Chapter 3: Human resources
3.4 Recruitment for research
A s origens do desejo e da pulsã o associadas à vivê ncia de satisfaçã o colocam em evidê ncia a funçã o dos registros que se inscrevem primordialmente no psiquismo. F reud ([ 1891] 2013), desde A concepçã o das afasias, pensa um modelo de aparelho que, na exigê ncia de articular representaçã o e linguagem, torna-se um aparelho de memória. A s palavras convivem com seus restos mnésicos, sua própria defasagem ao nã o poder servir a memória com todos os elementos disponíveis da experiê ncia com o objeto, este que F reud ([ 1891] 2013) situava do lado de um sistema sempre aberto, infinito. D o objeto ainda emanam
imagens táteis, visuais e acústicas, muitas das quais intraduzíveis pela palavra. E ntretanto, essas experiê ncias, segundo F reud ([ 1895] 1996), deixam no psiquismo um registro indestrutível.
A teoria representacional anteriormente apresentada havia derivado da psicologia associacionista uma concepçã o possível para a linguagem. C omo F reud ([ 1888] 1996) acreditava que os processos patológicos da histeria possuíam um período de incubaçã o, em que registros psíquicos poderiam se associar de forma autônoma, sua teoria sobre a memória era uma teoria sobre a memória inconsciente. Os conceitos de representaçã o de objeto e palavra e de aparelho de linguagem sã o compreendidos como uma demarcaçã o da relaçã o entre um sistema organizado de maneira complexa (fala, escrita) que integra em si “modos de reações” (voz, imagem) que fazem referê ncia a etapas anteriores do desenvolvimento funcional (A NZ IE U, 1989). T ais demarcações indicam, desse modo, a divisã o mais estrutural entre o consciente e o inconsciente, onde a fala coloniza aspectos sonoros da voz enquanto outros restam inconscientes.
No Projeto (F R E UD , [ 1895] 1996), entretanto, há uma importante contribuiçã o à teoria da representaçã o sonora, além do par objeto/palavra. A través de uma transformaçã o do estatuto do vínculo palavra/objeto, F reud ([1895] 1996) modifica o estatuto da representaçã o inconsciente a partir da relaçã o que ela estabelece com a C oisa (das D ing). C onforme anteriormente sinalizado, F reud ([1891] 2013), ao beber na fonte de S tuart Mill ([ 1843] 1979), acerca da “possibilidade permanente de sensaçã o”, redefine uma representaçã o-coisa a partir da relaçã o entre as sensações e a expectativa. Ou seja, ele acredita que a experiê ncia com os objetos da realidade se dá mediante um fundo de expectativas possíveis. C onforme Garcia- R oza (2004) assinala, “a crença no mundo exterior prende-se nã o apenas à s sensações dadas presentemente, mas a um número enorme de possibilidades de sensações” (GA R C IA -R OZ A , 2004, p.51). E ssa infinidade advinda do campo do objeto é resultado nã o mais do contato direto do sujeito com o objeto, mas de uma rede associativa de facilitações relacionada à memória. Ou seja, a memória influencia o campo da percepçã o, pois o desejo a inunda.
A funçã o expectante estrutura o complexo das representações-coisa e também articula os traços mnê micos para a memória. E ntretanto, vemos também que, da abertura permanente à fonte de sensações da representaçã o-coisa, articula-se a força constante do circuito da pulsã o. A associaçã o dos signos pré-linguísticos e linguísticos, apesar de continuarem se dando por arbitrariedade (pois nã o sã o unidos por nenhuma coincidê ncia natural) sã o, a partir de agora, empuxados por um circuito pulsional. S egundo L offredo (1999), na vivê ncia de satisfaçã o, temos as seguintes representações atuando: “a de coisa,
representante da pulsã o; a de objeto, representa o objeto desejado; a de palavra, representa a palavra ouvida; e a quarta, que indica que parou o processo de somaçã o no aparelho psíquico” ( L OF F R E D O, 1999, p.174-175). A esse respeito, F reud ([1891] 2013) já afirmava em seu estudo sobre as afasias:
D a filosofia aprendemos que a representaçã o do objeto nã o compreende senã o isto, e que a aparê ncia de uma "coisa", de cujas diferentes "propriedades" falam aquelas impressões sensoriais, surge apenas na medida em que no leque das impressões sensoriais obtidas por um objeto incluirmos também a possibilidade de uma longa sucessã o de novas impressões na mesma cadeia associativa ( F R E UD , [1891] 2013, p.71).
A forma como o objeto aparece para o psiquismo é mediada pelo signo da percepçã o, que, em F reud ([ 1896] 1996), também é chamado de traço. A s propriedades sensíveis da coisa, e nã o mesmo a C oisa, fundam uma cadeia, pois elas passam a se referirem entre si. E ste processo de representar/si gnificar nã o será necessariamente consciente, pois, de início, já há algo perdido para sempre no campo da exterioridade da C oisa. D ito isso, a pulsã o talvez nã o seja mesmo aquilo que visa à propriedade essencial da C oisa, mas sim, um circuito que instaura as propriedades do objeto, pois existirá uma relaçã o de concomitância entre o circuito pulsional e a sua representaçã o do desejo.
Na experiê ncia com o objeto, existe um princípio básico de associaçã o por simultaneidade que permite, das propriedades infinitamente variáveis do objeto, poupar simultaneamente algumas delas, estabelecendo uma facilitaçã o para retorno dessa via pelas barreiras de contato. Nesse processo de associaçã o, a formaçã o de um complexo de uma representaçã o-coisa passa a ser o primeiro índice de qualificaçã o do objeto. Qualificaçã o que parte das propriedades pré-linguísticas, ou nã o linguísticas, e passa a compor uma rede simbólica, mediante a longa sucessã o de novas qualidades na mesma cadeia associativa.
Uma vez que o estado de urgê ncia reaparece, háum reinvestimento nas lembranças que levaram à satisfaçã o; o psiquismo buscará, recriando essa situaçã o, alcançar o prazer uma vez obtido. Porém, a reativaçã o do circuito do desejo, por si, nã o é suficiente se o objeto nã o comparecer no real. A contece, entã o, o primeiro grande passo em direçã o à constituiçã o do eu e à demarcaçã o de um espaço psíquico em dentro e fora. O lugar do eu surge via vivê ncia fundamental de satisfaçã o; e o primeiro dentro emerge da experiê ncia com o contínuo e o descontínuo. O surgimento do campo do fora, a realidade, é dependente da açã o do tempo, enquanto adiamento da descarga pela espera do objeto apropriado da satisfaçã o. O que implica, também, que o sujeito deverá suportar certa dose de desprazer e promover ligações (Bindung). A tensã o sexual somática, que pode ser tomada como
essencialmente desprazerosa, precisa ser transformada num estímulo (reiz) para a vida psíquica. Que esse estímulo se constitua tomando o seio materno lança o pequeno sujeito a ter que substituí-lo por um registro psíquico (K E HL , 2009). A s insuficiê ncias desse registro – que é o protótipo da experiê ncia alucinatória – constituem os limites para suportar o aprovisionamento energético, pois nã o estanca a pressã o pulsional.
E ssa primeira representaçã o psíquica só se inscreve, no entanto, porque houve, em algum momento, uma doaçã o do próximo, ou seja, uma açã o específica. T al açã o, no mesmo instante em que cessa a dor da excitaçã o que é expressa pelo grito, conserva nela os preparativos para que o pequeno sujeito encontre meios e destinos psíquicos. D estinaçã o psíquica que é a entrada na órbita da relaçã o com o outro, através do trabalho de representar a espera e de seu gesto sonoro que se transforma em ato originário. A ntes de abordarmos mais propriamente a funçã o sígnica do grito, vejamos ainda como a metapsicologia da voz está implicada na revalorizaçã o lacaniana do lugar sensível da C oisa freudiana.