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Chapter 3: Human resources

3.3 Education

No Projeto para uma psicologia científica, F reud ([ 1895] 1996) mostra como a construçã o de um aparelho psíquico é correlacionada ao processo de entrada na linguagem e na simbolizaçã o primordial. D e tal modo que esta obra poderia muito bem receber a alcunha de uma “metapsicologia do bebê ” (MA R T INS , 2014). O objetivo inicial de F reud ([ 1895] 1996) era descrever o aparelho psíquico exclusivamente em termos quantitativos. A sua psicologia lidava apenas com espacialidades, massas e movimentos, até que foi preciso que ele introduzisse o eu como a primeira organizaçã o psíquica, determinada pela capacidade de parte do psiquismo em se apropriar de uma ritmicidade. Ou seja, formular uma economia rítmica sobre os tempos apropriados para a descarga, de modo a evitar o desengano e, ao mesmo tempo, suportando certas doses de desprazer.

F reud ([ 1895] 1996) elabora uma arquitetura hipotética para um sistema nervoso primitivo, totalmente ficcional, visto que regido unicamente pelo princípio da inércia, no qual se buscaria a todo instante anular qualquer quantidade excitatória no psiquismo. A contece que, se nos remontarmos ao que F reud ([ 1891] 2013) já havia desenvolvido com a sua teoria da representaçã o, esse sistema primitivo só poderia ser equiv alente ao modelo projetivo de uma correspondê ncia exata entre representaçã o interna e o estimulo externo. V isto que se trataria da maneira mais fácil pela qual algo propagado pela parte sensorial desembocaria na parte motora, sendo a verbalizaçã o umas dessas possibilidades motoras. A fim de garantir a lei da descarga pelos caminhos mais curtos, é forjada a diferenciaçã o entre reflexo e inibiçã o, com base no modelo arco-reflexo, amplamente utilizado pelos fisiologistas contemporâneos de F reud, onde tudo que entra, sai. Parece que, longe de ser um tratado fisiológico da vida psíquica, F reud ([ 1895] 1996) elabora o Projeto com o real intento de mais uma vez tecer uma contestaçã o à neurologia de sua época.

D esde o E studo sobre as afasias, F reud ([ 1891] 2013) trabalha com um psiquismo alfabeto/poema. É coerente, entã o, assinalar que o modelo primitivo de sistema nervoso, no qual, por exemplo, as funções do que viria a ser o eu estariam totalmente ausentes, nã o é algo que o nome primitivo pode fazer pensar, pois, nenhuma criança nasce provida apenas com um sistema como esse, de puros outputs e inputs. Segundo Gabbi J r (1994), a razã o pela qual F reud recorre a essa hipótese é exclusivamente porque está interessado em formular a ideia de uma origem do eu. Para o autor, caso estivéssemos, no início, subjugados unicamente a esse império da descarga, ou mesmo da alucinaçã o do desejo, nã o haveria como jamais escaparmos dele. A nosso ver, é exatamente por isso que a gê nese freudiana do eu precisa ser

abordada como efeito de linguagem, pois, ao que tudo indica, o psiquismo está subordinado a ela, desde o início.

A constituiçã o psíquica, da forma como é apresentada no Projeto (F R E UD , [ 1895] 1996), possui, assim, dois pilares fundamentais. Primeiramente, um campo da suposta e mítica relaçã o indiferenciada entre o eu-prazer e o próximo. E m paralelo, dá-se a introduçã o do campo da alteridade, ao passo que o eu se funda como uma primeira organizaçã o psíquica. A experiê ncia com a alteridade é, do Projeto (F R E UD , [ 1895] 1996) ao Mal-estar na civilizaçã o (F R E UD , [ 1930] 1996), marcada por uma vivê ncia dolorosa. E m suas elucubrações sobre a gê nese do eu, F reud ([1895] 1996) toma como fundamental a noçã o da primeira experiê ncia de satisfaçã o. Mas, nã o seria o caso de pensar que, para haver uma experiê ncia de satisfaçã o, já seria necessária a existê ncia de algo como um eu-prazer? E ssa noçã o é também crucial para entender o que F reud ([1925] 2011) chamará de Bejahung ( afirmaçã o primordial); e, enquanto a vivê ncia dolorosa impulsiona o pequeno sujeito a lidar com uma inconsistê ncia do saber acolhedor do próximo, surge também uma Ausstossung (expulsã o primordial). C onsideramos importante assinalar, portanto, que nã o há apenas uma concepçã o de eu na teoria freudiana. Inicialmente, há um eu-prazer que é efeito de presença, de um “sim” doado pelo próximo; mas, apenas com o “nã o”, com a ausê ncia no lugar materno, o pequeno poderá simbolizar a falta e engendrar sua condiçã o de eu-realidade. O eu freudiano que assumirá as feições do sujeito da linguagem é precedido por um eu nã o reconhecido enquanto tal, visto que, na experiê ncia da coisa (das D ing), uma parte desse eu primordial será para sempre expulsa.

A subjetividade nasce no ninho dos afetos, assim como, a moralidade e a ordem simbólica, nascem do confronto com o desamparo inicial, apenas sanado pelo papel crucial da alteridade mediadora. É na condiçã o de carente de recursos próprios que a criança primeiramente recebe uma açã o desiderativa. Uma grande quantidade excitatória se acumula, forçando o bebê a gritar, a espernear. A prematuridade com que o bebê humano é lançado ao mundo, obriga-o, mediante a vocalizaçã o mais visceral, a experimentar o desamparo e a finitude no próprio gesto vocal que lhe humaniza. O sujeito é possuído pela voz para atrair o socorro de outro agente externo. E sse próprio desamparo inicial pode, já ali, ser sustentado como efeito de uma doaçã o de sentido. Os gestos vocais que buscam sinalizar o aumento da tensã o convocam um outro para suprir esse estado de carecimento do bebê . Uma vez que a alteridade entra em cena, ocorre uma atribuiçã o de sentido a essas manifestações do bebê , que enodam a funçã o do auxílio com a da comunicaçã o.

A o longo de sua obra, F reud assinala trê s exemplos de intensidades somáticas que rompem a funçã o primária do sistema nervoso e introduzem o pequeno no campo da exterioridade. S ã o elas: a respiraçã o, a sexualidade e a alimentaçã o. À época da escrita do Projeto, como ainda nã o havia formulado a hipótese da sexualidade infantil para abordar as condições primitivas da constituiçã o psíquica, F reud ([1895] 1996) escolhe o exemplo da alimentaçã o. E xiste, porém, outra razã o especial para essa escolha: a nutriçã o permite a F reud abordar a importância da relaçã o com outro ser humano para a constituiçã o psíquica.

O primeiro modelo freudiano do desejo é extraído da fome. A fome corresponde aos estados de privaçã o que alavancam enormes quantidades de tensões internas sobre o bebê , fazendo com que a descarga seja solicitada em caráter de urgê ncia. S eguindo o princípio da inércia, o organismo sempre busca se desvencilhar das moções pulsionais pela via mais urgente, que é a motora (expressã o das emoções, gritos e inervaçã o muscular). F reud ([ 1895] 1996) demonstra que, quando uma tensã o é exógena, o organismo tenta produzir uma barreira no núcleo do psiquismo e uma descarga motora que representa uma alteraçã o interna. E ntretanto, quando se trata de uma exigê ncia endógena na fonte, a interrupçã o do processo somatório só é possível mediante uma açã o específica a ser realizada no exterior, uma alteraçã o na realidade. É , entã o, que se destaca o papel da alteridade como propulsor dos processos da constituiçã o do sujeito. S e o pequeno ainda é incapaz de solucionar por conta própria o desprazer, a funçã o do auxílio do próximo consiste em, no instante em que elimina a fonte da tensã o, conceber o grito como a primeira nomeaçã o do mal-estar. O mal-estar, entã o, é já estar lançado à condiçã o mundana. C om isso, a pura voz se torna o signo inicial da instauraçã o de um circuito da demanda. A o estado de necessidade se acrescenta a funçã o invocante.

A voz deixa uma marca na primeira experiê ncia da satisfaçã o, mas também corresponde a um operador metapsicológico a partir de sua tomada como signo. Há uma grande implicaçã o dessa vivê ncia na formaçã o de um complexo de signos que fundamentam a memória do estado de desejo. A inda de acordo com F reud ([ 1895] 1996), após a açã o específica perpetrada pelo outro, inscrevem-se trê s operações sígnicas: (1) a sensaçã o de prazer obtida pelo abaixamento da tensã o, ou o registro do movimento que faz cessar o desprazer; (2) a formaçã o de um registro da imagem do objeto; (3) o registro da interrupçã o do processo somatório. Ou seja, pulsã o, objeto do desejo e a notícia da interrupçã o. F ormar um processo amplo que começa com a somaçã o e se realiza com uma interrupçã o possibilita marcar uma ritmicidade nos processos de facilitaçã o da descarga, ou, em outros termos, no estabelecimento dos caminhos preferenciais para a ocupaçã o em uma próxima situaçã o de

semelhante tensã o. D esse modo, a vivê ncia da satisfaçã o nã o consistirá apenas no momento da intervençã o do próximo auxiliador e no alívio subsequente, mas ela é situada como modelo de um processo associativo complexo. Para F reud ([1895] 1996), é a totalidade do evento que constitui a experiê ncia de satisfaçã o. Ou seja, leva em conta especialmente as trê s variáveis apontadas acima e atribui a elas o trabalho propriamente psíquico de distinguir uma nova informaçã o qualitativa sobre a interrupçã o da tensã o somática. Nesse âmbito, o aspecto temporal é revelado como a apropriaçã o do sujeito de um período, um ritmo, entre a presença- ausê ncia do objeto do desejo. S aber operar com a periodicidade torna-se a funçã o mais refinada do aparelho psíquico.

C onforme indica B ezerra J r (2013), F reud diferencia os modos de trabalho da pulsã o e do desejo situando o papel que exercem no circuito da descarga. O desejo terá a ver com “o impulso psíquico para ocupar as imagens mnê micas ( representações) do objeto que propiciou a vivê ncia de satisfaçã o original” ( B E Z E R R A J R , 2013, p.137). S e, por um lado, o desejo é um impulso orientado em relaçã o ao objeto, por outro, a satisfaçã o obtida nesta experiê ncia original está perdida para sempre. D e forma mais didática, o desejo sempre conta com a imagem de um objeto, um rosto, uma melodia da voz. A pulsã o, no entanto, ela nã o se orienta para a satisfaçã o em um objeto específico originalmente. E la é uma fonte permanente de excitações que buscam o prazer ou o além do prazer através do próprio circuito. V ejamos o que F reud ([ 1895] 1996) afirma: “a informaçã o sobre a descarga reflexa surge porque cada movimento, através de seus resultados subsidiários, torna-se uma oportunidade de novas excitações sensoriais” (F R E UD, [ 1895] 1996, p.370). Ou seja, cada descarga produz condições para o surgimento de um novo processo excitatório, de maneira que, consistirá ali em uma força perene. É , entã o, que F reud ([ 1895] 1996) realiza o grande passo de abrir o campo da representaçã o para ser pensado a partir da dinâmica pulsional.