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A primeira característica da profissão clerical é que do clérigo é exigida uma adesão ideológica à instituição à qual ele está ligado e escolheu servir. Willaime (2003:125) coloca nesses termos: “É a especificidade de uma instituição simbólica de caráter militante pedir a seus membros uma adesão ideológica”. O clérigo tem que acreditar firmemente no sistema de valores e de sentido do qual a instituição é depositária. É claro que esse processo de adesão pode variar no que diz respeito às suas referências mínimas, já que algumas instituições têm poucas doutrinas a serem adotadas, ao passo que outras apresentam estruturas mais complexas em termos de crenças e dogmas. Algumas são mais severas na observância de tais referências, sendo por isso consideradas ortodoxas, enquanto outras são mais flexíveis, sendo por isso tidas como liberais. Numa instituição simbólica são inevitáveis os conflitos ideológicos, resultantes dos diferentes modos de compreender a herança simbólica no decorrer do tempo, bem como do desafio de torná-la relevante para uma sociedade em constante mutação. Nesse sentido, se o clérigo for membro de uma instituição simbólica que produz uma herança culturalmente irrelevante, isso acabará repercutindo em seu status profissional, conforme nos faz lembrar Willaime (2003:126).

Portanto, uma adesão ideológica está implícita na relação profissional do pastor com a IPB. Isso é perceptível já no primeiro requisito exigido de alguém que deseja iniciar o longo processo rumo ao pastorado presbiteriano, que é o de ser membro há pelo menos três anos de uma comunidade local pertencente à IPB. Fica claro que tal exigência pressupõe, no caso de membros comuns, uma adesão ideológica às referências mínimas definidas pela IPB, quais sejam, aqueles artigos de fé considerados básicos. Vencidas as exigências do período de formação teológica no Seminário e de licenciatura no Presbitério, o futuro pastor formalizará a sua adesão ideológica ao sistema de crenças, doutrinas e governo da IPB, mediante os solenes votos a serem assumidos na ocasião de sua ordenação pastoral, um rito de passagem que iremos analisar logo abaixo. Nessa oportunidade, o novo pastor reafirma a sua crença na Bíblia como “a Palavra de Deus” e como “regra infalível de fé e prática”, a sua lealdade à Confissão de Fé de Westminster e aos seus catecismos e a obediência à Constituição da IPB, explicitando publicamente a promessa de cumprir com zelo o seu novo oficio.

Entretanto, no exercício de sua profissão, o pastor poderá enfrentar uma espécie de “crise de adesão ideológica”, resultante dos conflitos que costumam abalar as instituições geradoras de capital simbólico, as quais muitas vezes se vêem diante de várias interpretações de como esse capital deve ser reproduzido em épocas e contextos diferentes. Por exemplo, os constantes embates entre o Fundamentalismo e o Liberalismo teológicos, que marcam a história da IPB, têm tido conseqüências diretas sobre os pastores, dos quais se exige uma definição em favor de uma ou de outra posição ideológica. Assim, não é incomum na IPB os pastores receberem determinados rótulos, tais como: “Fulano é liberal”, “Ciclano é fundamentalista”, ou “Beltrano é pentecostal”. O rótulo que o pastor carrega consigo pode tanto lhe abrir como fechar oportunidades de trabalho em igrejas, presbitérios, seminários ou em outras autarquias da IPB. Visto que na IPB tem havido o fortalecimento cada vez maior do conservadorismo, a tendência é de se exigir dos pastores uma adesão ideológica mais afinada com essa posição. Daí a sensação de mal-estar, desconforto ou de “crise ideológica” que se instala naqueles pastores que resistem a aderir ao conservadorismo conforme este se apresenta na IPB.

Conseqüentemente, a IPB procura garantir que os pastores continuem mantendo a adesão aos pressupostos ideológicos tidos como essenciais, principalmente por meio do controle e da vigilância exercidos pelos presbitérios.

Nesse sentido, tomamos conhecimento de um Presbitério em São Paulo que exige que os pastores que lhe são jurisdicionados assinem anualmente um termo de compromisso no qual declaram continuar aceitando “integralmente” os símbolos de fé adotados pela IPB. Nesse mesmo Concílio regional, fomos informados que um pastor está sendo investigado sob a acusação de “desvio doutrinário” e “práticas pentecostais”. Tais denúncias foram feitas por alguns membros da igreja por ele pastoreada e encaminhadas ao Presbitério por meio do Conselho dessa mesma igreja, por ele presidido.

Um outro modo pelo qual os presbitérios exercem o controle sobre a adesão ideológica dos pastores é o dispositivo constitucional que confere aos Concílios o poder de realizar uma sabatina de opiniões teológicas todas as vezes que houver transferência de pastores entre presbitérios diferentes. Pode acontecer, às vezes, de um pastor, depois de anos na profissão, não ser recebido em um determinado Presbitério por suas opiniões teológicas divergirem daquelas defendidas por esse Concílio. A ausência do exame, porém, pode produzir situações como a que foi narrada pelo pastor presbiteriano Addy Félix de Carvalho (2002:131). O caso se deu quando o seu Presbitério transferiu para outro Concílio um pastor que “gostava tanto de ‘novidades’”:

“Quando o Supremo Concílio se reuniu lá no Recife, em julho/78, um pastor do presbitério que o houvera recebido me admoestou que o meu presbitério não tinha sido ético ao transferir um pastor com posições estranhas, que ele e o presbitério não concordavam. ‘Mas onde está a nossa culpa?’- perguntei. ‘O presbitério ouviu as opiniões teológicas do pastor que vocês estavam recebendo’?”

Gostaríamos ainda de considerar a adesão ideológica sob um outro aspecto. Como funcionário de uma instituição simbólica e tendo aderido ao sistema de valores e à afirmação de sentido gerados por essa instituição, o pastor deve, através de seu trabalho, desenvolver o capital simbólico dessa instituição em meio a uma sociedade pluralista e em processo de secularização. No afã de reproduzir a herança simbólica, o pastor pode entrar em “crise” com seu próprio sistema de sentido, ou seja, ele próprio pode constatar a falta de plausibilidade de sua tradição simbólica em confronto com a cultura contemporânea. O pastor pode descobrir aquilo que Peter Berger (1973:18) já detectava numa época em que se afirmava a morte do sobrenatural: “há uma forte evidência de que as crenças religiosas tradicionais se

tornaram vazias de sentido, não somente em vastos setores da população em geral, mas mesmo entre muita gente que continua a pertencer a uma igreja, seja lá pelos motivos que forem”.

Esse “esvaziamento de sentido das crenças tradicionais” ao qual Berger se refere pode não ser percebido apenas por parcelas da sociedade ou até mesmo por membros de igrejas, mas também por alguns pastores, só que para estes com um agravante: Como profissionais da religião, lhes cabe operar esse sistema de crenças tradicionais, mas como fazer isso, se, algumas vezes, os próprios pastores encontram- se em crise com seu sistema de sentido? Uma resposta possível a essa questão vem de Willaime (1986:209). Embora elaborada a partir do contexto francês, ela pode nos ajudar na compreensão da crise profissional por que passam alguns pastores:64

“Com efeito, não se deve esquecer que o pastor é membro de uma instituição simbólica, em crise de plausibilidade em relação à cultura desta época, e que tal situação põe os membros de uma tal instituição em posição desconfortável: enquanto o protestante de base pode expressar suas dúvidas e viver a Igreja segundo o modo e o grau de integração que lhe convém, o pastor, em sua qualidade de membro da ideologia cristã, é confrontado, imediatamente, pela questão do sentido da tradição cristã hoje e deve, profissionalmente, dar uma resposta, quaisquer que sejam suas interrogações e perplexidades. É preciso falar, mesmo que não se tenha nada a dizer, mesmo que não se tenha encontrado uma teologia que garanta a coerência do seu discurso”.

Por tais motivos, observamos que alguns pastores presbiterianos têm buscado nos cursos de pós-graduação ferramentas que os habilitem a ter um discurso mais competente e legítimo diante da sociedade atual. Isso se reflete nas repostas apresentadas a nossa pergunta: “Qual a importância dos cursos de pós-graduação para o pastor?” Eis algumas das respostas:

“Abre a visão cultural e pastoral do ministro, aproximando-o da realidade em que vive”.

“Abriu minha visão de ministério, contextualizou minha prática teológica, tocou-me num contexto mais amplo do mundo como um todo e não somente o mundo eclesiástico”.

“Proporcionar capacidade crítica para a compreensão da realidade socio-cultural em que está inserido e compreensão aprofundada das implicações filosóficas e socio- políticas das idéias teológicas e eclesia is que defende”.

“Acredito que o pastor precisa se atualizar para poder ter uma mente aberta, para enfrentar o mundo globalizado em que vivemos”.

“Grande valia na compreensão do mundo em que vivemos”.

Nessas respostas percebe-se a necessidade de uma redefinição dos termos do diálogo entre Igreja e cultura, do qual os clérigos são vistos como os interlocutores necessários.