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O que se pode concluir do SG de frei Servando é que constitui uma declaração pública da autonomia espiritual do México. Se a Espanha tinha São Tiago e Nossa Senhora do Pilar, o México tinha São Tomé e Nossa Senhora de Guadalupe. O célebre escritor, humanista e diplomata Alfonso Reyes descreveu o sermão guadalupano como “audaz, un disparate teológico, debajo del cual se adivinaba claramente la intención separatista”78. Portanto, a pregação não nega a ordem metafísica

imposta pela Igreja católica, mas rechaça implicitamente a ideologia superestrutural que a sustenta, a exploração colonial realizada pela monarquia espanhola. Pode-se perceber, porém, que esse documento não aprofunda explicações sobre nenhuma das proposições; todas as idéias são lançadas sem que o frei se detenha em nenhum dos pontos de forma mais minuciosa.

Somente na Apología, texto que engloba suas Memórias, escrita entre os anos de 1817 e 1820, Mier tentaria preencher as lacunas deixadas pelo sermão, dotando as informações de maior rigor analítico. Na Apología, as principais razões da feitura do discurso seriam expressas, como a principal delas, a glória da pátria. Por tratar-se de uma obra que busca explicar as causas do SG anos após pregação de 1794, o texto possui uma visão autonomista intensificada. Essa intenção talvez não estivesse tão definida na mente de um Mier que ainda não havia sofrido as agruras da perseguição inquisitorial e que não se havia defrontado abertamente com as descobertas intelectuais da Ilustração. Segundo o dominicano, o sermão teria sido um discurso perfeito que fazia honra à América, por isso a repressão foi tão exagerada, como a todo americano que se sobressaísse, como foi seu caso.

Resta do sermão uma impressão clara de que foi produzido para provocar uma reação na platéia que o escutava, com o intuito de revelar uma verdade há muito oculta. Não se pode falar, contudo, em uma postura conscientemente autonomista ou de uma idéia insurgente convicta. Pode- se, sim, depreender um princípio de indagação da situação americana, ao ressaltar a religiosidade indígena pré-cortesiana, sendo o final do sermão, em que pede à Virgem proteção aos espanhóis, apenas um recurso de retórica para abrandar as idéias projetadas pelo discurso. Mier nega a

78 REYES, Alfonso. Obras completas de Alfonso Reyes. v. III. México: Letras mexicanas/ Fondo de Cultura

aparição, mas não o caráter milagroso do manto ou nem condena a devoção guadalupana; tem somente o desejo de melhor consolidar os alicerces sobre os quais a tradição se embasava.

A impressão que se tem, ao ler o texto de frei Servando, é de uma certa atemporalidade, como São Tomé não tivesse pregado no tempo tão distante em que viveram os apóstolos, mas sim, num tempo próximo à conquista espanhola, pois a presença do santo ainda podia ser sentida com facilidade, o que não justificaria a possessão e destruição dos povos indígenas pelos europeus. Tudo que no passado anterior a conquista poderia elevar os índios a categoria de povo eleito ou fazer dos americanos o mesmo, deveria ser apagado. Isso talvez explique os seqüestros dos escritos e a perseguição de Mier, acusado de heresia, mas temido pelo seu comprometimento com o patriotismo mexicano. Como bem observa Lafaye, cientificamente as teorias de Mier não resistem ao exame da razão. Ele expressava, porém, um universo mental de seus antecessores, de monges e missionários cuja interpretação coincidia com o seu sistema de mundo79.

Um ponto a ser melhor explicitado é o fato de como um sermão tão curto e vago, carente de explanações mais extensas, foi apto a mobilizar tamanha reação das autoridades e de causar tal impacto na população que o ouviu pela primeira vez. Conforme foi mencionado acima, as probabilidades de não corresponderem exatamente ao sermão de 1794 são grandes, todavia, cabe ao historiador a tentativa de reconstruir o objeto de estudo com a provável visão de um coetâneo, ou seja, o esforço de se enxergar com os olhos de um indivíduo do tempo e geração aos quais frei Servando pertencia e, dessa forma, compreender melhor as razões do forte impacto social.

Por se tratar de uma sociedade fortemente católica, em que a presença da Igreja sempre conduziu as orientações coletivas, falar-se em miscigenação cultural e transposição de imaginários de maneira aberta, expressando uma clara crítica aos métodos de conversão espiritual católicos empregados na conquista em contraste com a pregação de São Tomé, pautada na persuasão lascasiana, foi algo ousado e engenhoso na argumentação servandina. Mier retoma o discurso apologético e o tom bíblico tão presente nas obras de Las Casas, ao ressaltar o valor da sociedade indígena em busca da fundação de uma nova Igreja nas Américas, depurada dos vícios e corrupções daquela herdada pelos europeus, bem como numa evangelização embasada no convencimento e no amor, e não na violência degenerada que se seguiu contra os povos indígenas.

Sendo ainda o passado indígena visto como heresia e degeneração, associá-lo ao mundo supostamente civilizado trazido pelo catolicismo espanhol não passava de sandice aos olhos dos contemporâneos de frei Servando. O que pareceu herético foi a postura “antiaparicionista” do dominicano, ao pôr por terra os principais aspectos da tradição piedosa, indo contra tudo o que os apologistas de Guadalupe se esforçavam em apresentar como manifestações sobrenaturais. Adotando esse raciocínio, frei Servando expressa a mentalidade de uma Igreja renovada, baseada

em fundamentos racionais, pelo encontro de provas, para melhor expressar uma religião de cunho patriótico.

O ideário de Mier se adequa perfeitamente à fase indigenista do processo de autonomia americano, corrente essa muito presente na história intelectual mexicana. Segundo Villoro, ao negar o passado da conquista, o criollo parte em busca de si próprio. Para esse autor, os movimentos mais profundos da existência humana vinculariam extremos opostos, a negação de si mesmo seria um passo para o próprio descobrimento80. Por isso, a revalorização de um tempo pré-cortesiano,

desenterrando papéis da inteligência criolla como Singüenza y Góngora, bem como a intenção de livrar os indígenas da pecha de barbárie, ao converter os fiéis de Quetzacoátl em discípulos cristãos, evidencia o alto grau de complexidade e refinamento social das sociedades indígenas ao tempo da conquista. Como expressa Villoro, os criollos sentem que sua época coincide com aquela antes da chegada dos espanhóis, ambas se queriam limpas do lapso colonial. Os criollos surgiriam como herdeiros do império asteca, ocupando o mesmo trono, unidos pelo desejo de criar uma sociedade que poderia ter existido sem Cortez.

A pesquisadora francesa Denise Jodelet, coordenadora do Projeto Regional de Intercâmbios entre França, América Latina e Caribe da Casa de Ciências do Homem em Paris, contribui para essa análise quando diz que sendo a novidade incontornável – no caso, a religião cristã no período colombiano –, à ação de evitar a dominação exterior seguiu-se um trabalho de ancoragem, por meio do símbolo máximo mexicano, com o objetivo de acender uma noção de identidade muito anterior à conquista, tornando-a familiar e integrando-a num universo de pensamento pré-existente; partilhar essa idéia serviria à afirmação simbólica de uma unidade. Portanto, as representações sociais seriam socialmente elaboradas com o objetivo de construir uma verdade comum, elas também são produto e processo de uma atividade de apropriação da realidade exterior ao pensamento e de elaboração psicológica e social dessa realidade81. Mier evoca assim, a memória social, buscando nos signos de autocompreensão da sociedade, meios de interpretá-la sobre um novo olhar.

Por trás do criticismo histórico, novas cores traduziam um criticismo criollo em relação à sua própria condição política. Nisso reside a originalidade do texto servandino, ao buscar reunir em um só caminho a emancipação espiritual e a liberdade política americana. Ao buscar a origem de uma evangelização muito anterior à presença espanhola, uma espécie de cristianismo autóctone, Mier descarta a cristianização da Espanha como principal missão desse reinado no Novo Mundo. A dupla hipótese de Mier varria o direito de conquista dos espanhóis, ao mesmo tempo em que reconhecia a graça e especialidade mexicanas.

80 VILLORO, Luis. Op.cit., p.154.

81 JODELET, Denise. “Representações sociais: um domínio em expansão”. In: Denise Jodelet (org.) As Representações

Na Apología, Frei Servando alude que desde criança essa história era conhecida e divulgada na elite criolla: “No extrañé esta predicación que desde niño aprendí de la boca de mi sabio padre. Cuanto he estudiado después me ha confirmado en ella, y creo que no hay americano instruido que la ignore, o que la dude”82. A principal reivindicação de Mier era de igualdade sobrenatural entre

México e Espanha: “Vi que la patria se aseguraba de un apóstol, gloria que todas las naciones apetecen, y especialmente España, que, siendo un puño de tierra, no se contenta menos que con tres apóstoles – Santiago, San Pablo y San Pedro”83. Mier percebeu as virtudes sociais e políticas que o

México teria se tivesse um apóstolo plenamente mexicano.

Após o Sermão, Frei Servando sofre as duras penas de um processo iniciado pelo Tribunal Inquisitorial. O sacerdote, assim como Boturini, foi vítima da devoção guadalupanista, pois sentiu a mesma fragilidade na tradição e buscou apoiá-la com o passado indígena, porém a tentativa de explicação racional, assim como para o italiano, teve um resultado devastador em sua vida. A confiscação de sua biblioteca, sua condenação e sua expatriação para a Espanha são responsáveis por uma intensa metamorfose intelectual do dominicano. Na Apología, o milagre guadalupano é visto sem inocência: a aparição não passa de uma fábula. O frei foi perseguido e condenado por ter agido contra a ortodoxia da fé guadalupanista mexicana. A partir desse sermão, a vida do mexicano se converteria, nas palavras de Villoro, de um drama pessoal, em negócio coletivo. Mier apenas acendeu o fósforo, sem ter amplitude da fogueira que instigava.

82 TERESA DE MIER, Servando. Memorias. Edição e prólogo de Antonio Castro Leal. México: Porrua, 1946. p.05. 83 Ibidem, p.97.