• No results found

International comparisons of innovation

Chapter 7: Innovation in Norway and Europe

7.3 International comparisons of innovation

F reud foi um dos proeminentes seguidores da escola de neurologia dinâmica, na qual temos Hughlings J ackson como pioneiro e Oliver S acks como último grande representante. Muitos, entã o, negli genciam a importância de J ackson, neurologista inglê s que desenvolveu uma teoria evolucionista singular e que influenciou decisivamente a criaçã o da psicanálise. F reud ([1891] 2013), a respeito de J ackson, afirma: “este pesquisador de cujas ideias eu parto em quase todos os comentários precedentes para com sua ajuda questionar a teoria localizacionista dos distúrbios de linguagem” (F R E UD , [ 1891] 2013, p.85).

S e as ideias de S tuart Mill ([ 1843] 1979) deram pistas para introduzir a noçã o de representante-coisa, J ackson ([1884] 2003) concedeu bases lógicas para a teorizaçã o da gê nese do funcionamento psíquico. E le desenvolveu a ideia de que a linguagem se organiza em

diferentes níveis no processo de sua aquisiçã o, e com as perdas regulares de habilidade linguística seriam sempre os níveis mais organizados e refinados os primeiros a se exaurir, enquanto os níveis mais primitivos e indiferenciados permaneceriam por mais tempo. A teoria de J ackson ([ 1884] 2003) dilui a importância das áreas cerebrais para a fala em prol da valorizaçã o de uma teoria funcional acerca de modos concomitantes de processos. E xistiriam nã o apenas centros motores e sensoriais, mas uma hierarquia entre centros “superiores”, “médios” e “inferiores”. D e acordo com K urcgant (2002), todos esses centros se configuravam como verdadeiras “máquinas sensório-motoras”. O que as diferencia é que as superiores sã o cada vez mais numerosas e complexas, enquanto as inferiores vã o ao sentido oposto, assumindo funções diminutas, gerais e mais simples.

O primeiro centro a se desenvolver foi o sensório-acústico, sendo seguido pelo motor, e só depois pelo visual, e por último, o gráfico. S endo, entã o, os traços mnésicos do som a base que daria suporte a todo desenvolvimento e que mantém em dependê ncia todos os outros centros. Isto foi confirmado pelas pesquisas em vida intrauterina e neo-natal, pois hoje se sabe que nã o só o ouvido é o primeiro órgã o dos sentidos a se formar como também, a criança muito cedo aprende a reconhecer e já demonstra sinais emotivos a partir do que escuta da voz materna.

E m 1871, J ackson já havia sugerido que crianças afásicas poderiam nã o apenas continuar a cantar, como a musicalidade, de forma geral, poderia ser acentuada nelas. Isso porque, de acordo com a hierarquia evolucionária, o psiquismo se constrói nã o apenas a partir de aquisições, mas também a partir de inibições de funções que foram importantes em determinado momento da história do sujeito (SA C K S , 2007). A musicalidade que floresce em pacientes afásicos, os restos de linguagem e o dejá raconté as quais F reud ([1914] 1996b) se atenta, apontam para a ocorrê ncia de um tipo de reminiscê ncia. T rata-se de uma sensaçã o de reminiscê ncia que ocorre a partir de uma duplicaçã o da consciê ncia. A musicalidade, os restos de linguagem e as sensações dejá vu exercem seu papel em um hemisfério nã o dominante, que foram adormecidos durante a história do sujeito, dando lugar à s habilidades verbais proposicionais. E sse lugar adormecido, inibido pela complexificaçã o da linguagem, repleto de resquícios, J ackson ([1884] 2003) chama de linguagem emocional.

S acks (2007), em sua obra Alucinações musicais, comenta casos em que pacientes afásicos recuperaram capacidades linguísticas mediante uma transformaçã o no cérebro cuja chave é a musicalidade. T rata-se de um processo de desinibiçã o que permite a liberaçã o da linguagem emocional, conforme J ackson ([ 1884] 2003) denominou o nível primitivo de aquisiçã o da linguagem. R evela-se como conquista anterior à linguagem proposicional, que,

de acordo com hipóteses jacksonianas sobre a involuçã o funcional, sempre seria a primeira a se perder. E ssas aproximações da musicalidade com a linguagem emocional e primitiva denotam um processo de desinibiçã o de algo que estava desde sempre atuante ou conhecido de alguma forma pelo sujeito. A irreprimível força da música nos lança do desafio que foi para a linguagem submeter o homem ao verbal aos limites do dizer.

A pesar do debate nas neurociê ncias sobre a existê ncia ou nã o de uma área cortical primitiva que compartilhe as bases da musicalidade e da linguagem, o caminho de F reud e da neurologia dinâmica sempre foi de pensar em termos de sobreposições. A pontar os momentos em que os papeis de dominante e dominado sã o alterados revela algo sobre a história dessa relaçã o, da construçã o dessa hierarquia no psiquismo, ou seja, quando a fala incorporou o canto.

A musicalidade, para S acks (2007), poderia (re)instaurar condições para a fala introduzindo o sujeito em uma condiçã o essencial para a sua aquisiçã o: a interatividade vocal e musical na relaçã o com o outro, seus gestos, ritmos e prosódia. T rata-se da reatualizaçã o de um modo de interatividade semelhante ao que crianças pequenas nutrem com a linguagem musical das mã es. No entanto, a música nã o veicula uma comunicaçã o de sentimentos e pensamentos propositais do ouvinte ou cantante como a fala. E la pode instaurar emoções ou ser escolhida quando os sentimentos já estiverem na expectativa do sujeito. Nesse sentido, a música é que escuta o sujeito, de maneira que entrar na órbita da música é entrar na órbita de Outra linguagem. O poder da musicalidade seria justamente esse pelo qual se entra em um circuito da alteridade. E sse é um aspecto que faz se sentir vivo e parte da comunidade dos falantes. A linguagem arrasta o sujeito de si mesmo. E nquanto a fala proposicional pode ofuscar isso, precisando de formações do inconsciente para dessa origem outra lembrar, a música revela com toda força.

Importante assinalar que a fala, em si, nã o está apartada da musicalidade. E la nã o é pura diacronia, sucessã o ordenada de palavras. Há vários elementos de musicalidade presentes na fala, como: inflexões, entonações, andamento, ritmo e “melodia” (SA C K S , 2007). A música veicula repetições que podem seduzir as atividades patológicas do cérebro, transformando-as a partir de uma repetiçã o nã o patológica. E ntã o, será mesmo que essa potê ncia do musical, como o romantismo fez acreditar, seria mesmo uma forma de dizer a verdade mais intima, mais original, para além do verbal? Ou será que nã o dizendo nada de si mesma, e mesmo que nã o se trate de um paraíso originário antes da fala, a música pode, na verdade, nos remeter ao passo zero da conquista simbólica? Parece-nos que, ao nã o fixar uma representaçã o, a música tem a própria matéria pela qual toda representaçã o é possível.

Na teoria da representaçã o de F reud ([1891] 2013), há um vínculo indissociável entre uma imagem sonora da palavra com a imagem visual do objeto; resumidamente: a palavra e a coisa. C ontudo, esclarece-se que essa coisa nã o é o que está no mundo externo. O objeto se torna uma coisa na própria rede de associações psíquicas. O laço entre a palavra e a coisa depende, entã o, de uma reiteraçã o constante que o trabalho psíquico encontra sob a forma de uma repetiçã o. A musicalidade, nesse sentido, nã o teria a ver propriamente com a composiçã o da representaçã o-palavra ou com a representaçã o-coisa, mas com a forma pela qual se estabelece um laço entre eles; onde entra em jogo uma lei mais original da ritmicidade.

A linguagem emocional de J ackson ([ 1884] 2003) aparenta-se como uma configuraçã o de base para F reud pensar a existê ncia do inconsciente. A contece que essa linguagem, para o neurologista inglê s, nã o era intencional. E le mesmo a chamou de automática. A té aquele momento, F reud ([ 1891]2013) já sabia que o sujeito era descentrado a partir de uma linguagem inconsciente, mas ainda estava por ocorrer a descoberta crucial para o advento da psicanálise. A grande descoberta de F reud foi que as leis da ritmicidade, da repetiçã o que associam as representações, passam da órbita da linguagem estranha ao sujeito, para fazer circuito nele mesmo. Isso nã o se dá, entretanto, sem o papel exercido pela qualidade das experiê ncias com o próximo, que compõe a primazia do Outro na vida do sujeito.

A gora que fomos além da mera desconsideraçã o de F reud pela música, percorrendo sua influê ncia no lastro de sua teoria sobre o psiquismo, podemos entender sua vontade de superar o musical. E ntretanto, essa problematizaçã o, que começa antes de F reud e tem um horizonte além dele na psicanálise, pode ser reassumida especialmente nas contribuições de J acques L acan e de seu discípulo A lain D idier-W eill. É nessa direçã o que partiremos adiante.