Considerações introdutórias
Até então foram apresentados os conceitos de messias e messianismo, bem como os fundamentos exegéticos das perícopes de Isaías 7,10-17 e 8,23- 9,6, para que, a partir deste capítulo, se possa esboçar uma tipologia messiânica em Isaías nestas sub-unidades do “livro do Imanuel”.
Antes, porém, cabe salientar que existe um eixo pelos quais os oráculos messiânicos são guiados, a saber, a observância do direito e da justiça para o estabelecimento da paz. Esta linha delimita as propostas messiânicas em todo o Antigo Testamento. Para Schmidt, há uma ligação estreita entre as profecias messiânicas veterotestamentária.
As profecias messiânicas estão, portanto, ligadas umas às outras através de uma história. Ao fazerem, mesmo que implicitamente, referências umas as outras, através de motivos como justiça, paz e dependência de Deus, ou então, ao exercerem influência sobre afirmações posteriores acerca do futuro, elas demonstram ser uma unidade. Apesar de a
esperança não se ter realizado, ela é levada adiante e, assim, corrigida e ampliada. Ao AT não bastou projetar a ideologia real do Antigo Oriente para o futuro; ele a reinterpretou de tal modo que ela perdeu alguns traços essenciais.147
E essa reinterpretação também foi utilizada pelo profeta Isaías. Ele deu um novo sentido para o messianismo quando o direcionou para além da ideologia real.
Há uma concepção no AOM de ungido, a saber, ungiam-se altos funcionários da corte. Isso perpassa o Antigo Testamento com a concepção de messias a partir da monarquia, mais especificamente com o rei Davi. Com Isaías ocorre uma outra abertura para o conceito e a expectativa messiânica, a saber, ele se concretiza na esperança que nasce com uma criança (7,14; 9,5).
A. Uma tipologia messiânica em Isaías
A proposta deste capítulo é destacar a tipologia messiânica em Isaías. No entanto, como já foi salientado, quando se refere ao termo “tipologia”, não será utilizado o conceito de metáfora ou alegoria, tão empregado pelos Cristãos Primitivos e Pais da Igreja. Contudo, será observado com quais categorias, ou qual arquétipo, imagem messiânica este profeta destacou. Esta imagem será construída a partir das sub-unidades de 7,10-17 e 8,23-9,6.
Para a fundamentação da tipologia messiânica em Isaías serão usados conceitos e terminologias estudadas nos dois primeiros capítulos desta dissertação, a fim de se chegar o mais próximo possível deste profeta do século VIII a.C.
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1. Isaías e a teologia de Jerusalém e Judá
As primeiras ocorrências do termo maxiah, como sujeito, são com Saul (1Sm 24,7) e Davi (1Sm 5,17). Isso porque o messianismo, a monarquia, bem como a profecia caminham juntas,148 principalmente no reino do Sul. Entretanto, foi com Davi que se acentuou o ideal messiânico. Assim, há toda uma tradição em torno de sua pessoa, que tenta descrever a origem deste rei que serviu como protótipo para os outros.
Neste sentido, há pelo menos três tradições que elaboram o surgimento de Davi no cenário de Judá, em 1Sm 16 e 17:
1) Davi é ungido por Samuel (1Sm 16,1-13);
2) Davi aparece como tocador de harpa para Saul (1Sm 16,14-23); 3) Davi vence o guerreiro Golias (1Sm 17,32-54).
Destas tradições, a unção de Davi e sua vitória sobre o filisteu ganharam maior proporção e força durante seu reinado, bem como na sua dinastia. A primeira por causa da unção e posterior eleição da sua casa para dinastia eterna. Já a segunda se fortaleceu devido ao cunho guerreiro que repousou sobre a figura de Davi, mesmo sendo considerado o menor da casa de seu pai (1Sm 16,11);
O aspecto bélico teve uma esfera muito marcante no reinado de Davi.149 Um dos motivos geradores de tal concepção ocorre com suas incursões militares. Estas que não dependiam da estrutura de um exército das tribos para
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A respeito do messianismo e da monarquia, já foi destacado a relação que existe entre elas e suas conseqüências. Quanto à profecia e à monarquia, é interessante salientar a tese de Milton Schwantes de que a profecia bíblica surge, concomitantemente, com o período da monarquia (11º século antes da era cristã) até o período pós-exílico (6º século antes da era cristã), culminando com o fim do período monárquico em Israel e o surgimento de movimentos e escritos apocalípticos, como de Ezequiel e Daniel. SCHWANTES, Milton. “A Profecia Durante a Monarquia”. In: BEOZZO, José Oscar. (Org). Curso de Verão. São Paulo: Paulinas/CESEP, 1988. p. 15.
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DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. V. 1. p. 220-221. e CAZELLES, Henri. História política de Israel. São Paulo: Paulinas, 1986. p.136
sua composição, antes era formada pelo chamado “exército particular” (1Sm 22,2) de Davi. Com isso, sua reputação ganhou mais força. Até mesmo o fato da cobrança de impostos, não tão acentuada como aconteceu com Salomão,150 foi de grande repercussão para a figura do rei como ungido de Javé, aquele que em nome de Deus vence as batalhas contra os inimigos de Israel, e ainda traz para o povo a notoriedade frente às outras nações.
Um segundo momento da tradição messiânica ocorre quando da divisão dos reinos. O Norte fica sob Jeroboão e o Sul com Roboão. Sendo que o primeiro era general do exército de Davi, e o segundo seu neto. O Norte deu continuidade à monarquia através do carisma, não da dinastia. Enquanto que no Sul somente os descentes de Davi é que subiram ao trono, com exceção de Atalia que reinou por volta de 841-835 (2Rs 11,1-20).
Assim, neste episódio, intensifica-se a relação entre unção e guerra. O rei, que é ungido de Javé, surge para guerrear em seu nome. Mesmo porque durante o período da separação, e posteriormente, Judá e Israel viveram um período de relativa paz, até a segunda metade do século VIII a.C. Com isso, o ideal de uma dinastia davídica, regida pela unção e pela guerra, são assumidas ao longo dos anos por Jerusalém.
Apesar da morte de Davi, a teologia messiânica não perdeu força. Pelo contrário, tornou-se cada vez mais sólida, pois foi cristalizada e idealizada no reino dividido.151 A morte de Davi faz com que haja na mentalidade das pessoas a idéia de que é possível um reino melhor, assim como foi com reino davídico. E o imaginário cresce e o messias toma contornos utópicos, pois nunca será um Davi e nunca fará reviver momentos semelhantes aos vividos
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Segundo Nakanose e Paula Pedro: “Davi não massacrou o povo do campo com tributos, pois conseguiu assumir muitos bens e riquezas a partir de conquistas”. NADANOSE, Shigeyuki e PAULA PEDRO, Enilda de. Como ler o primeiro Isaías (1-39). p. 17. CAZELLES, Henri. História política de Israel.p. 145-155.
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A esta assertiva, Bailão explica da seguinte maneira: “A esperança messiânica não morre com a morte do messias ou com a frustração do movimento. A esperança permanece latente até que novos fatores a despertem, promovendo outros surtos messiânicos. Assim também o messianismo davidita não se encerrou com a morte do rei belemita. Permaneceu no ideal político-religioso coletivo judaíta. Renovou-se e com o tempo desempenhou novas funções e até incorporou novos conceitos”. BAILÃO, Marcos P. M. C. “O nascimento do messianismo judaíta”. In: Estudos Bíblicos, nº 52. p. 15.
com este rei. Durante muito tempo o ungido foi considerado como guerreiro, aquele que além de reger com o aval de Javé vence todos os povos.
E, dessa maneira, com a divisão, as tradições de Davi e Jerusalém ficam no Sul, conseqüentemente o messianismo também. Entretanto, como fora aludido no primeiro capítulo, há duas tradições que correram em paralelo no que tange ao davidismo: a de Jerusalém e a de Judá. Observa-se que estas duas tradições provêm de um mesmo referencial, contudo divergem em muitas questões. Poder-se-ia descrever essas diferenças da seguinte maneira:
Em Isaías ocorre, portanto, uma nova releitura para a proposta jerolosimitana de messianismo, na qual a partir de uma criança que nascerá, o profeta aponta para a abertura política e religiosa em um novo tempo que é regido pela esperança marcada no nascimento de uma criança.