Chapter 1: R&D in Norway
1.1 Total R&D expenditure
EXCERTO 27, CORPUS 1:
594. ANA LÍVIA: e eu peguei um trauma de bicicleta. 595. ANA LÍVIA: Era bicicleta e mobilete.
596. ANA LÍVIA: Eu não posso ver bicicleta e mobilete 597. ANA LÍVIA: que meu coração começa
598. ANA LÍVIA: <Q bum, bum, bum Q>, 599. ANA LÍVIA: é agora,
600. ANA LÍVIA: eu fico logo apavorada, 601. ANA LÍVIA: eu pego a bolsa
602. ANA LÍVIA: e já vou colocando pra frente. 603. ANA LÍVIA: Já é procurando assim
604. ANA LÍVIA: o que é que eu vou fazer pra correr, 605. ANA LÍVIA: já fico logo procurando
606. ANA LÍVIA: se tem uma casa aberta, 607. ANA LÍVIA: porque eu acho
608. ANA LÍVIA: que a pessoa vai me assaltar.
Nesse excerto do primeiro corpus, a violência é conceitualizada com uma epidemia, as pessoas têm sintomas, adquirem traumas, procuram um diagnóstico, enfim, há todo um cenário análogo a o de uma epidemia e mais uma vez predomina a relação metonímica de efeito pela causa em nível de contexto, já em nível de enunciado, predomina a relação objeto pelo usuário. Já no primeiro veículo, linha 594, Ana Lívia, diz ter “pegado” um trauma “de
bicicleta”, uma unidade entonacional interessante, pois a participante usa metaforicamente o verbo “pegar” para dizer que contraiu ou adquiriu um trauma o que nos remete a um cenário
de epidemia em que a violência é considerada uma doença contagiosa que deixa sequelas nas vítimas. Esse trauma é apenas um dos efeitos usados pela participante para conceiualizar a violência (causa) como uma epidemia, além disso, temos uma metonímia no final do enunciado, pois a participante não tem medo do objeto bicicleta ou mobilete, linha 595, mas sim, da situação de ver alguém se aproximando em transportes como esses, os mais usados por agentes de violência, sobretudo, em bairros periféricos. A reincidência de assaltos e outros
crimes violentos, nesses meios de transporte, fez com que eles tornassem-se símbolo de violência, despertando medo e pavor nas pessoas em determinadas situações.
Na linha 598, identificamos um caso interessante de metonímia representado por
uma onomatopeia, pois o “bum, bum, bum” que está associado à batida do coração nada mais
é que o efeito do medo e do pavor sentidos pela vítima ao se deparar com uma situação de violência. Essa violência caracterizada como uma doença epidêmica tem sintomas, pois são
universais, acontecendo com qualquer pessoa, como “colocar a bolsa para frente” ao ver
alguém suspeito, ou procurar um local para se esconder e evitar ser assaltada. Esses sintomas são efeito de uma violência que vem se alastrando pela cidade de Fortaleza, quiçá, pelo mundo, conforme veremos, de forma mais clara, no próximo excerto.
EXCERTO 28, CORPUS 1:
1226. IGOR: .. depois que a violência começou a chegar por lá 1227. IGOR: que agente diz assim,
1228. IGOR: como ela falou,
1229. IGOR: .. é começou a chegar por lá, 1230. IGOR: a minha mãe começou 1231. IGOR: a ficar muito preocupada: 1232. IGOR: <Q Márcio Q>,
1233. IGOR: é meu pai,
1234. IGOR: <Q vamos aumentar o muro,
Ao lermos o enunciado da linha 1226, a impressão que temos, através do veículo
“chegou por lá”, é de que a violência está alastrando como uma epidemia, portanto, as pessoas terão que se proteger, e uma maneira de fazer isso, seria, como diz o pai de Igor, “aumentar o muro”, porque, se ele não fizer isso, tornar-se-á vulnerável à violência. A veracidade de
nossas afirmações é confirmada ao recorrermos à etimologia da palavra epidemia, formada por dois radicais gregos: epi = sobre e dêmos = povo. Algo que se estende sobre aquele povo, algo que está naquele lugar, mas, fundamentalmente, algo que chega e que, em situação normal, lhe é exterior, estrangeira, estranha, como um forasteiro, uma chuva, uma doença ou uma guerra.
Consoante o dicionário Houaiss, essa palavra vem do grego e está relacionada à propagação de uma doença contagiosa em uma região. Assim sendo, a origem da palavra epidemia nos autoriza a inferir que a violência está sendo conceitualizada dentro de um
cenário de epidemia, pois ela chega causando preocupação na população, mudando os hábitos e costumes de um povo. Cabe ressaltar que na primeira unidade de entonação, linha 1226, houve mais um caso de metáfora decorrente de uma metonímia, já que não é a violência, ação abstrata, que chega, mas as pessoas, seres concretos que praticam a ação violenta e, desfeita essa relação metonímica, a metáfora, também, desfaz-se.
EXCERTO 29, CORPUS 2:
593. EDUARDO: <X...X> nós não sabemos lidar com a violência, 593. EDUARDO: porque não sabemos nem diagnosticar essa violência. 593. EDUARDO: .. De onde ela parte?
593. EDUARDO: Quais são as causas?
593. EDUARDO: e se não sabemos diagnosticar essa doença 593. EDUARDO: Obviamente,
593. EDUARDO: Os remédios, 593. EDUARDO: nem virão.
593. EDUARDO: Não vamos conseguir encontrar o remédio.
Essa metáfora foi mais evidente no segundo corpus, visto que os veículos metafóricos que emergiram nele são, indiscutivelmente, irrefutáveis e exigem um menor esforço cognitivo para sua identificação, já que tais veículos pertencem claramente ao campo semântico de uma doença epidêmica. Logo no primeiro enunciado, Eduardo diz não que nós
não sabemos “lidar com a violência”, que não sabemos “diagnosticar essa violência”, em
ambos os casos violência é uma metonímia, pois é impossível compreender a violência sem levar em consideração os agentes.
Ninguém lida com a violência abstratamente, mas com os seus agentes, da mesma forma que para diagnosticá-la, temos partir das pessoas que praticam a ação violenta, pois a violência não existiria se não houvesse que a praticasse. A violência passou de metonímia à
metáfora, pois foi relexicalizada, na linha 593, através do veículo “doença”, mas não é uma
doença qualquer, as perguntas que antecedem esse veículo nas linhas 593 e 594 são fundamentais para caracterizar essa doença como uma epidemia, já que não sabemos de onde
ela surgiu, quais suas causas. Mais adiante, na linha 593, o veículo “remédio”, conotando uma
ideia de solução, vem para sancionar a ideia de epidemia presente nesse excerto, porém, esses remédios podem não aparecer, caso não diagnostiquemos antes as possíveis causas doença.
EXCERTO 30, CORPUS 3:
97. Márcia: Quando a gente se vê nessa situação, 98. Márcia: por um momento
99. Márcia: a gente esquece todos esses discursos. 100. Márcia Quando a gente
101. Márcia: novamente
102. Márcia: retorna à sanidade,
103. Márcia: <X . . . X>, percebe que isso é 104. Márcia: realmente
105. Márcia: efeito da injustiça social.
106. Moderador: Tem também a questão da impunidade. 107. Márcia: Sim, da impunidade --
108. Marília: Eu acho que a impunidade 109. Marília: não seria uma causa não. 110. Eliane: <Q . . . Q> Já seria mais, 111. Eliane: assim,
112. Eliane: um amigo me disse assim: 111. Eliane: Se você não tem a iniciativa
112. Eliane: de ver a violência como uma válvula de escape, 113. Eliane: não precisaria estar preocupado
114. Eliane: com a questão da impunidade. 115. Eliane: Por que nunca olhei
116. Eliane: e nunca tive coragem de deter a violência
O discurso de Márcia, o qual começa na linha 97, já começa com um veículo
metafórico interessante, “a gente se vê”, contextualizando, ela quer dizer que se encontra
numa situação de violência, uma acepção interessante desse verbo que a participante usa para que, quando se encontra em uma situação de violência, seria como se estivesse doente, ideia
que é ratificada pelo veículo da linha 102, em que Márcia diz “retornar à sanidade”. É como
se o ato violento prejudicasse a saúde de Márcia e depois ela ficasse sã novamente, fosse acometida de uma doença e se recuperasse.
No veículo da linha 105, a participante tenta diagnosticar a violência atribuindo- lhe, como causa, a injustiça social, e o moderador ajuda incluindo a impunidade, fator
decisivo para Elaine expor sua opinião divergente dizendo que a impunidade não seria uma
causa e que, se víssemos a violência como uma “válvula de escape”, não precisaríamos nos
preocupar com a questão da impunidade. Esse veículo é interessante por revelar a atitude e os valores de Márcia em relação à violência, pois, ao dizer que considera a violência uma válvula de escape, Márcia lança sobre esse veículo uma atitude positiva em relação à violência, já que essa expressão se define como um refúgio para nós nos aliviarmos de algo. Cameron (2009) escreveu um artigo demonstrando como a metáfora pode ser usada como uma ferramenta para se desvelar ideias, atitudes e valores das pessoas através da análise do discurso à luz das metáforas. Essa ideia permanece na unidade de entonação da linha 116, quando Márcia afirma
que nunca teve coragem de “deter a violência”.
Esse veículo revela uma atitude passiva de Márcia no que concerne à violência, além de trazer imbuída nela, a ideia de epidemia que não pode ser detida. Nesse trecho, temos como predominante, a relação de EFEITO PELA CAUSA, pois o fato de a participante Márcia não ter coragem de deter a violência pode ser fruto do medo ocasionado pela violência que nos permeia.