frei Servando ou se teria Bolívar elaborado seu projeto a partir das idéias do pensador mexicano, ou das influências do professor Rodríguez ou mesmo em concepções próprias ao formular conceitos mais elaborados. É fato que em sua posição de presidente da Colômbia e de líder político do Peru, Bolívar cogitou a idéia de formar uma república confederada andina, composta de cinco ou seis estados: Bolívia, Peru Setentrional, Peru Meridional, Equador, Nova Granada e Venezuela. Com relação à proposta de união americana servandina, adiantando-se o estudo da Memória político-

instructiva, ela seria formada por três grandes federações: a primeira englobaria México, desde o istmo do

Panamá até as regiões mais ao norte como Califórnia e Texas; a segunda seria da Venezuela a Nova Granada e a terceira abarcaria Buenos Aires, Chile e Peru. Mas, assim como Bolívar, o mexicano parece não ter levado esse projeto mais além da etapa de conversação e das cartas. Enquanto Rodríguez e mais precisamente Bello refletem a voz da Ilustração mais liberal, a de Mier expressa toda a ira e mágoa americanas reivindicadoras e por isso divaga acerca do imenso poder que adviria da Hispano-América unida.

Assim como a monarquia espanhola pensava acerca das Américas, o mexicano também lança mão da idéia da Hispano-América como entidade política e cultural homogênea, que deseja, porém, a independência do continente sobre bases idênticas. Frei Servando desconsidera o caráter plural dos povos que formam o continente e por isso acredita que a universalidade lingüística, religiosa e moral seriam os alicerces para a construção de um grande império. Os vôos criativos da mente servandina chegam a estabelecer um Congresso no Panamá que conteria as ambições do Brasil, Estados Unidos e Europa.

Nossa Senhora de Guadalupe, embora fosse símbolo máximo da eleição mexicana como terra da provisão futura, era alçada a ícone de toda a América independente.

É possível observar que na mente servandina, mesmo diante de um cenário de fragmentação, era cabível a idéia de união. Ainda que cada província proclamasse isoladamente seu status independente, era marcante a unidade de sentimentos e referências culturais e políticas entre si. Mier alega que as províncias americanas já estariam se apoiando mutuamente no processo de independência, não sendo, pois a divisão de partido obstáculo para a união. Pode-se depreender da opinião de frei Servando que onde sempre houve opressão seria natural que a liberdade fosse vista como novidade, mas que esta não seria apta a ensejar a desagregação.

Na visão utópica do dominicano, até mesmo as divisões em castas eram obra do governo espanhol, pois entre índios e criollos não havia diferenças. Segundo Calvillo, a Ilustração e o liberalismo racionalizaram a ordália da paixão de frei Servando, pois deixa de ser para sempre o espanhol americano para assumir a condição única de americano, natural da terra, legatário dos antigos povoadores e em nome de quem exige a titularidade de todo o continente, não apenas como mexicano, mas também em honra dos povos da América145.

Causa interesse a preocupação nos escritos de frei Servando sobre os avanços imperialistas do Brasil em direção aos territórios do Prata, onde revela que Carlota Joaquina não mediria esforços para expandir seu reinado. Na Memoria politico-instructiva, o mexicano conta que teve contato com Hipólito José da Costa (1774 – 1823), o jornalista e diplomata brasileiro radicado em Londres responsável pela publicação do jornal Correio Braziliense. Esse fato permite compreender de onde Mier sorvia informações acerca da política portuguesa no Brasil, contribuindo para sua tentativa de esboçar o contexto das independências em todo o continente americano. O sacerdote acreditava que a invocação da união americana serviria para frear a monarquia ibérica, não se opondo o dominicano ao povo brasileiro, considerando-o tão vítima do despotismo quanto os hispano-americanos, dirigindo sua ira também aos portugueses, assim como faz com os espanhóis. Contudo, mesmo sendo benévolo para com a população do Brasil, tão oprimida pelo absolutismo quanto o resto do continente, o pensador mexicano não incluía o país como integrante de um possível império americano, o que revela o papel sempre peculiar da nação brasileira, em virtude da suas raízes políticas e culturais.

Um aspecto que precisa ser ressaltado, embora já analisado na primeira carta, é o maniqueísmo presente quando se analisa as ações dos insurgentes em detrimento das posturas realistas, já que frei Servando nessa segunda carta parte em defesa aberta da Venezuela, afirmando a inexistência de ilegalidade no processo de constituição de suas estruturas cívicas e muito menos na condenação dos agentes contrários à autonomia do país. Mier critica fortemente todos aqueles que utilizaram o terremoto

145CALVILLO, Manuel. “Prólogo”. In: TERESA DE MIER, Servando. Cartas de un americano 1811-1812. La otra

de Caracas como apelo religioso para a causa realista, podendo-se encontrar nos escritos servandinos o uso da oratória bíblica para fazer valer também suas teorias insurgentes, como foi demonstrado na primeira carta, onde conclama o divino para reger o processo de independência americano, como que afeito à vontade celestial.

Conquanto condene nos inimigos a retórica religiosa, frei Servando se utiliza do mesmo instrumental para defender o ponto de vista dos revoltosos. Essa tomada de atitude religiosa do dominicano expressa, ainda que de modo diverso, a defesa dos ideais católicos, pois como já foi visto, ele não era contra o catolicismo – haja vista que nessa carta Mier defende abertamente a continuação da Inquisição apenas como corpo religioso – mas se opunha à venalidade dos membros do clero ao buscarem manipular a ideologia cristã para a satisfação de interesses mundanos. Essa posição de frei Servando reflete o caráter tradicionalista que assumiu o ideário político insurgente da Nova Espanha no que se refere à proteção dos valores católicos.

As idéias expostas da CUAE e SCUAE fazem ver os alicerces do ideário político de frei Servando Teresa de Mier. Os inúmeros temas abordados e as manifestações claras da opinião do dominicano sobre o processo de independência americano expressam não apenas vertentes ideológicas vivenciadas pela elite ilustrada da Hispano-América, como detalham aspectos que consagram a escrita servandina como arcabouço cultural do movimento de autonomia das Américas. Essas duas cartas são instrumentos fundamentais para o historiador que visa se dedicar a desbravar o universo mental de Mier, pois ambos os textos permitem que se vislumbrem os esqueletos que sustentam a doutrina revolucionária do dominicano. Todavia, é com sua Historia de la Revolución de Nueva España que o sacerdote mexicano tem seu apogeu literário. Essa obra foi a responsável por incluí-lo na excelsa constelação dos pais da pátria mexicana.

4. Historia de La Revolución de Nueva España, Antiguamente Anáhuac o verdadero origen y causas